Poema a Orlando, meu pai
meu pai tinha nas mãos todos os verbos de sua razão e ao esculpi-los nos ombros da palavras construia futuros e afagava almas meu pai era uma praça em que eu me encontrava
Marighella em ondas recorrentes
Carlos Marighella debruçado na rua é uma bandeira exata do sentido da luta morto, vive tão profundamente que nem se apercebe das vidas que consente Marighella é um mar de ondas recorrentes
Do poema e sua infringência teológica
o poema não se mede com a régua volátil das preces suas léguas resumidas parcelam os infinitos do que digam não há céus dispostos a arcar com seus arbítrios
Do amor em valsa induzida e permanente
nas brechas dos bemóis, na valsa, mansamente, o amor fustiga os sentidos em ondas recorrentes nada da noite adormece, e nos passos, assim jogados, o tempo ondula os sentimentos na amplitude exata do abraço a valsa é só complemento das notas que criamos pelas faces
Desmond Tutu em itinerâncias
Desmond nem sabia das léguas de tudo que espalhava, em gestos, pelas costas do mundo verdadeiro, não media, a persistência do ato em que se dizia é que sobrava verdade nas carnes em que vivia como cidadão itinerante do Mundo Rainha.
Sistêmica ilação
o sistema, incapaz e moribundo, vomita farpas no colo do mundo terra e homens desabraçados dormem em si as curvas do imenso fardo tarda a manhã em que seremos todos um abraço recorrente das armadilhas do novo
Dos voos pássaros em aviônicas lavras
o avião é um pássaro exato todos seus ângulos são cronometrados o pássaro é um avião diverso suas asas é que medem os palmos do universo pássaro e avião, em suas revoadas, espalham o verso em rasantes palavras
Privadas propriedades em franco visar
a propriedade no arrastão da história massacra o humano e decreta sua lógica: tudo que seja próprio no marginal exercício chame-se propriedade e cumpra seu ofício: gestar a fome de tantos em todos os sentidos até que não seja próprio permiti-la consentida.
Egolatria em doses reptícias
no raso de si como um aviso o ego mergulha todos os artifícios e na sua lida, ensimesmado, claudica como uma fantasia autofágica posta em notícia os egos relapsam pelo dia seus favores coletivos
Da fluvial procura de humanos mares
o rio, corrido pela tarde derrama-se em passeata na líquida e tenaz vontade de ter um mar que invada o mar, adredemente esparramado, abraça o rio e suas sombras como um quintal de águas debruçado nas ondas o homem, rio inteiro de si, procura os mares que sonha
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.