AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
312 598 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3560

Dos enredos da noite

a noite, imitando a vida,
subitamente declara
esse jeito manso da África
pelo vão da praça

o céu pinta todas as sombras
em construído aparato
como se fora o continente
jogado em seus traços

a noite teima em não deixar-se manhã
dormindo essa africana paisagem
e joga no peito dos homens
uma intensa ânsia de liberdade
13

rurais avisos das palavras

a traça ataca
o cerne da palavra
o poema lavra
o roçado do nada
gesto de verbo
como enxada
o poeta
camponês de si,
semeia a palavra
e sobe os leirōes
em que se basta

o poema em urbana coerência
deixa-se plantio em rural gramática
14

do samba em passos e medidas

o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida

o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
14

do rumo do destino

a estrada,
veia do futuro,
aponta o destino
em seu curso
tece-lo nos passos
como construção
é passea-lo contrito
em sua amplidão
deixa-lo soltar-se
em sua vontade
é distrato do rumo
da liberdade
12

Carnaval em pugna judicante

o carnaval
habita o juízo,
vara mental e judicial
de todos os desígnios
o habeas corpus
é rápido e preventivo
gestor da farta liberdade
da fruição dos sentidos
ao homem cabe viver
em calendário restrito
as absolviçōes terrenas
do peso dos conflitos
eis que em largas datas
não se alcança armistícios
13

Da manutenção das horas

guardo o tempo
como um fardo
de tudo que vivo
quando me trago
e tenho lapsos
nessa contagem
das horas que guardo
como bagagem
vive-las tantas
como infindas
é deixa-las pelas ruas
nos ombros dos caminhos
15

Dos arcos do povo

o arco-íris,
escrito no vento,
parece assinatura
das léguas do tempo
flui nos olhos
como exata ponte
nas cores que lança
no horizonte
assim como um recado
ninguém sabe de onde
o arco do povo
inscrito nas ruas
é a assinatura civil
dos arco-íris da luta
12

Do menino de Alepo

em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo

que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
14

Do poema em larga estrada

e se o poema
der-se à razão
de transitar palavras
à contramão?
e se o mundo
deitado em suas curvas
der-se ao pessimismo
de suas contraturas?
talvez o verbo
em sumular postura
dê-se à condição
de vestir-se da disputa
e embrenhar-se inteiro
na verdade literária da luta
23

Póstuma perspectiva

a morte
não é uma desculpa
que o tempo dá
em suas lutas
vige apenas
como limite
entre a contradição
e suas lides
a morte
é só um passo
do que vive
melhor deixa-la suspensa
em qualquer cabide
14

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado