Lua em privada posse
a lua
em mergulho inato
deixa-se no céu
como recado
esvoaçante
nos olhos da amada
vê-se como oferta
do namorado
a lua nem desconfia
desse mister privado
poeta verbal em semântica tese
no poema
em trânsito recorrente
o poeta sonha
o que a palavra sente
bruto, em sua lavra,
o verbo admite
a onírica vontade
de quem lhe permite
o poeta é um verbo itinerante
que o verso, às vezes, admite
Líquida moção da vida
a vida é açude
nada-la em travessia
intenso mergulho
é vivê-la espalhada
nas ondas sonhadas
dos ombros do futuro
e nesse líquido compasso
molhada de alegrias
deixa-la arrebentar todos os muros
o tempo de vive-la como nado
é somente o jeito de dize-la em tudo
Cena de infância
a lamparina,
sem espalhafato,
instaurava sombras
com seus fachos
o filho
envolto em mãe e sede
tentava furtar-se à fome
na parcimônia do leite
o mundo, constrangido
refletia-se em tudo
respirando inadimplente
os ares do latifúndio
Da gira em candomblé falante
o atabaque
travando a fala
espalha verbos
no chão da sala
as pernas
dançantes peregrinas
giram a vida
em busca de destino
o redemoinho humano
como uma forja imensa
explode esconderijos
no vão da consciência
Vital jornada
como não ter ânimo
se a vida brinca
nos neurônios?
usina de si,
nessa larga senda
a vida (des)acontece
como humana moenda
coisa de inventar o mundo
na esteira do que tenta
ou prostrar-se confusa
em dizer-se avença
abraçar-se com o tempo
é seu jeito de presença
Parto
do líquido,
navegante,
o feto inventa-se
transatlântico
atravessa a mãe
em súbito rompante
e deixa-se na vida
ainda itinerante
os mares do futuro
forjam a esperança
de que serão os portos
dessa nova andança
Verbais cometimentos
subo nas estrofes
em verbais disputas
como se as palavras
fossem minha culpa
o poema só espreita
nos desvãos da mente
a hora de arrastar-se
como uma serpente
e o jeito de dizer-se
como pensamento
desemboca minha vida
na cachoeira do que penso
Palavras a Soledad Barrett Viedma
tuas veias
serão estradas
no futuro exato
do que lutavas
tua morte
tremulará a história
como uma bandeira humana
nas andanças das horas
teus poemas
habitarão insones
as vias da lembrança
no coração dos homens
Do poema em voo e trâmite
o poema,
torna-se autor, em riste,
nos sonhos do poeta,
das alegrias que insiste
andorinhas verbais,
palavras são matizes
dos tempos ancestrais
nos futuros que dizem
o poeta apenas as engaiola
com os voos que finge
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.