Lista de Poemas

Gaza em pedaços

atravessada na noite
Gaza é uma síncope
uma vergonha humana
estraçalhada em seus limites

bombas e humanos
entrelaçados
explodem a razão
de econômicos enfados

e assim que é dia
Gaza é um tempo estrangulado
74

Correntezas em abalada chama

branca
a injustiça
escorre como negra
na notícia

tudo que lhe tange
é a ânsia exata
de instalar a escravidão
pelas calçadas

o tiro
é só palavra
de quem apodrece a vida
nos desvãos da fala

um dia, de repente,
a multidão nem cala
construindo, multicolorida,
a vastidão das almas
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Palestina vida de todo futuro

no vão de toda vida
há sempre uma Palestina
engasgada nas palavras
nos poemas e nas esquinas

e nos ombros das praças
pelos cantos do mundo
campeia uma semente
dos roçados de tudo

palestinos plantam a luta
com um gosto de futuro
66

Dos tempos em mudança

mudar
é só um jeito
de construir andaimes
nas larguras do peito

é como inventar o novo
em atos e desejos
como figurante intenso
das artimanhas do medo

é como deixar-se tarde
nas parcimônias do cedo
61

O futuro como unidade quântica

cada um
será tudo
na estrada coletiva
do futuro

cada todos
será uno
a compleição geral
de todo rumo

os contrários serão tantos
na dialética feição do nosso canto
73

Meninos da pátria

o corpo menino
marca o tempo
e a fome é só um lapso
que infinita a dor
no pensamento

a razão
é um relance
que escorre do olhar
como uma dança

o menino tange a fome
numa monótona esperança
62

Operação

negra
a noite estreita
os alvos negros
em que se deita

a morte
oficial e insuspeita
alinhava o crime
como enfeite

e segue a vida
envolta em fardas
matar é só um estado
de canalhas
30

dos passos e destempos

a bailarina
em segredo
voa nos passos
nosso medo

nos seus saltos
desavisadamente
o olho pulsa um tempo
de repente

a dançarina
impunemente
dança o futuro
e nem pressente.
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Viagens póstumas em deslizes

a manhã da morte
é uma noite avessa
tudo que lhe tange
é a controvérsia:
quem habitará o céu
naufragado na terra?
os deslizes do tempo
resvalam em palavras e perdas
e respiram as desculpas
por tudo que não seja.
60

Itinerário lírico da cidade de Salvador

o semblante das casas
trai um certo desejo
de afogar mais o homem
no vão do seu próprio medo

não parecem imóveis
destarte a constatação
de que, em seu bojo, habita-se
a salvo da opressão

e mesmo aquelas que riem
um riso de cor e cal
carregam um pranto escondido
nas faces dos seus degraus

e se nas ruas arrumam-se
organizadas só mentem
pela desordem dos quartos
pela fome dos viventes

e quando estão barracos
mendigando a gravidade
mais a fome arquitetam
nos limites de seus quartos

e as que são trançadas
no melhor material
guardam resquícios do medo
na liquidez do seu mal

e em tudo são parentes
daqueles que lhes invadem
num futuro em que, por fim,
explodirá o combate

II

as ruas não se alinham
como os problemas dos homens
e parecem certas correntes
nos elos das muitas fomes

e desenham-se sorrisos
na cara dessa cidade
e escondem nos passos das gentes
uma nação entre grades

desde a 7 de setembro
de uma parca independência
às ruas mais meretrizes
ou mesmo as da inocência

Salvador não se sustenta
nestes caminhos gerais
que sugando muita fartura
da fome nutre-se a paz

e se meninas vestem-se
de roupagem mais pagã
guardam nos seios escondida
a timidez da manhã

e se urbanas se dizem
no seu urbano trajeto
não escondem o que de agrário
repousa em seus tetos

Salvador é só um encontro
das ilações do concreto
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.