Lista de Poemas

Infantes presentes em passados futuros

dou-me ao tempo
com a ousadia
de quem joga a infância
pelos dias

o rapto de mim que faço aos anos
como um desfalque no presente
é só um trajeto volitivo
dos passados que ausento

o futuro caminha e pulsa tanto
que a gente o veste como infante
333

Alinhavos da crise em perene jorro

a crise
é só um susto
que a solução encontra
no transcurso

molda-la em atos
e discursos
é vivê-la unânime
em seu custo

nada como inventar os modos
de alinhavar seu curso
331

Da fome em discurso recorrente

a fome
discursa nas ruas
a culpa humana
e a urgente tecitura
de todas as infâmias
e de todas as culpas
o homem,
enforcado em suas tripas,
sonha aos bocados
seus restos de vida
a razão foge pelas mãos
como uma inútil notícia
 

252

das chuvosas manhãs e camponesas lutas

a chuva,
como uma lágrima recorrente,
inventa o jeito camponês
de construir-se semente

o homem, nos meandros de si,
plantando a vida,
engole os temporais 
em que tramita

chuva e homem, 
enlaçados adredemente,
inventam todos os roçados
de todos os viventes

nada como plantar-se em chuvas
na contramão das correntes
347

Dos 70 chegantes em complacente operância

aos setenta
deixo-me à deriva
abraçado com o futuro 
e navegando a vida,
nos mares todos que possa,
em vias todas que vivam

farto, dou-me ao desplante
de viver infinitos em instantes 
o tempo é só um abuso
dos espaços em que me lanço
321

Os pendores autistas do universo

o universo opera em si
o costume de ser sujeito
de todos os meandros
da energia e seus efeitos

fluindo assim em atos
explodido e contrito
deixa-se ficar criança
brincando de infinitos

e flui já no cérebro
como um astronauta
que suspendesse o gesto
de deixar-se em órbita
356

versejantes mantras em palavras

o verso
é um mantra avesso
cada palavra avulsa
pulsa um endereço
os que sejam do poeta
e os que os outros cometam
tudo é sempre significado
dos carmas que se inventam

o poema é um comício inato
a todos os mantras que convenham
276

Da assassina gestão do lucro

o caminhão
grávido de lixo
é o lauto jantar
dos oprimidos

tácita
a lógica regurgita
a podre concepção
imposta à vida

o sistema, em decúbito
assassina o povo no lucro
311

Mais uma vez, do tempo corrente

aos setenta
a puberdade solidifica
todas as infâncias
e as juventudes da vida
o prazer é o algoritmo
em todas as medidas
as que multiplicam os anos
e as que os dividem 

tudo é uma infância latente
adredemente consentida
323

Do Negro Almirante em mar aberto

negro,
o almirante inventa
todos os mares
que convenham

o horizonte
é só a energia
que pulsa no caráter
de quem monta a vida

João Cândido
assim revolto
é só o melhor abraço
das carnes do povo
343

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.