Lista de Poemas

Paisagem matinal

farsesca
a manhã desponta
com restos da noite
em suas sombras
o bem-te-vi,
entoando loas contritas,
assuntando o tempo,
tenta acordar a vida
e o homem, na calçada,
em larga inadimplência
tenta acordar da fome
em sua magra paciência
6

Pequeno retrato em fluvial alcance

e o Sanhauá escondido
por trás desse casario
é como se fosse um laço
que prende nossos caminhos
inventando largas saudades
em todos nossos destinos

os coqueiros enlaçam
os restos de oração
como se os homens dissessem
no meio desses senões
os milhares de gritos
de que se dizem patrões

sentada pelas esquinas
a vida assim espreguiça
como se fora uma nave informe
pousada nas avenidas
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Gestos em bailarina cena

a bailarina
navega o palco
como um mar privado
de todos os seus barcos
constrói ondas, tempestades
e voa como uma garça
inventando nuvens
pelas frestas da tarde
navegante de si
nesse largo alvoroço
inventa na ponta dos pés
as artimanhas do corpo
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Humana gesta

esse terçar da natureza
de lutar em si inutilmente
como se não fora humana
sua condição de combatente

nas trincheiras de si mesma
armar-se intensa do recurso
de desarmar as armadilhas
que lhe jogam contra o futuro

forjar-se como assim outra
nas escaramuças da vida
e abraçar vindoura combatente
o universo construído nessa lida
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Retrato citadino

na fila, como postes,
largados pelas rua
os homens transitam
verdades e culpas
as dos débitos da fome
as dos créditos da luta
a realidade,
em voo rápido,
inunda a manhã
com seus contágios
humanos abraçados à vida
convivem todos seus percalços
e desabrocham a história
com a incerteza nos braços
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Das idéias em rasante

a idéia
buliçosa
tocava no homem
em larga prosa

vestida de verbos
dançava fortemente
como um roldão virtual
nas paredes da mente

a idéia pulsando os desejos
em letras, palavras e cenas
furtivamente intrometida
deu-se aos versos do poema
8

Túpac Amaru em recado

Túpac Amaru
deixa-se intenso
no rumor que prolata
no zumbido dos ventos
nas curvas dos Andes
como um frugal invento
ressoa nos homens
as ranhuras do tempo
Túpac Amaru, já futuro,
assim derramado
é a história tecendo
todos seus bordados
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poema em franca distopia

que o poema
viva o ritmo cabralino
de parecer descaso
do que seja íntimo
que o poema
dê-se ao exato ofício
de por em dúvida
as léguas do infinito
e que despeje destroços
de seus indícios
nas larguras que traga
nos verbos que consiga
o poema quando ainda é laço
é distrato vigente dos nós da vida
7

Faminta acepção

a fome
é uma dor avara
dá-se à mínguas
no colo da alma
por doer-se tanta
no corpo em que lavra
sua inadimplência
em rasas tripas
põe-se pelas faces
em desumana dívida
a fome instaurada estica
os palmos de vergonha
impostos na vida
8

Frevança

o frevo, em ondas,
em confusa trança
tange o peito do povo
no colo da dança
em largo jeito,
solo da esperança,
o passo apressa o tempo
e a vida descansa
a música é o compasso
do palpitar da cidade
que deixa dentro do povo
esse gosto de saudade
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.