Lista de Poemas
De Nínive em mísseis e história
por sobre Nínive
uma reta
ângulo tenaz e reticente
como se fora esquina
do coração da gente
e lança-se fulvo
em eletrônica voragem
e nem se pergunta da vida
como há de
Nínive, assim deitada,
é, no deserto de si,
uma quase paisagem
rouca arquitetura
de ingente norma
Nínive não comenta
apenas informa
e na cabeça do míssil
afoga-se
como uma rosa que explodisse súbito
no rio da história.
Das avenças do tempo em célere movimento
de rever as empreitadas
e consumir como tudo
o que é quase nada
há um tempo
de recrutar a vida
e merecê-la plena
pelas avenidas
e há de haver um tempo
para pentear os cabelos
com o mesmo desfastio
com que os velhos canoeiros
fingem dominar os rios
há um tempo
de sonhar as madrugadas
como um dia inexato
pelas calçadas
e haverá um tempo
de rever os risos
não apenas como músculos
distraídos
e há de haver um tempo
no peito dos homens
em que a paz apenas seja
e adredemente se conforme
e haverá um tempo
a desoras
no mais íntimo grito
de quem chora
há de haver um tempo
que assim não medre
como as dessemelhanças
do que apenas deve
Itinerário da URSS, com piracema implícita e outras impressões
desde Kurkino
meu olho me dizia
que a felicidade congelava
como o dia
Moscou, indormida,
nem era tanta
que não fosse lógica
da esperança
colher futuros
era apenas serventia
dos prazeres que a vida
sempre urdia
e se roubava o céu
o jato nem mentia
aos que dos olhos cobravam
a rapidez da alegria
Moscou, em inverno posta,
era um iceberg vagando
em todas as minhas portas
II
Mikhail trazia Moscou
na algibeira
e a desmontava em verbos
pela noite inteira
e os cachos de sonho
que empilhava na mesa
tinham um gosto de futuro
e alguma coisa de cerveja
Mikhail, em continência,
era uma bandeira
empalmando a vida
com íntima certeza
III
desde Vyborg
rugia o exercício
de estar com a alma
em constante comício
Leningrado
deitada ao Neva
era uma saudade estendida
no peito das pedras
eram-lhe íntimos
os francos motivos
que as ondas dão ao mar
quando em seu ofício
de repente,
a catedral de Santo Isaac
arrepiou-se de fé
nem quase exata
de sua porta
como uma ave
voou a pássara manhã
de tanta tarde
por dentro do Smolny
em corredores afeito
singra o sentimento
a franja incauta do peito
e descabela-se a razão
numa fração desconforme
em que o numerador é o mundo
e a divisão é a sorte
IV
Em Kiev
a pátria anuncia
que a noite é, apenas,
disfarce do dia
deitada de bruços
a Ucrânia é serventia
de qual cidadão permita
urdir-se em alegria
Tchernovitsy alinha as horas
na quântica feição da tarde
e nem se teima universo
porquanto basta-se cidade
não dessas baldias
que nem se chegam à vontade
mas uma urbana atitude
de campos desregrados
Tchernobil ainda vige
no coração do seu átomo
como uma química vontade
que em cada cidadão ainda cabe
V
e meus moldavos sentimentos
eram contraponto do espaço
quem em mim a Moldávia urdia
retirante quase de meus passos
o trem solfejava o caminho
numa lauta liberdade
e a Moldávia era um campo
arquivada alma das cidades
VI
O Rio Prut lambia os beiços
da Ucrânia em vão incontrolada
e eu nem sentia a dor
da brasileira trama em mim gravada
VII
Mikhail Egorovitch
carpia verbos
como quem roesse as lágrimas
do universo
tinha a compleição
de um exato camarada
e o pranto fácil
de quem costura a alma
Mikhail Egorovitch
era tanto e pouco
espargindo pelos corredores
todo seu esforço
o partido em si vigia
como uma nave desgarrada
nos mares que seu verbo
teimava em molhar de alma
VIII
em Kurkino
o sol é lâmina
de cortar o todo gelo
que é sempre chama
a neve na vidraça
é uma felicidade idônea
que nem consegue gelar
o coração em chamas
IX
Wladimir em sono
é uma morte acampada
nas cabanas dos Haslivs
que se tem na alma
Wladimir deitado
é bandeira consumida
de tanto drapejar nos ventos
que se tem na vida
Wladimir é um eletron
e uma saudade infanta
na grave química da pátria
em que se derrama.
Palavras ao Camarada Arvid Pelsche
pois é, Camarada Pelsche
a morte teve o desplante
de desunir a soviética união de tua carne
no centro da página
na sua sílaba mais funda
eu vi o teu semblante rosa
na solidez gráfica do mundo
mas por essas razões
que ligam a sílaba à alma
meu coração desconheceu-se
com ganas de astronauta
e nessa desavença
entre a notícia e a vontade
eu te saúdo, ainda vivo
nas sílabas da vida que montastes.
Do comprimento dos mortos
tem léguas de sentimento
que é difícil arrumá-los todos
no exíguo espaço do peito
Poema à transeunte
punhados de felicidade
e poucas eram as sentinelas
que punha em seus olhares
e assim, a pouco e pouco,
eu a vi derramar-se pela avenida
como uma bandeira escancarada
do tamanho largo de toda sua vida
Do pátrio desconforto
é quase sempre
um vago e efêmero
desconforto
e se contrange
a quem lhe ama
é que a pátria nem sente
aquilo que proclama
apenas resta no peito
como medalha indevida
desgovernada solução
das vielas da vida
no vão da rua
a pátria existe
como ícone
no vão do peito
a pátria insiste
em dizer-se norma
do que é triste
a pátria é só a certeza
dos futuros em que não esteja
Onírica vazão de fatos e repentes
é um veredito
que se dá ao futuro
como indício
de que a vontade
é só uma demora
em montar as peças
da história
o sonho
nada no presente
os rios e mares
que o sonhador consente
o fato é só um detalhe
do sono que se sente
Ofício aos 46 anos, com cópia para nenhuma autoridade em especial
nasço
porque acho
que a vida me morre
aos pedaços
e junto suas partes
nas rugas que mereço
e meço minha carne
com metros do meu medo
e nem me digo morto
quando inválido
meu abraço jovem
já desmaia
e nem sei se vivo
quando sempre morro
e nem sei a morte
quando sempre ajo
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.