Atabaques em vazão corrente
o lé configura o batuque no fraseado da gira e solta pelo espaço as energias que usina rumpi engrossa a vertente dos africanos sentidos jogando restos de tempo nos ombros do infinito e o rum entoa o rompante das humanas cachoeiras derramando no vão da vida as energias que penteia
Intermediação de tempos e fazeres
das manhãs que invado com a noite nas mãos sobra um tempo nos olhos e restos de sonhos pelo chão das tardes que desfaço, já nos ombros da noite, restam desejos assumidos num constante alvoroço assim, no meio do que vivo visto-me das horas e do novo
Africano mote de memória bruta
as Áfricas que trago no berço do coração remontam todos os anos que trago pelas mãos assim trançadas no peito como uma memória infinita mede todas as léguas que a gente guarda na vida a África é uma cachoeira de todas as medidas
Provecta juventude
menino desde cedo dei-me por velho em certezas velho desde tarde dei-me por jovem dúvidas que guardo a certeza é uma dúvida que a vontade resguarda enquanto a natureza desencapa a verdade
Das lucrativas misérias sistêmicas
a fome é só um enredo que o mercado, em lucro, quantifica no medo O ágio, como dilema, transcende todas as costelas dos que o produzem no curso da miséria parasitas, insistentes, inscrevem na história sua aparência de gente
Paisagem III
o sertão adormece como um abraço ardente que aquece o coração de quem lhe sente o sol, pela terra, traindo sua insônia, acorda nos cactos e tange os horizontes que sonha o sertão é só um aviso da parcimônia das sombras
Poema a Orlando, meu pai
meu pai tinha nas mãos todos os verbos de sua razão e ao esculpi-los nos ombros da palavras construia futuros e afagava almas meu pai era uma praça em que eu me encontrava
Volitivo manifesto em gesta
e assim que a vontade tenha o jeito manso de fato possa o homem debruçar-se nos futuros que acate é que no desvão do tempo nas parcimônias dos gestos a vida apequena o incenso que sempre joga nos protestos o futuro não é um tempo é um espreguiçar-se do universo
Do amor em valsa induzida e permanente
nas brechas dos bemóis, na valsa, mansamente, o amor fustiga os sentidos em ondas recorrentes nada da noite adormece, e nos passos, assim jogados, o tempo ondula os sentimentos na amplitude exata do abraço a valsa é só complemento das notas que criamos pelas faces
Das lavraturas do poema em roçados aparentes
assim lavrado no eito das palavras o poema é um roçado nos canteiros da alma flui tão desenfreado pelas bordas da consciência como um rio encantado que desemboca de repente o poema é um recado bordado dentro da gente ao poeta cabe colhe-lo e bebe-lo como semente
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.