Transverso sentimento em avessos fáticos
rasgo minha tristeza com os risos que alinhavo e os pensares que construo das cicatrizes que trago cada riso, assim atravessado, lambuza o pensamento de futuros e passados nas circunstâncias da luta o tempo é um rio desatado
Elza em jornada
Elza tinha na voz como uma revoada vinte mil pássaros navegando suas asas Elza tinha na bôca um comício itinerante no derramar-se humana em palavras e cantos Elza dormia sua negritude em futuros acalantos
Andanças em mim em atalhos
quando passeio por mim nas estradas que consigo deixo-me a caminho de estar sempre comigo das encruzilhadas postas como discurso dou-me mais a vê-las grávidas do futuro e tanjo-me nos atalhos que mantenham meu rumo
Laçadas oníricas em recorrência
menino, envergonhado, eu sonhava o futuro como um grande laço nas cordas que pude, laçava o tempo e todos os desejos do pensamento esse brincar do futuro é um sonho recorrente
Negra percussão da vida
negro, o país tramita, entre o preconceito e a polícia e as áfricas dormidas, em suas costas, constroem desejos pelas portas um dia chegarão escuros nos ombros da revolta
Previsões consentidas
o destino é só um caminho que o homem, no tempo, vai consentindo
Ode aos 70
aos setenta dou-me à rebeldia de armazenar as horas como dias a emoção, urgente, um pouco gasta, derrama-se incauta no vão de lágrimas o tempo nos anoitece como uma grande dádiva
Da fome em sol, dias e calçadas
o sol, translúcida vertente, engole a noite mansamente a calçada, impunemente, já em madrugada, guarda humanos em seu leito em fomes aprazadas o dia, intensamente faminto, deixa-se fluir envergonhado
Operária fuga em vertente declarada
o operário, cerzido à máquina, recolhe os produtos de suas mágoas botão virtual em série, de quase humana lógica, engole algoritmos no vão de suas portas construtor do mundo, dá-se ao rompante de alinhavar o futuro nos sonhos que tange
Das pedintes razões da igualdade
o semáforo, alheio, nem explicita as cores da fome que o homem exercita no colo da rua, como um anuncio cárneo, o homem é um cartaz das mágoas de que se invade estendida, a mão é só adereço de assassinar a igualdade
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.