Lista de Poemas

da passeata geral de todos

no desvão da história
eis o carma:
decretar o mundo
pela alma

cavalgar os fatos
como um rocinante
que perdeu as rédeas
dos horizontes

e atracar nas ruas
todos os discursos
tecendo o futuro
em valor-de-uso
282

Das coletivas vazōes do ego

construir como múltiplo
e cada dia mais ser todos
é a tarefa unânime
de quem houve

o ego só existe
com todos em riste
vive-lo sozinho
é mais uma forma de ser triste

a multidão nunca impede
o jeito solitário de quem vive
308

Dos todos de mim em larga cena

tudo de mim são todos
espalhados em atos
como desculpa única
dos limites dos braços

a inexatidão do gesto
em que me desabraço
é quase uma rebelião
ao coletivo trato

há que se ser multidão
em todos os espaços
332

das humanas buscas em canalhas terras

o lixo
engole a fome
como um resto de gente
do homem 
a mão
amanha podre
a carcaça dos lucros
de quem pode
e a lógica
pulsa exata
a desumanidade
dos canalhas

o caminhão do lixo
é uma nau inconformada
o peso em suas costas
é de humanos e de faltas
309

Da lua como tempo em mostras

em céu desatado,
atravessada,
a lua é uma régua
que o tempo prolata

é como um discurso
decodificado
das regras a que se impōe
nos ombros dos seus traços

a lua é só um tempo
que se esqueceu no espaço 
312

da pátria em circunlóquio crescente

minha pátria
dorme inteira no futuro
como uma utopia farta
grávida do discurso

as palavras
no ventre da vontade
são gestos construtores
dos fatos em que cabem

a ânsia pelo tempo
é só instrumento da liberdade
233

Rasos da vida em flutuante demanda

nos rasos de mim
mergulho o mundo
como se fora onda
das águas de tudo

e cato-me vivente
nos naufrágios da vida
habitante de jangadas
alegremente construídas

basta-me lançar as âncoras
em aventuras coletivas
339

da fome em escaninho avaro

a fome rasura
a gesta humana
e a insana burla
de enraizar lucros
nos decúbitos capitais
das culpas

faminto
o ser nem sente
a parcimônia 
que lhe pretendem

a vida cai fora de si
e nem entende
283

futuros em energéticos transes

a matéria
veste a vida
como energia tanta,
desmedida

tudo é espaço
montado no tempo
e habita as relaçōes
como um invento

descobrir seu futuro
é nosso pensamento 
264

Dos arranjos conceituais do tempo

filosofar
é conhecer o tempo
e traze-lo à mão
pelo pensamento
e desfaze-lo
em conceitos
e retrata-lo avulso
por dize-lo

na concretude do seu jeito
cada fato é subjetivo
desmistificar a história
é traze-la em comício
307

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.