Lista de Poemas

Jornada em largo conluio

o caminho
vinha comedido
no tratar-se légua
com ares de infinito

o homem
tecendo passos
bordava a vontade
como compasso

de repente, enganando a tarde
o tempo deu um salto
caminho e homem anoiteceram
num destino acordado
8

Do poema em contrato

afagando palavras
no dorso do verso
deixo-me estar
em grave manifesto
verbal e semântico
construo decretos
peças pactuadas
no vão do cérebro
o verbo em fuga
em passos inocentes
transita por mim
como baldia corrente
o poema surge na noite
tráfego de sonhos recorrentes
8

poeta verbal em semântica tese

no poema
em trânsito recorrente
o poeta sonha
o que a palavra sente

bruto, em sua lavra,
o verbo admite
a onírica vontade
de quem lhe permite

o poeta é um verbo itinerante
que o verso, às vezes, admite
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Poema em solitária fala

o poema
é uma fresta
por onde, avulso,
intromete-se o poeta
dado assim ao verbo
às vezes, mesmo mudo
contrai a condição
de pretensa fala do tudo
o poema, entretanto,
é só um corrimão
onde o poeta sobe
escadas da solidão
as do sentir o mundo
e as de po-lo em ação
13

Das providências temporais em curso

o futuro ilude
todo ato que não pude
avesso a si
e à quietude
o tempo transborda
os atos letais
de sua juventude
e derrama, impúbere,
todas as rimas
que o poema larga
em suas latitudes

nesse conversar a vida
arma-se a cara do futuro
17

Da verdade em trajeto

a verdade
é plástica
deita na história
como prática
de um presente uno
de um futuro drástico
em que se esfuma
como histórico laço

relativa,
consolida o ato
de dizer-se absoluta
no tempo do fato
6

Lembrança

a saudade,
como um grande laço,
é um gesto navegante
dos barcos do passado
nos mares que trazemos
como um grito represado

vive na lembrança
como um desacato
do futuro que se ausenta
do presente navegado
10

Poema a La Negra

da garganta
em súbito espanto
a voz monta no tempo
em latino canto
a América flutuando
em bemóis crescentes
inventa Mercedes sorrindo
no colo do continente
e assim indígena, passarinho,
negra e vivente
Mercedes Sosa é discurso
de tudo que se sente
7

Da gira em candomblé falante

o atabaque
travando a fala
espalha verbos
no chão da sala
as pernas
dançantes peregrinas
giram a vida
em busca de destino
o redemoinho humano
como uma forja imensa
explode esconderijos
no vão da consciência
7

Lua em privada posse

a lua
em mergulho inato
deixa-se no céu
como recado
esvoaçante
nos olhos da amada
vê-se como oferta
do namorado

a lua nem desconfia
desse mister privado
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.