Lista de Poemas

De Nínive em mísseis e história

o míssil arquiteta
por sobre Nínive
uma reta
ângulo tenaz e reticente
como se fora esquina
do coração da gente
e lança-se fulvo
em eletrônica voragem
e nem se pergunta da vida
como há de

Nínive, assim deitada,
é, no deserto de si,
uma quase paisagem
rouca arquitetura
de ingente norma
Nínive não comenta
apenas informa

e na cabeça do míssil
afoga-se
como uma rosa que explodisse súbito
no rio da história.
98

Das avenças do tempo em célere movimento

há um tempo
de rever as empreitadas
e consumir como tudo
o que é quase nada

há um tempo
de recrutar a vida
e merecê-la plena
pelas avenidas

e há de haver um tempo
para pentear os cabelos
com o mesmo desfastio
com que os velhos canoeiros
fingem dominar os rios

há um tempo
de sonhar as madrugadas
como um dia inexato
pelas calçadas

e haverá um tempo
de rever os risos
não apenas como músculos
distraídos

e há de haver um tempo
no peito dos homens
em que a paz apenas seja
e adredemente se conforme

e haverá um tempo
a desoras
no mais íntimo grito
de quem chora

há de haver um tempo
que assim não medre
como as dessemelhanças
do que apenas deve
89

Itinerário da URSS, com piracema implícita e outras impressões

I

desde Kurkino
meu olho me dizia
que a felicidade congelava
como o dia
Moscou, indormida,
nem era tanta
que não fosse lógica
da esperança
colher futuros
era apenas serventia
dos prazeres que a vida
sempre urdia
e se roubava o céu
o jato nem mentia
aos que dos olhos cobravam
a rapidez da alegria
Moscou, em inverno posta,
era um iceberg vagando
em todas as minhas portas

II

Mikhail trazia Moscou
na algibeira
e a desmontava em verbos
pela noite inteira
e os cachos de sonho
que empilhava na mesa
tinham um gosto de futuro
e alguma coisa de cerveja

Mikhail, em continência,
era uma bandeira
empalmando a vida
com íntima certeza

III

desde Vyborg
rugia o exercício
de estar com a alma
em constante comício

Leningrado
deitada ao Neva
era uma saudade estendida
no peito das pedras
eram-lhe íntimos
os francos motivos
que as ondas dão ao mar
quando em seu ofício

de repente,
a catedral de Santo Isaac
arrepiou-se de fé
nem quase exata
de sua porta
como uma ave
voou a pássara manhã
de tanta tarde

por dentro do Smolny
em corredores afeito
singra o sentimento
a franja incauta do peito
e descabela-se a razão
numa fração desconforme
em que o numerador é o mundo
e a divisão é a sorte


IV

Em Kiev
a pátria anuncia
que a noite é, apenas,
disfarce do dia

deitada de bruços
a Ucrânia é serventia
de qual cidadão permita
urdir-se em alegria

Tchernovitsy alinha as horas
na quântica feição da tarde
e nem se teima universo
porquanto basta-se cidade
não dessas baldias
que nem se chegam à vontade
mas uma urbana atitude
de campos desregrados

Tchernobil ainda vige
no coração do seu átomo
como uma química vontade
que em cada cidadão ainda cabe

V

e meus moldavos sentimentos
eram contraponto do espaço
quem em mim a Moldávia urdia
retirante quase de meus passos

o trem solfejava o caminho
numa lauta liberdade
e a Moldávia era um campo
arquivada alma das cidades

VI

O Rio Prut lambia os beiços
da Ucrânia em vão incontrolada
e eu nem sentia a dor
da brasileira trama em mim gravada

VII

Mikhail Egorovitch
carpia verbos
como quem roesse as lágrimas
do universo

tinha a compleição
de um exato camarada
e o pranto fácil
de quem costura a alma

Mikhail Egorovitch
era tanto e pouco
espargindo pelos corredores
todo seu esforço

o partido em si vigia
como uma nave desgarrada
nos mares que seu verbo
teimava em molhar de alma

VIII

em Kurkino
o sol é lâmina
de cortar o todo gelo
que é sempre chama 

a neve na vidraça
é uma felicidade idônea
que nem consegue gelar
o coração em chamas

IX

Wladimir em sono
é uma morte acampada
nas cabanas dos Haslivs
que se tem na alma

Wladimir deitado
é bandeira consumida
de tanto drapejar nos ventos
que se tem na vida

Wladimir é um eletron
e uma saudade infanta
na grave química da pátria
em que se derrama.
102

Palavras ao Camarada Arvid Pelsche


pois é, Camarada Pelsche
a morte teve o desplante
de desunir a soviética união de tua carne

no centro da página
na sua sílaba mais funda
eu vi o teu semblante rosa
na solidez gráfica do mundo

mas por essas razões
que ligam a sílaba à alma
meu coração desconheceu-se
com ganas de astronauta

e nessa desavença
entre a notícia e a vontade
eu te saúdo, ainda vivo
nas sílabas da vida que montastes.

130

Do comprimento dos mortos

os mortos de minha vida
tem léguas de sentimento
que é difícil arrumá-los todos
no exíguo espaço do peito
111

Poema à transeunte

a mulher tinha nos olhos
punhados de felicidade
e poucas eram as sentinelas
que punha em seus olhares
e assim, a pouco e pouco,
eu a vi derramar-se pela avenida
como uma bandeira escancarada
do tamanho largo de toda sua vida
117

Do pátrio desconforto

a pátria
é quase sempre
um vago e efêmero
desconforto

e se contrange
a quem lhe ama
é que a pátria nem sente
aquilo que proclama

apenas resta no peito
como medalha indevida
desgovernada solução
das vielas da vida

no vão da rua
a pátria existe
como ícone

no vão do peito
a pátria insiste
em dizer-se norma
do que é triste

a pátria é só a certeza
dos futuros em que não esteja
102

Onírica vazão de fatos e repentes

o sonho
é um veredito
que se dá ao futuro
como indício
de que a vontade
é só uma demora
em montar as peças
da história

o sonho
nada no presente
os rios e mares
que o sonhador consente

o fato é só um detalhe
do sono que se sente
120

Ofício aos 46 anos, com cópia para nenhuma autoridade em especial

nasço
porque acho
que a vida me morre
aos pedaços
e junto suas partes
nas rugas que mereço
e meço minha carne
com metros do meu medo
e nem me digo morto
quando inválido
meu abraço jovem
já desmaia
e nem sei se vivo
quando sempre morro
e nem sei a morte
quando sempre ajo

78

Ode à pequena Ana

Ana é lógico
que entre tuas tranças
mora o ócio
e que são cabelos
como impostos
na vida infante
que suportas
e jazem no dia
como óbvios
apesar das armarguras
que te informam
131

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.