Lista de Poemas

Poema de circunstância III

o relâmpago
traça na noite
seu jeito de dia

a mulher
envolta em sono
resume em si
todos os meus egos

e a baía
sestrosamente adormecida
enleva seus barcos
com os arrepios solertes
de seu dorso farto

a síntese
trai um infinito
tardiamente acabado
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balada a minha terceira mulher em caso de urgência

nem a minha saudade
por ter-se tão vasta
preencha o quanto de tua ausência
em que se diga ávida
ou que fora pouca
ou que se faça marca

meu coração
é uma bandeira exata
de tremular em ti
na tua falta

nem a minha vontade
tenha-se controlada
em distribuir tua voz
no vão dessa cidade

meu coração
é um motor inato
de sempre ter sido
tão em ti
voraz e automático

não dessas energias
que se filtram aos pedaços
mas que em cada novo gesto
descubram assim tão de repente
que a vida sempre bóia nos teus olhos
comigo apenas navegante do teu peito

nem os infinitos
que se contam comumente
ousem desembaraçar em ti
aquilo que, em mim, é de te ter tão vasta
e condição de ter-me vivente
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quase soneto em raro desacordo

rosa que assim me faça destemido
em tê-la como flor tão fortemente
e que me seja tanto e mais sentida
que a dor de viver apenasmente

flor que me lembra incontrolado
nos obstáculos que tranço pela vida
e que me pulsam avulso pelo mundo
como trama de tudo que eu não digo

e que me conte assim pelas esquinas
navegante de mares e de rimas
como notícia de todo sentimento

e que me ponha no verso como n'alma
deslavado de tudo e tanta calma
inconstruído ainda em meu lamento
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de posses e possuidos

em posse de ti
me despossuo
na exata medida
de achar que a noite é balsa
de atravessar a vida

cúmplice de ti
me absolvo
das muitas vidas
que cometo e absorvo

e convoco em mim
os metros de alegria
que adredemente preparas
na garganta do dia
87

Do poema em navegante razão

o poema
delata
os debruns da vida
em passeata
funda mandíbula
de palavras
engalana verbos
e os desata

e nessa lírica procissão
em que desaba
é quase um enfeite da razão
um aconchego de palavras
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Dos voos retóricos em ondas

minhas asas
são as palavras
que o poema entorna
pela alma
aves retóricas
só intentam
inventar nas frases
um vôo do pensamento
e assim lúdicas
iludem os verbos
traçando futuros
no peito do verso

minhas asas voam mansas
nos sonos que adormeço
142

Paisagem nordestina em trânsito

e dos ombros de Pernambuco
assim deitado no vento
o infinito dá um jeito
de abraçar-se com o tempo
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Dos arruados da vida em caravana

o dia para mudar
é agora
basta laçar a vida,
montar na história
e derramar os neurônios
nas estradas das horas
tangendo o tempo de todos
como se fora caravana
que a gente inventa no peito
e pelos campos derrama

há que se entornar a vida
como fora uma dança

82

Do capital em decúbito recorrente

o mercado
regurgita
as léguas da fome
que exercita.
Homens e lucros
em decúbito
estupram moedas
e debitam absurdos

o capital moribundo
estertora sua pança
e apodrece a razão
nas larguras do mundo
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Dos trilhos e trens em seus viventes

os trilhos
que trago em mim
são caminhos da vida
dos trens que o futuro tange
com suas locomotivas
e que restam pelas ruas
em espirais de viventes
nos meandros que a estrada
constrói em suas vertentes

maquinista de mim, admito,
ouso os trilhos de quem sente.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.