Lista de Poemas

Ode à pequena Ana

Ana é lógico
que entre tuas tranças
mora o ócio
e que são cabelos
como impostos
na vida infante
que suportas
e jazem no dia
como óbvios
apesar das armarguras
que te informam
131

das vertentes coronárias da dor

ah! esse meu peito
que balança
e que sente mais
do que é preciso
a esperança

e que porque sinta
deixe-me assim desavisado
de que a vida é só um tempo
que nem sempre é tarde

e nunca me perceba
como se recebe
essa mania inata
de sofrer em tese
127

Ode aos serventes de pedreiro de meu país

quem levará esses homens
que abrem com o corpo a madrugada
e que bem antes de amanhecer
amanhecem a pulso essa cidade?
o que os guiará nessa lavratura intensa
que a cada passo não se esgota
e que a cada pranto
a vida nunca convença?
que naves levarão dentro do peito
enfunados, assim, diariamente
que os faz engolirem como contentes
os metros de desgraça à sua frente?
em que esquinas esconderão seus risos
arqueados assim sob o peso dos edifícios

talvez não sejam tão crianças
quanto o limite dos seus corpos dizem
mas que tragam pedaços de esperança
que escondem dos olhos das crises

quem levará esses homens
que rasgando a face da manhã como ofício
transferem o futuro dos seus corpos
para a fachada desses edifícios?

que tempo beberá seus anos
sobre a sombra intransigente dos andaimes?
quantos afetos ainda boiarão
na liquidez de sua humanidade?
109

Palavras a Seu Andrade na morte de sua amada

pelo olho
vaza a vida
salgada sem razão
da despedida

pelo verbo
jorra a alma
usina de muitas léguas
oficina que nem usavas

pelas rugas
escorre a mágoa
vadia emoção
agora inexata

pelo homem
corre o indício
de que a tarde
é um grande precipício
95

Ao meu filho André

a vida
companheiro André
é de uma alegria exata
não tão gasta
que não se faça triste
e que não seja alegre
por não ser tão vasta

contém no nosso peito
a latitude necessária
de fluir pela boca
quando se luta
de engasgar-se com a morte
quando se cala

construir o seu discurso
é o ofício de quem a guarda
109

Ode ao urso polar em nado esvoaçante

hás de ser alvo
de minha retina ingovernável
na compostura engenhosa e incauta
com que desenhas o teu nado

e hás de remoer a paisagem
e inventá-la em ti mesmo
com a desfaçatez e a lassidão
com que alisas meu cérebro

hás de ter a monotonia
de uma revolução inerte 
na contração de tua paz
nesse quê de paquiderme

103

Ode aos 31 anos

numa tarde precoce
dessas que se embainham no peito
bebi um gole de mim mesmo
e me entrancei com a vida
trouxe-me mais ao mundo
do que mesmo para comigo
(vã a tentativa de me morrer mais vário
na singularidade coletiva do exercício)
e me vivi tres vezes
em cada músculo que compunha
dedos e ócios
e os ossos do ofício da alegria
e fingi-me solerte
franzindo o juízo
na similitude inequívoca
das grandes sanguessugas
e rompi as manchas da vida
com meu punhal de risos
e amanheci todas as vezes
em que me tive
suicidei minha agonia
com o manejo intacto
dos menores vaticínios
rasas as dessemelhanças
no meu peito de assassino
e enchi-me de mim
nas noites mais plásticas
em que a cabeça tenta um salto
e o sonho nem desmaia
108

em direções e laços

a bússola
é incoerente
pois nunca aponta o norte
que se traz dentro da gente

o sentido que aponta
é empre tão exato
que não cabe dentro do peito
ou na sola dos sapatos

e nesse conselho que traça
como irremediável ofício
não tem ainda a precisa candura
dos humanos exercícios
99

Das mortes em dias de vida

nos dias em que morro
nem pressinto
o quanto de vida houve
nesse labirinto

antes a repasso
como complacência
para que a morte enfim
nunca me convença

e se não a aquilato
ou revelo seu jeito
é que é mais fácil morrer
com vida no peito
109

À Camarada Antônia

à Camarada Selma Bandeira, in memoriam

nem mais teu verbo
ressurgirá tão ávido
que recomponha tua carne
na pouquidão da tarde

ainda que as praças de Recife
guardem no seu átomo mais largo
os pedaços de rosa dos teus pulmões
esculpidos à pulso em palavras

ainda que nos olhos da gente
repouse teu retrato mais amargo
nem mesmo o fim conseguirá reter
o início lógico da madrugada

teus músculos
dilacerados em vão
pulsarão nos sonhos
que ainda trazemos nas mãos
89

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.