Lista de Poemas

Martelo introjetado

o martelo agalopado
no contracanto do verbo
é assim como um recado
traçado a pau e a ferro
que no tapete da língua
desliza o dom da palavra
como se fora um presente
que o nordeste espalha
e o cantador esculpindo
a paisagem do seu interno
despeja um som peregrino
nas costelas da américa

cantar é só um instinto
a que o homem se entrega
8

Dos cifrões em distopia

o capital
assanha a cena
a sanha, a sina
de cifrar a fome
nas esquinas
a fome assanha a seiva
humana sina
de cifrar a cidade
no vazio das tripas
o futuro assanha a sina
da verdadeira sanha
das humanas cifras
7

Do poema em aguda trama

o poema
não é uma sala de palavras
é um roçado de verbos
em aguda lavra
o poema
não é espelho de poeta
antes é sombra e trilha
do que o tempo empresta
o poema,
sobretudo,
é um grito alinhavado
nas costuras do mundo
7

Híbrida montagem

híbrida
a guerra litiga
o engano do tempo
no colo da notícia
canhões
em declarada sanha
dão-se aos tiros
da suja propaganda
a morte e a fome
inundam o povo
até que o lucro
esteja composto
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Do futuro em rumos

o futuro da vida
é larga estrada
dos veículos voluntários
da empresa da alma
seu rumo
mesmo indivíduo
no tanto de solitário
é sempre coletivo
dá-lo como argamassa
de moldes infinitos
e toma-lo nos braços
como destino construído
7

Etária minudência

o relógio
não entende o alarde
dos ponteiros do homem
transitando a idade
falta-lhe o senso
de dar-se confuso
em trafegar o presente
sofrendo do futuro
o relógio pari passu
é só o presente em largo curso
lembrando o passado
aprontando o futuro
8

Poema a Lia de Itamaracá

Lia de Itamaracá
é uma ciranda exata
das léguas da herança
derramadas da África
cooperativa humana
o povo dançante
é um imenso cordão
fincado no horizonte
Lia com sua régua
de bemóis alinhavados
é só a contramestra
da multidão nesse passo
8

da praça em alvoroço

os olhos
postos da janela
jogavam a paisagem
nas idéias
a praça
grávida de povo
discursava pela vida
os verbos do novo
o homem
montado no discurso
guardava nos olhos
o jeito do futuro.
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Onírica constatação

deitado no espaço
o sonho incomoda
por tudo que do sono
não entorna

de pé, assim no tempo,
o sonho transgride
todas as inações
que o corpo admite

o sonho é um vendaval
da vida posta em riste
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Matemáticas lides I

os números
em seus montantes
dão-se ás contas
como figurantes

dígitos informes
fogem da lida
de expressar qualidade
nos restos que indicam

os números apenas retratam
as quantidades da vida
conta-los como qualidade
é transforma-los em dívidas

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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.