Lista de Poemas

Do poema em larga estrada

e se o poema
der-se à razão
de transitar palavras
à contramão?
e se o mundo
deitado em suas curvas
der-se ao pessimismo
de suas contraturas?
talvez o verbo
em sumular postura
dê-se à condição
de vestir-se da disputa
e embrenhar-se inteiro
na verdade literária da luta
15

Violão em saudade intensa

o violão,
em seu manifesto,
acorda a saudade
como um protesto
escreve bemóis
no pensamento
espalha lembranças
tão impunemente
o violão é quase um lençol
cobrindo as marcas do tempo
no urgente grito das cordas
navegando o colo dos ventos
6

Do menino de Alepo

em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo

que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
7

Vívida vazão da existência

a vida, às vezes,
é bólide
voa no tempo
às vezes, dorme
ventre de si
em parto e forma
de tanger-se outra
em suas normas
a vida é sempre
astronave e escola
nos quadros negros
e nas asas das horas
7

rurais avisos das palavras

a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta

o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
7

Gaia em peleja desatada

Gaia, devastada,
dói em si
pelas estradas
treme, exausta,
nos rumores que solta
em suas falas:
os gritos dos ventos;
os arrepios das matas
Gaia constrói as manhãs
como um tempo exato
que entorna o futuro e os homens
no vão de seus braços
18

Pensante natureza

o homem,
consciência da natureza,
joga em si
liberdade alheia

tudo que o liberta
é a capacidade de se-la
e trazer-se solto
apesar de preso

o pensamento é mais um produto
dos rompantes da natureza
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Manuscritas emoções

na caneta
o poema escorrega na tinta
como se fora um quadro
em que a palavra pinta

o neurônio esvoaçante
em sinapse aguda
constrói com as mãos
a urgente escritura

os sentimentos do verbo
em desenfreado galope
passeiam no homem
como um transeunte enorme
6

Do menino em caçuá viajante

sentado no caçuá
o menino sonhava
atravessar a manhã
no balanço de suas asas

os olhos na estrada,
pássaros avulsos,
entornavam o sonho
nos braços do futuro

o animal em passo flutuante
era uma ave em largo curso
o menino, inventando o tempo,
voava a estrada nos seus pulos
5

Circense travessia

o palhaço
construindo o riso
espalha ilusão
nos ombros do circo

os olhos do menino
lançados no palhaço
são trapezistas saltando
nas artimanhas do ato

o palhaço é uma usina farsante
das mágoas que traz nos braços
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.