Sapateiro em militância
o sapateiro
engraxando a vida
dava-se ao tempo
como comunista
e nesse ímpeto
ao ter-se liberto
construía sapatos
e alguns panfletos
Chico do Baita
inventava em tudo
as andaduras fartas
dos calçados do futuro
Culposa resenha em conceito
o martelo das culpas
esquece a vontade
de comete-las tantas
no vão da liberdade
as que sejam privadas
as que invadam a cidade
te-las em depósito
deitadas no desejo
é como eximir-se
nos desvãos do medo
a culpa é só um jeito tardio
de aprisionar o cedo
Das lonjuras volitivas do horizonte
o horizonte
posto na memória
deixa rastros do futuro
pelas córneas
escreve paisagens
nos sonhos que invoca
tê-lo viajante
pelo vão dos olhos
é fazê-lo constante
nos braços das horas
o horizonte é um sonho
grávido de demoras
acha-lo assim longe
é construir em tudo a história
Minha terra
O céu da minha terra
tem um jeito diferente
é assim como se o tempo
quisesse brincar com a gente
e derramar pelos olhos
uma certeza urgente
Faminta exação das horas
rasa,
a manhã suporta
um pouco de carne
ao redor dos ossos
como se fora um grito
grávido de revolta
o homem, apartado de si,
como uma gaivota,
voa sua fome
em todas suas portas
a cidade nem pressente
as ruas que choram
Etária constatação em vagas
assim em riste
como cicatriz do tempo
a vida sempre gira
como um catavento
as voltas que dá em si
nas curvas do pensamento
a vontade da razão
espalhada nos atos
inventa os ventos que pode
esparramada nos braços
o tempo é só um distrato
da eternidade do espaço
Neves do sertão em sol disposto
a neve,
gelando a escuridão,
tangia a noite de Kurkino
em grave imensidão
os olhos
tangidos pelo vento
jogavam a memória
ao encontro do tempo
no meio da Rússia, p(r)ensado,
um sertão rangia o pensamento
Lagrimas em largo gesto
a menina, na fome,
quando chorava,
chovia no mundo
pedaços da alma
rasgando a face,
em vergonha intensa,
as lágrimas eram vasto grito
nos ombros das consciências
a menina era um engenho
faminto de todas as moendas
Solitária construção da vida
a solidão
é uma lei avara
tudo que não lhe sente
é a palavra
posta assim como verbo
nos gestos que declara
dá-se farta a indícios
das engenharias solitárias
dizer-se em gesto no outro
em todas as suas falas
é construir as pontes de si
pelos andaimes da alma
Lia de Itamaracá ciranda o tempo
Lia de Itamaracá
em seu alvoroço
espalha todas as Áfricas
nos passos do povo
preta, em sua luz,
nos gestos esconde
todos os faróis
que vigem nos homens
a ciranda inventa a paz
nos bemóis que instala
e enche o canto de todos
com os passos da alma
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.