Lista de Poemas

Vital permanência da vontade

a vida
dói aos poucos
quase um martelo
na bigorna do corpo
o sonho,
viés anestésico,
entorna endorfina
da cachoeira do cérebro
o tempo é só um engano
nas oficinas do medo
na construção de seu modo
a vida sempre caminha um enredo
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Das larguras da humana lida

reatar o tempo
a seus princípios
e move-lo humano
em seus indícios

como se fora a história
um longo enredo
em que jogaram todos
à espera de si mesmos

o homem e o futuro
conjugados sem medidas
espalharão infinitos
nos palmos de suas vidas
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Verbal semeadura

o poema
afaga a palavra
nos conchavos que faz
no vão das almas

o poema
alinha palavras
como um roçado semeado
nos fatos que arma

o poema nem bem nasce
e no poeta desaba
há novas semeaduras
nos verbos em que se lavra
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Todas as veias vivas

toda via
traz a vida,
todavia,
o combate anuncia
as léguas de si
que pronuncia
no rompante contraditório
que a luta prenuncia

toda via,
gera toda vida,
todavia,
há que construir o povo
nas veias do dia
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Ode a La Paz

La Paz, sob meus pés,
como um Andes derramado
era um indígena contando
todos os meus passos

a montanha,
lúdica e urbana,
bebia meus olhos
em latina trama

La Paz, distante, ainda habita
todas as minhas chamas
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Mandamentos de mim

minha lei,
autocraticamente consentida,
determina todos os artigos
como criadores da vida

nos parágrafos
a vontade explicita
o transitar no tempo
em todas as léguas que consiga
nas alíneas,

sub-reptícias,
a tristeza é só um estopim
das alegrias que insistam
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Do povo construtor em atos

o povo inventa o tempo
alinhando o espaço
da história que tramita
a vida com seus laços

tudo que lhe reclama
é o ajuste do compasso
entre a parcimônia da luta
e a abrangência dos fatos
tudo que lhe declama
é um poema exato
urdido em vivos verbos
com o suor de seus braços
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Pequena paisagem noturna com nesgas da manhã

a noite tecia a madrugada
na varanda intensa do mundo
os homens dormiam a vida
abraçados aos sonhos de tudo

e, assim, alinhavando o dia
a natureza espalhava-se no tempo
deitada no colo do si mesma
como se abraçasse o firmamento

os ares revoltos pelas brisas
os galos, jornalistas da aurora,
adivinhando as luzes nascentes
cantavam as árias das horas

e eu, perdido em mim mesmo,
sonhando adredemente o futuro
deixava-me andante das estradas
nas costas dos sonhos em que durmo
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Fluvial comento

o rio,
veia do mundo,
inventa seu ritmo
nas margens de tudo

dá-se aos oceanos,
no afã de viajante,
transeunte largo
de estuários e pontes

o rio transcorre íntimo
da natureza e seus planos
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Voo manifesto

o beija-flor,
em bailarino gesto,
preenche-se do palco
dá-se ao universo
e, infinito em suas asas,
escreve um manifesto

nesse segundo
em que, astronauta, tramita
inventa recorrente o mundo
em que se bebe a vida
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.