do samba em passos e medidas
o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida
o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
Dos enredos da noite
a noite, imitando a vida,
subitamente declara
esse jeito manso da África
pelo vão da praça
o céu pinta todas as sombras
em construído aparato
como se fora o continente
jogado em seus traços
a noite teima em não deixar-se manhã
dormindo essa africana paisagem
e joga no peito dos homens
uma intensa ânsia de liberdade
rurais avisos das palavras
a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta
o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
do rumo do destino
a estrada,
veia do futuro,
aponta o destino
em seu curso
tece-lo nos passos
como construção
é passea-lo contrito
em sua amplidão
deixa-lo soltar-se
em sua vontade
é distrato do rumo
da liberdade
Do menino de Alepo
em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo
que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
Circense travessia
o palhaço
construindo o riso
espalha ilusão
nos ombros do circo
os olhos do menino
lançados no palhaço
são trapezistas saltando
nas artimanhas do ato
o palhaço é uma usina farsante
das mágoas que traz nos braços
Lunares vivências
a lua,
quântica
derrama saudades
na lembrança
no céu
como bólide manso
flutua nos olhos
como uma dança
o homem, abraçado a si
constrói-se em fundo transe
nas esquinas do tempo
que espaço tange
Indígena ilação
meu cocar
tremula a consciência
como um grito exato
da primitiva avença
construi-lo transeunte
das matas que declara
nas digitais informes
do mundo em passeata
até que a indígena manhã
invente os futuros da alma
Do menino em caçuá viajante
sentado no caçuá
o menino sonhava
atravessar a manhã
no balanço de suas asas
os olhos na estrada,
pássaros avulsos,
entornavam o sonho
nos braços do futuro
o animal em passo flutuante
era uma ave em largo curso
o menino, inventando o tempo,
voava a estrada nos seus pulos
Das vitalícias razōes de todos
no mundo
tudo é vitalício
a matéria perdura
desde o infinito
até no homem
cumpre-se a métrica
de morrer-se abraçado
à matéria genérica
a vontade de ser eterno
é só um gesto
de dizer-se prematuro
nesse último manifesto
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.