Lista de Poemas

Humana logística

eis a logística:
dar-se ao tempo
e trazer-se espaço
nos ombros da vida

nada que seja breve
deixe de dar-se longo
e flutue no pensamento
como um bumerangue

a idéia tange os atos
pelas esquinas do sangue
como um derramar-se exato
de quem sempre se tange
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Sapateiro em militância

o sapateiro
engraxando a vida
dava-se ao tempo
como comunista
e nesse ímpeto
ao ter-se liberto
construía sapatos
e alguns panfletos

Chico do Baita
inventava em tudo
as andaduras fartas
dos calçados do futuro
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Siá Luzia em revista

Siá Luzia
quando tricotava
tangia todos sonhos
nas agulhas que usava
seus olhos eram as vias
dessa onírica viagem
trançada na solidão
que invadia suas faces

Siá Luzia era um grito mudo
com todos seus disfarces
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Cicatriz em vias pensantes

a cicatriz,
pousada no tempo,
dói como um fato
no vão do pensamento
cava a consciência
como uma pá indormida
traçando as dores
na argamassa da vida

a cicatriz é só um gesto
da dor querendo despedida
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Do poema em forma

o poema
pode ser complexo
inventar enredos
e palavras textos
consumir estrofes
desenhando verbos
e dar-se ao mundo
em varal moderno.
o poema
pode ser humilde
nas gramaturas do que diz
da vida que comenta
traçando retratos
nas palavras simplesmente
como se fora enredo
daquilo que se sente
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Etária constatação em vagas

assim em riste
como cicatriz do tempo
a vida sempre gira
como um catavento
as voltas que dá em si
nas curvas do pensamento
a vontade da razão
espalhada nos atos
inventa os ventos que pode
esparramada nos braços

o tempo é só um distrato
da eternidade do espaço
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Frevo em trânsito corrente

o frevo
dá-se assim como vício
de escrever pelas pernas
o retrato do infinito

tangendo o povo na rua
nos bemóis que explicita
escreve um tempo de riso
no peito largo da vida

e nessa humana corrente
apressa o jeito de Olinda
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Lagrimas em largo gesto

a menina, na fome,
quando chorava,
chovia no mundo
pedaços da alma

rasgando a face,
em vergonha intensa,
as lágrimas eram vasto grito
nos ombros das consciências

a menina era um engenho
faminto de todas as moendas
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Caminhante cavalgada

vaqueiro de mim,
dou-me ao rebanho,
coletivo transeunte
do curral dos sonhos

força-me ao rumo
a grande caminhada
que o mundo tece no tempo
nos futuros que cavalga

o que me faz assim caminhante
são os galopes da alma
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Gestual lembrança

a saudade
é um jogo do tempo
em deixar-se tanto
quando menos

dói no espaço
como uma pedra quântica
deixada ao léu
nas curvas da esperança

a saudade é só um gesto
que o pensamento dança
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.