Lista de Poemas

em braços de almas baldias

algum dia
eu tinha uma alma
e não sabia

não dessas que se soletram
em verbos continentes
e que se prosternam aos ventos
como dormentes

não dessas instituídas
na solerte noite da insapiência
e que transitam inócuas
no exercício da consciência

não dessas imerecidas
pelo que de humano se sinta
e que não traspasse o vau
dos rios que não se pressinta

algum dia
eu tinha uma alma
e nem sabia
alma histórica
definida
do tamanho das emoções
que alinhavo na vida

alma país
desenfreada
nas geografias que o peito
às vezes há de

alma manhã
atemporal
basta como a cabeleira
do canavial

alma usina
adrede armadura
de conjugar os risos
e a amargura

algum dia
não terei uma alma
apenas uma porta
por onde escapará a noite
como ineficiente gaivota
63

Ode aos 40 anos, retirante da mágoa

a vida
é um trânsito enorme
e nem é preciso
que o corpo lhe informe

sou aos borbotões
meus gestos mais próprios
e um verbo que teima
em dizer-se lógico

apanho
as 15000 madrugadas
que lavraram o tempo
em minha face
e as empilho largas
numa eventual felicidade

e consumo as horas
já tardio
emborar rebentem indícios
de que ardo
apesar do frio
67

das datações impacientes da espera

1o de julho
já estava
cravado no espaço
que eu me dava

e de repente
fez continência
e já nem era julho
na paciência

tinhas mais de abril
um jeito atrasado
de um presente em que eu me fiz
com o futuro atravessado
116

dos barcos em mar com fingimento

assim noturnos
barcos são bandeiras
de tremular a esperança
pela noite brasileira

assim dançando
pela noite imensa
escrevem no peito
os mares que se queira

e nem a lua
no mar se arrime
para conter qualquer soluço
daquilo que se finge

139

poema à vagina de minha bisavó

nem só na carne
há de viver em mim
o jeito mais urgente
que, em súbita descida,
pousou irremediavelmente
nos ombros da minha vida

minha bisavó
de vagina em punho
guardou todas as felicidades
e uma ternura incauta
de jogar sua carne pelo mundo
e, mulher, dizer-se operária
a construir estranhos edifícios
nos andaimes da alma

minha bisavó
talvez por desfastio
era um mar enviesado
fantasiado de rio

nada do que lhe nadasse
deixava de ser sentido
a delação de si ao mundo
era recado do infinito

131

da chuva e da água em nordestina trama

a água
é uma alegria intensa
que chega a inventar línguas
no vão da consciência

e, assim, exercício da esperança
há quem a sinta pouca
por não sabe-la tanta
deitada no vão da terra
quando é chuva e planta 

e não lhe sobra uma fome
mesmo as mais etéreas
por não pode-la consumirem
com o vazio das artérias
34

Ode ao amanhecer de Coxixola

nem és manhã
quando aportas crua
no vão mais impotente
de quem apenas sua
essas mágoas mais pungentes
das usinas e das ruas

nem és tarde
nos olhos mais avaros
que enquadram o horizonte
com um gosto amargo

nem és noite
guardada a proporção
de que nem usas o tempo
para fomentar a ilusão

Coxixola
deitada em manhãs
nem adivinha a lassidão
de quem vive em suas costas
como um tremendo não

antes compactua
com esse jeito informe
de quem apenas cumpre a vida
com parcimônia e lógica

e vige desmesurada
na sua pouquidão
engolindo quilos de fome
rasgando a prática em vão
103

a necessária contrafação do querer

a necessidade
nem é necessidade
quando posta apenas
no invólucro da vontade

assim indisposta
é mais vau de descaminho
resposta de cada compleição
de cada desatino

a necessidade
nem constrange
nem punge e nem tange
a quem de tê-la, assim, urgente
exploda a razão inteira
do que ainda surge 
nas encostas do presente
85

pequena intrusão nos tempos

o passado só arde
quando invade
aquilo que já não se quis
porque é tarde

o futuro
só não há de
quando a manhã é pouca
para ser tarde

futuro e passado
são tempos à deriva
esperando que o coração
urgentemente os viva
93

Das usinas da vida no fragor do tempo

usineiro da vida
quem se engane
a dizer do homem
o que lhe tange

porque de rês assim caiba
a magra intransigência
de consumir-se avaro
num mar de opulência

usineiro da morte
quem assim garante
uma vida engastada
num desvão do horizonte

dão-se como bastantes
usineiros do futuro
nas vidas que amontoam
derrubando todos os muros
85

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.