Lista de Poemas

Das coletivas manhas do um

ocorro
onde menos morro
trazer-me assim
é o esforço
de dizer-me outro
ao lado do povo

a ilusão de ser um
é a compreensão de todos
cada unidade 
é um jeito do todo
530

versejo normativo em ruas tortas

de que me serve
a forma
se a palavra teima
em ser a norma?

de que me vale
a norma
se a verdade
não importa?

melhor chutar o verso
nos ombros da revolta
630

Ao Camarada Engels em mar aberto

o camarada Engels
nem sabia
as léguas todas de si
em que morria

talvez por permitir
que no jeito do horizonte
houvesse todas as jangadas
de atravessar o longe

e vige hoje, ainda barco,
atravessando todos os ontens
569

Poema de circunstância I

a flor nem sentia
os ataques dos olhos
de quem a via 
e deu-se a dormir
embevecida
sonhando borboletas
nos pólens da vida

e o beija-flor
recatado
voava o desejo
de beija-la
235

Tristeza em vagar de alegre gesta

a tristeza vaga no tempo
quando a vida descompleta
e assim como uma fração
no inteiro em que se meça
naufraga no peito da gente
os risos que sonega

a tristeza é só um lapso
dos risos que se carregue
281

Pachamama em viés corrente

Pachamama,
assim escorreita,
cospe os crimes
em que se deita

ilesa a pátrias
adormece una
mãe descomunal
de todas as lutas

Pachamama, tão passada,
é o futuro em disparada
209

Latinas manhãs de mim

latino
não me constrange
ser mesmo rio
ainda mangue

latino
não me convoca
um tempo de inanição
e sem revolta

latino
nada me instiga
a ser recorrente
e sem malícia

latino
nunca exsurge
o riso longevo
do que pude

latino
não me constata
uma eternidade baldia
quase matemática
é que o amanhã alonja
quem ainda tarda

latino
eis a contradição:
a mente inventa o sonho
que escorre pelas mãos
286

Do samba como porteiro da vida

o samba 
nem pressente
os compassos da vida
que planta na gente

a voz do tambor
debruça nas notas
e abre em grande cena
todas as nossas portas

aquelas que  vem da música
e as que gritam revoltas
279

jornada humana em fila recorrente

meus filhos
tem a compleição exata
de todos os infinitos
em que me instalam

trazem de mim
na jornada humana
todos os antepassados
a que se irmanam

como é bom ser corrente
das cachoeiras que se ama
290

Mares em barcos de homens postos

o navio
debruçado no horizonte
escrevia no espaço
as idéias do longe

na praia
como num quadro negro
o homem escrevia sonhos
nos ombros do seu medo

e o mar nem cogitava ondas
que desfizesse o enredo
é que dar-se a barcos e homens
são gestos dos seus prazeres
242

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.