Lista de Poemas
em braços de almas baldias
eu tinha uma alma
e não sabia
não dessas que se soletram
em verbos continentes
e que se prosternam aos ventos
como dormentes
não dessas instituídas
na solerte noite da insapiência
e que transitam inócuas
no exercício da consciência
não dessas imerecidas
pelo que de humano se sinta
e que não traspasse o vau
dos rios que não se pressinta
algum dia
eu tinha uma alma
e nem sabia
alma histórica
definida
do tamanho das emoções
que alinhavo na vida
alma país
desenfreada
nas geografias que o peito
às vezes há de
alma manhã
atemporal
basta como a cabeleira
do canavial
alma usina
adrede armadura
de conjugar os risos
e a amargura
algum dia
não terei uma alma
apenas uma porta
por onde escapará a noite
como ineficiente gaivota
Ode aos 40 anos, retirante da mágoa
é um trânsito enorme
e nem é preciso
que o corpo lhe informe
sou aos borbotões
meus gestos mais próprios
e um verbo que teima
em dizer-se lógico
apanho
as 15000 madrugadas
que lavraram o tempo
em minha face
e as empilho largas
numa eventual felicidade
e consumo as horas
já tardio
emborar rebentem indícios
de que ardo
apesar do frio
das datações impacientes da espera
já estava
cravado no espaço
que eu me dava
e de repente
fez continência
e já nem era julho
na paciência
tinhas mais de abril
um jeito atrasado
de um presente em que eu me fiz
com o futuro atravessado
dos barcos em mar com fingimento
assim noturnos
barcos são bandeiras
de tremular a esperança
pela noite brasileira
assim dançando
pela noite imensa
escrevem no peito
os mares que se queira
e nem a lua
no mar se arrime
para conter qualquer soluço
daquilo que se finge
poema à vagina de minha bisavó
nem só na carne
há de viver em mim
o jeito mais urgente
que, em súbita descida,
pousou irremediavelmente
nos ombros da minha vida
minha bisavó
de vagina em punho
guardou todas as felicidades
e uma ternura incauta
de jogar sua carne pelo mundo
e, mulher, dizer-se operária
a construir estranhos edifícios
nos andaimes da alma
minha bisavó
talvez por desfastio
era um mar enviesado
fantasiado de rio
nada do que lhe nadasse
deixava de ser sentido
a delação de si ao mundo
era recado do infinito
da chuva e da água em nordestina trama
é uma alegria intensa
que chega a inventar línguas
no vão da consciência
e, assim, exercício da esperança
há quem a sinta pouca
por não sabe-la tanta
deitada no vão da terra
quando é chuva e planta
e não lhe sobra uma fome
mesmo as mais etéreas
por não pode-la consumirem
com o vazio das artérias
Ode ao amanhecer de Coxixola
quando aportas crua
no vão mais impotente
de quem apenas sua
essas mágoas mais pungentes
das usinas e das ruas
nem és tarde
nos olhos mais avaros
que enquadram o horizonte
com um gosto amargo
nem és noite
guardada a proporção
de que nem usas o tempo
para fomentar a ilusão
Coxixola
deitada em manhãs
nem adivinha a lassidão
de quem vive em suas costas
como um tremendo não
antes compactua
com esse jeito informe
de quem apenas cumpre a vida
com parcimônia e lógica
e vige desmesurada
na sua pouquidão
engolindo quilos de fome
rasgando a prática em vão
a necessária contrafação do querer
nem é necessidade
quando posta apenas
no invólucro da vontade
assim indisposta
é mais vau de descaminho
resposta de cada compleição
de cada desatino
a necessidade
nem constrange
nem punge e nem tange
a quem de tê-la, assim, urgente
exploda a razão inteira
do que ainda surge
nas encostas do presente
pequena intrusão nos tempos
quando invade
aquilo que já não se quis
porque é tarde
o futuro
só não há de
quando a manhã é pouca
para ser tarde
futuro e passado
são tempos à deriva
esperando que o coração
urgentemente os viva
Das usinas da vida no fragor do tempo
quem se engane
a dizer do homem
o que lhe tange
porque de rês assim caiba
a magra intransigência
de consumir-se avaro
num mar de opulência
usineiro da morte
quem assim garante
uma vida engastada
num desvão do horizonte
dão-se como bastantes
usineiros do futuro
nas vidas que amontoam
derrubando todos os muros
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.