II - As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos (Bernardo Almeida)
As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos Os corpos do tempo soterrados pela barbárie Malsãs irmandades nos olham pelo viés da eternidade Nas memórias entremeadas, o viço e o festim da saudade Revezam-se em um balé macabro: cantos sórdidos De mórbidos dançarinos; felizes saltimbancos divinos Seduzidos pelo temerário brilho secreto e imerso no lodaçal
De todos os decanos insanos e profanos (Bernardo Almeida)
Na minha casa destampada Baratas surgem das panelas Rugem nas madrugadas Têm tamanho de ratos Na sala, morcegos rondam Cadeiras aleijadas e abajures sem luz Tateiam, bêbados, os prantos do escuro Em círculos incompletos — devoram o absurdo Os pisos não participam do festim Pedem apenas para ser trocados Súplica negada! No prédio, não há janelas Mas televisões Cujas telas são auditórios Em que o palestrante profere Um discurso pornô Em sincronia Com os reais ruídos Do amor Aqui, nas madrugadas Da Bahia, em Salvador Não existem santos Talvez cheguem como tais Mas morrem sempre mundanos Nada a expiar, somos todos perdidos Processo de canonização interrompido Pelos eflúvios sexuais Pela efusão da libido Embebidos em êxtase Peristálticos excessos Na cidade que é mãe E amante do poeta Que é tia e mãe Das minhas netas Devotos do prazer Todos os santos amuados Converteram-se em vivazes peregrinos Em busca do deus humano do orgasmo Que redime o pecado Sem tentar curar ou glorificar Aquilo que já está salvo e satisfeito Ceifado, deglutido, envenenado e celebrado Pela carne nua da hóstia Banhada nos mares hostis Relutantes e resolutos Da pia batismal oceânica Na qual deitou a cabeça Do nome de nascença Dessa terra lúbrica Que se fez povoar Pela indiferença
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Solfejo (Bernardo Almeida)
Tomba a foice meteórica sobre o balneário em chamas O mar recua, enquanto o continente a bailar avança Sob o céu de cobre, que se adensa na manhã magenta O estrondo agônico acompanha o relampejo contra o qual adeja O firmamento se arrebenta e a ordem viceja – reintegrada ao caos Restituindo a paz ao cosmo, no universo outrora cindido A soletrar o nome recôndito de toda e qualquer espécie Ungindo de vida a ira que se aventurou no fluxo incessante De energia redobrada, na destruição dos feixes da história
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150 megatons (Bernardo Almeida)
Eu era forte quando negligente negava a influência indolente do tempo sobre a existência era ventania, braço cortado apartado do corpo a remar contra a maré era bravio e independente perene, inteiro, transversal eu insurgia e contemplava não queria ser aceito ou acolhido eu evitava ser especial o mais lembrado, o escolhido eu não queria nada de menos ou de mais tinham-me como indiferente eu não era nada além de livre e esse pouco que eu tive era o infinito que me bastava estava só – e não tinha consciência do que era a solidão a tristeza não passava de um condão retórico sobre um ponto de vista cadavérico no deserto estratosférico da multidão
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II - As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos (Bernardo Almeida)
As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos Os corpos do tempo soterrados pela barbárie Malsãs irmandades nos olham pelo viés da eternidade Nas memórias entremeadas, o viço e o festim da saudade Revezam-se em um balé macabro: cantos sórdidos De mórbidos dançarinos; felizes saltimbancos divinos Seduzidos pelo temerário brilho secreto e imerso no lodaçal
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I - querer, na febre (Bernardo Almeida)
querer, na febre, a hecatombe algo além da fome refém do ódio do incômodo óbvio do estrondar da queda da ponte ferir o nome, que ressoa na escuridão desejar o vórtice da madrugada óbice recôndito intenta o nada na falta que afaga o olhar a se deter no passado que se apaga preciso inalar a escassa sensatez decifrar algaravias e inventar naufrágios comover o plácido rebelar ninguém
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Remoto (Bernardo Almeida)
O som do mar a ricochetear nas fronteiras invisíveis da inóspita imensidão
Chão em desintegração queda, apupo, alienação
E o oceano, em derrisão, impassível – a compor a canção da criação do infinito
Íntima transformação no ínfimo átimo universal
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Autópsia (Bernardo Almeida)
Caminhamos com os mortos, enquanto expiramos Esperamos a eternidade e perecemos nos torvelinhos dos anos Que fogem ao que vivemos, como se eternos fôssemos Falhamos e nos entretemos, tão logo o erro se faz efêmero Fosse um raro verso fúlgido a crepitar na órbita do sol Desalojaríamos o futuro, sem compreender o fulcro das eras Não sem danos, escalamos a escarpa do astro venerando Íngreme soluço da inexatidão a vociferar crueldades Aspergindo, anonimamente, generosidades Nos maremotos dos ânimos, nas veredas da incompletude