Fluviais andanças de mim
saio de mim
viajante sorrateiro
nas andanças alheias
em que passeio
corrente,
deixo-me rio,
nas cachoeiras que monto
com meu riso
desembocar num vasto estuário
é só um detalhe desse rito
Das avenças coletivas do caminho
deixo-me em mim
quando parto
e o destino no outro
é meu compasso
a vida é esse trafegar
na correnteza dos passos
o coração molhado na razão
é só um jeito do recado
em dar-se, assim coletivo,
às recorrências humanas do fato
indígena menção da vergonha
o yanomami, em ossos,
discursa a pele
como uma navalha magra
no punho da terra
carne
na pouquidão de ainda vida
escreve no tempo
uma vergonha infinita
da ação dos homens ruge
a suja condição de parasitas
Das vias mundanas da pátria
as veias da pátria
são vias avessas
o rumo que as leva
ressoam no peito
como uma fala privada
num coletivo estreito
as veias do mundo
são vias do futuro
na pátria geral dos povos
no discurso de tudo
Dos contrapontos em fatos
a crise
posta em culpas
é só um alvoroço
do fim da luta
o fato
resultante dessas guerras
apenas dá-se como resultado
das contradiçōes que encerra
tudo é um contraponto
que em si mesmo prolifera
de tal o contrário é tanto
em resolver-se pela matéria
Siá Luzia em revista
Siá Luzia
quando tricotava
tangia todos sonhos
nas agulhas que usava
seus olhos eram as vias
dessa onírica viagem
trançada na solidão
que invadia suas faces
Siá Luzia era um grito mudo
com todos seus disfarces
Da coletiva razão do povo
a construção da vida
e dessa condição humana
são atos sempre de todos
são fatos de grave chama
nada das gentes
dá-se como exclusivo
tudo é pleno do povo
nas ondas de seus gritos
os que acordem o mundo
os que chamem o infinito
tudo de dize-lo tanto
é tê-lo sempre coletivo
Humana logística
eis a logística:
dar-se ao tempo
e trazer-se espaço
nos ombros da vida
nada que seja breve
deixe de dar-se longo
e flutue no pensamento
como um bumerangue
a idéia tange os atos
pelas esquinas do sangue
como um derramar-se exato
de quem sempre se tange
Do poema em forma
o poema
pode ser complexo
inventar enredos
e palavras textos
consumir estrofes
desenhando verbos
e dar-se ao mundo
em varal moderno.
o poema
pode ser humilde
nas gramaturas do que diz
da vida que comenta
traçando retratos
nas palavras simplesmente
como se fora enredo
daquilo que se sente
Cicatriz em vias pensantes
a cicatriz,
pousada no tempo,
dói como um fato
no vão do pensamento
cava a consciência
como uma pá indormida
traçando as dores
na argamassa da vida
a cicatriz é só um gesto
da dor querendo despedida
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.