Lista de Poemas

Canção dos heróis assassinados

ora joões
ora severinos
construiam essa manhã que hoje
rondam o Brasil como destino
tinham várias faces
mas um só sentido
o de beber a pátria a cada gole
ou de beber no povo seu partido

ora joões
ora severinos e augustos
traziam o futuro embrulhado
na ponta de seus discursos
e teciam a revolução
como uma grande bolandeira
atravessada nos peitos do Brasil
como oficina de uma vida inteira

eram joões
ora severinos disfarçados
na grávida noite de amor
da clandestinidade

e foram subtraídos
na moenda da tortura
e seus verbos fizeram-se sangue
e seus risos engoliram murros
foram eletrocutados
e vazados em cada poro
e morreram léguas de mortes
e viveram quilos de nojo

oram joões
oram severinos
a oração precisa
que canta nos quilometros da pátria
que nunca mataram esses Lamarcas
e Marighellas, e Capivaras, 
e Davis e Honestinos
eles vivem na aurora exata
em que o braço do povo em riste
arranca do útero da América
o futuro Brasil socialista.
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Dueto botânico em humano relato

encontras o horizonte
com a mesma qualidade
com que explode o riso
pelo vão da tarde

ainda ssim
usina de ti mesma
nem adivinhas a razão
por que estejas

se já repousas
em noites que não vivas
o vento lavra meus sonhos
no ritmo em que deslizas

e quero-me planta
como se humana fosses
para caber num horizonte
com toda tua pose
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Dos avessos de mim em trânsito

meu avesso
é o esforço
de parecer em mim
tudo do outro

o próximo
é o vínculo
entre o que sou
e o que sinto

a vida é só o laço
entre o avesso e o que faço
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biografia em síncope compassada

diz que um dia
um rapaz algo bizarro
desses que se constroem lentamente
bebeu a estrela mais vasta
às margens de um mar tão penitente
não fora ele um peregrino
do redemoinho exausto da emoção
retirar-se-ia da vida fundamente
não cravasse a estrela no seu vão
de palmilhar seus desencontros
com os pés avaros de distâncias
moeu-lhe a consciência a exata luz
que da estrela subiu-lhe em desalinho
e da funda cilha do seu peito
corcoveava o coração insone
por não se completar e tanto quanto quisesse
em alguma estrela que se dissesse humana
e hoje
da funda ilha do seu peito
habita o coração incontrolado
bêbado das manhãs mais adoráveis
que a estrela constrói com seus olhares.
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Srebrenica em plástica hecatombe

em Srebrenica
tudo agita
a condição humana
de quem fica

em Srebrenica
velhos não existem
mas a esperança jovem
de quem ainda é triste

em Srebrenica
ninguém admite
que a vida esteja posta
em cabides

em Srebrenica
não existe a mágoa
mas a grande compreensão
de que se tarda

em Srebrenica
a lógica resiste
a parecer fundamento
de quem vive

em Srebrenica
nada é da vida
76

ode de um amor preciso

urdes-me a noite
com a dessemelhança
dos dias que trago embutidos
e que em vão me cansam

porque mesmo consumido
em suores mais urgentes
eu me queira tão latente
num desvão do teu sentido

porque mesmo amarguras
se as estraçalho em tua ausência
vige uma esperança intacta
na concatenação geral dos meus sentidos

que me levam avaro
a bastar-me em teu semblante
e das noites inteiras que desfio
na exata compreensão do teu sorriso
115

dominical

eu guardei
o domingo nos teus olhos
para mirar impunemente
a transcendência do dia
e assim carnal
o tempo arquivou-se
e do meu peito brotaram manhãs
com o gosto de tuas atitudes

e nem me importa
que teus olhos se limitem
pois cabem exatos no instante
dos infinitos em que sempre me contive
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Das vestimentas e suas vertentes

nas dobras
do teu vestido de tule
meus olhos boiavam imensos
em tudo aquilo que eu pude

e neste mister avaro
de ser-me ávido e manso
recolhi-me em meus sorrisos
a cada esgar de tua semelhança

em cada esquina
do teu vestido de tule
eu me catei inteiro
e me desfiz contente
e me contive a custo
quando não em mim
estive já presente
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Teatro

meus olhos
diluíram-se na tarde
como reticências absurdas
que completavam em vão
os aparatos da noite
e mastigando os palcos do planeta
o tempo arquitetava rugas
na face indormida dos homens
meus passos
quilometricamente derramados
bebiam o tato da areia
com a displicência 
dos andares anônimos
da luz
aconchegada aos poros
subia o hálito e o verbo
dos discursos não ditos
e pela minha cara
passeavam gestos
e a profunda compreensão
da aspereza da tarde
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a bailarina em razões urgentes

o peito
sonha a pauta
como um dó
de lata
que cortasse a carne
e a máquina
como mágoa
e que se dissesse engenheira
de todo palco
e de toda brincadeira

o pé sonha o palco
como nuvem e graça
que pulsasse o salto
como lágrima
e que remisse os pecados
de quem passa

a bailarina
nem ensina
o palco que carrega
nas pupilas
apenas enseja
um certo destemor
pelo vão da vida
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.