Lista de Poemas

dos balanços vitais

hás de andar assim
incontinente
como se a vida não coubesse
no que sentes

e sempre te permites
ainda insolvente
cobrar o que da vida
gastas impunemente
84

de mares e coqueiros simplesmente

nesta exata compostura
em que te postas no horizonte
árvore, nem te permitas
deixar minhas retinas 
nos teus ombros
é que deixá-las
ao sabor dos teus ventos
tangem meu sonho pelo mar
como nesgas do pensamento

coqueiro nunca te importas
com as sinapses e o tempo
76

Digressão sobre a culatra

talvez nem a bala
como pássaro conciso
compreenda tua lógica
paciente e contida

assim avessa
à precisão e ao tato
tens mais de impulsão
do que é exato

pois se revelas o mister
em que te tens inata
permites aos autores
o constrangimento das balas

a vida nem adivinha
o quanto tem de culatra
48

Da insônia em transversa pose

o sono raso
escorrega do olho
e escuta a cidade
como desconforto

o sonho
nem se apercebe
que a realidade
é uma pálpebra inerte

e o tempo
monta a madrugada
como um quebra cabeça
dos  cochilos de quem tarda
54

do versejar e suas lâminas

versos
os escrevo
como quem maneja a alma
na caneta
e de tudo é tanto
que não se perceba
o músculo apenas retórico
que seja

versos
os prolato
como uma grávida sentença
de qualquer tarde
guardada a proporção
do que nunca há de

versos
os constato
na franja íntima da noite
em que me ardo
93

dos quantos josés nas avenidas

quem agora José
por não se-lo há muito
resta no vão da vida
de sentimento em punho?

quem agora José
por não se-lo tanto
tinge os ombros da alma
em desencanto?

quem agora José
por sempre te-lo sido
é maior que qualquer dor
de todo e qualquer sentido?
86

Ode ao meu cachimbo, chamado Misaque

era o fogo
serventia aguda
da coisa menos formal
prestante à luta

era o tomilho
matéria exata
de guardar restos dos sonhos
que desato

era a fumaça
magra continência
do que eu poderia queimar
nessas ausências

Misaque era só uma arma
de inventar paciências
67

das comoções em racional desplante

minhas emoções
comovo-as
com as pitadas de razão
com que as movo

minhas razões
pressinto-as
assim que me têm à mão
as adrenalinas
69

Ode à catarata

meio cego
o poeta exalta
o que da luz escapa
em sua alma

é-lhe estranho
o que divisa
o palmo que vê
e multiplica

meio cego
o poeta estanca
nas esquinas do olho
as esperanças

e não lhe agride a norma
de estar entre neblinas
o que o vento discursa
em tempos e adrenalinas
como resta no peito
uma vida embranquecida 
mas que estertora de luz
nas lembranças que avisa
104

dos ofícios de mim em crescente

meu indício
é um contrário
e a certeza que vige
nas certezas em que me guardo

meu ofício
é ser um trânsito
em tudo aquilo
em que me caibo

guardo
os dias sem guarda
e a luz mais íntima
das madrugadas

creio no engenho das estrelas
e na compreensão inata
de que tê-las é não tê-las

guardo as alegrias definitivas
como as canetas que trago
pelos bolsos da camisa
e as incluo no meu dia
com todos os verbos
a que me apresto à alegria

meu ofício
é ser meu sangue
pulsando todos os rubros
e todos os instantes
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.