Lista de Poemas

Faminta exação das horas

rasa,
a manhã suporta
um pouco de carne
ao redor dos ossos
como se fora um grito
grávido de revolta
o homem, apartado de si,
como uma gaivota,
voa sua fome
em todas suas portas

a cidade nem pressente
as ruas que choram
6

Da coletiva razão do povo

a construção da vida
e dessa condição humana
são atos sempre de todos
são fatos de grave chama
nada das gentes
dá-se como exclusivo
tudo é pleno do povo
nas ondas de seus gritos
os que acordem o mundo
os que chamem o infinito
tudo de dize-lo tanto
é tê-lo sempre coletivo
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indígena menção da vergonha

o yanomami, em ossos,
discursa a pele
como uma navalha magra
no punho da terra

carne
na pouquidão de ainda vida
escreve no tempo
uma vergonha infinita

da ação dos homens ruge
a suja condição de parasitas
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Das lonjuras volitivas do horizonte

o horizonte
posto na memória
deixa rastros do futuro
pelas córneas
escreve paisagens
nos sonhos que invoca
tê-lo viajante
pelo vão dos olhos
é fazê-lo constante
nos braços das horas
o horizonte é um sonho
grávido de demoras
acha-lo assim longe
é construir em tudo a história
7

Das avenças coletivas do caminho

deixo-me em mim
quando parto
e o destino no outro
é meu compasso
a vida é esse trafegar
na correnteza dos passos

o coração molhado na razão
é só um jeito do recado
em dar-se, assim coletivo,
às recorrências humanas do fato
8

Das vias mundanas da pátria

as veias da pátria
são vias avessas
o rumo que as leva
ressoam no peito
como uma fala privada
num coletivo estreito

as veias do mundo
são vias do futuro
na pátria geral dos povos
no discurso de tudo
8

Fluviais andanças de mim

saio de mim
viajante sorrateiro
nas andanças alheias
em que passeio

corrente,
deixo-me rio,
nas cachoeiras que monto
com meu riso

desembocar num vasto estuário
é só um detalhe desse rito
8

Minha terra

O céu da minha terra
tem um jeito diferente
é assim como se o tempo
quisesse brincar com a gente
e derramar pelos olhos
uma certeza urgente
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dos arquivos em humano firmamento

nas nuvens
o arquivo agita
todos os bites
no vão da vida

a lógica
trânsito incauto
deixa no peito
um céu descampado

o dispositivo humano
jaz interditado
tudo que lhe move
é um mouse quebrado
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Culposa resenha em conceito

o martelo das culpas
esquece a vontade
de comete-las tantas
no vão da liberdade
as que sejam privadas
as que invadam a cidade
te-las em depósito
deitadas no desejo
é como eximir-se
nos desvãos do medo

a culpa é só um jeito tardio
de aprisionar o cedo
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.