Carlos_Gildemar_Pontes

Carlos_Gildemar_Pontes

Escritor, Doutor em Letras. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande, Editor da Revista Acauã.

n. 0000-00-00, Fortaleza-CE

Perfil
12 831 Visualizações

EXISTE UM MUNDO FORA DA INTERNET

O melhor mesmo seria perguntar se existe um mundo fora da internet. Parece que, se existe, está agonizando. Estamos lentamente (uma imensidão de gente) transferindo nossos afetos para as redes sociais. E quando um afeto se transforma em autoimagem, que afasta a pessoa do real, o mundo real vai ficando opaco. Cada vez mais o ego precisa de curtidas, compartilhamentos, comentários. Esse acúmulo de empatia em estado de aparência nos faz cair na ilusão de uma vida sem riscos de atropelos, assaltos, tragédias, porque o nosso santo cantinho diante do computador ou do celular nos dá a segurança de uma existência de sorrisos.
Paralelemente, o mundo real segue com seus sistemas de controle cada vez mais aperfeiçoados. A luta de classes ficou mais sofisticada, pode promover a aparência da igualdade quando eu posso postar da mesma forma que o presidente pode também. E eu posso rebatê-lo, posso esbravejar e criar meu protesto ou simplesmente replicar o protesto de alguém. Essa malha ilusória que nos faz pensar em igualdade é uma armadilha para ir, aos poucos, determinando nosso lugar no espaço dessa luta por audiência virtual. Quem detém o poder e está no controle de tudo sabe que o mundo fora da internet é para quem é livre e autossuficiente. Os zumbis das redes sociais precisam de doses cada vez maiores de sensacionalismo para estimularem sua integração com a virtualidade. O espetáculo, enfim, atingiu a humanidade, como preconizou Guy Debord.
A mim, me parece, que posso viver sem essa transferência pacífica e servil para o mundo virtual. Posso controlar meus neurônios e barrar o alojamento do chip cerebral que se alimentará das aparências.
Ainda gosto de lembrar e sentir o cheiro das pessoas. De sentir o pelo arrepiado. De esperar e trocar longos abraços por outros longos abraços. Olhar para fora de mim e ver que não tem uma tela pequena ou grande manipulando meus dedos e meu tempo. George Orwell já havia me alertado que o grande irmão estava de olho em nós. E Huxley previu até que passaríamos por um tipo de controle como seria o código de barras. Esses são meus companheiros de mundo real. Senhores sem idade que romperam o tempo para me dar mais créditos para viver a realidade.
Não quero me tornar um agente Smith, a serviço da Matrix, muito menos amanhecer transformado num inseto, como advertiu meu amigo Kafka. Quero cultivar minhas idiossincrasias e remendar meus erros na beira da praia, num efêmero castelo de areia. Afinal, se não fosse a onda que brinca de arrastar e devolver nossos sonhos ao mar, por que eu faria castelos para me tornar prisioneiro deles?
Minha memória me fez sorrir. Trouxe-me os cheiros e os abraços que perdi. Há nuvens no céu, livros sobre a mesa. Au revoir!
Ler poema completo
Biografia
CARLOS GILDEMAR PONTES (Fortaleza-CE)
 
Escritor e Poeta. Ensaísta e Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, Campus de Cajazeiras. Editor da Revista Acauã, Mestre em Letras. Tem 27 títulos publicados, entre Poemas, Contos, Ensaios, Crítica Literária, em 21 livros, e 7 cordéis.
É traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas.
Ministra Cursos, Palestras, Oficinas, Comunicações em Eventos nacionais e internacionais.
Vencedor de Prêmios Literários locais e nacionais. Foi indicado para o Prêmio Portugal Telecom, o principal prêmio literário em Língua Portuguesa no mundo.
É articulista/ colunista do Gazeta do Alto Piranhas e do Site www.diariodosertao.com.br
Blog: http://rastros.zip.net  E-mail: [email protected]

Faixa Preta de Karate Shotokan – 3º Dan/ CKIB
Coordenador do Projeto Karate Campeão, da UFCG.

FORMAÇÃO ESCOLAR
Primeiro/ Segundo Graus: Colégio Militar de Fortaleza/Colégio Rui Barbosa - 1980       
Curso Básico de Língua Francesa: Casa de Cultura Francesa da Universidade Federal do Ceará. Carga Horária: 420 h/a,
Curso Superior: LETRAS - Universidade Federal do Ceará. 1986
Especialização em Literatura Brasileira – Universidade Federal da Paraíba, 1989.
Mestrado em Letras - Área Literatura - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. 2011
Doutorando em Letras - UERN, 2019
 
LIVROS:
Lesco-Lesco: a lida cotidiana - poesia, 1984.
Canção à lua - poesia, 1984.
Caixa postal – poemas postais, 1986
Metafísica das partes – poesia, 1991.
O olhar de Narciso – poesia, 1995
O silêncio – conto/ literatura infantil, 1996.
A miragem do espelho – conto, 1998
Super Dicionário de Cearensês, 2000
Literatura (quase sempre) Marginal – ensaios, 2002
Os gestos do amor: magia e ritual – poesia, 2004
Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, ensaios, 2005
Quando o amor acontece... – poesia, 2006
Travessia de mundos paralelos – crítica literária, 2007
Da arte de fazer aeroplanos – conto, 2008
Melhor seria ser pardal – poesia, 2009.
A literatura e seus tentáculos (Org.) – ensaios, 2011.
Amor, verbo de se fazer – poesia, 2013.
Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura - Ensaio, 2014.
A essência filosófica do amor - fragmentos, 2014.
Poesia na bagagem, (Antologia poética, vol 1), 2018
Cultura popular: meios, formas e identidades (Org.), 2018
 

Cordéis:
Da roça pro viaduto, 2ª ed. 1998
As aventuras de Zé Severino, 2004
A queda do Zé Severino, 2005
Bush vai reinar no inferno, 2007
O delegado que roubava livros, 2008
A morte do rei do Pop Michael Jackson, 2010
A casa de Josenir (é a casa da poesia), 2012
Homenagem a Bráulio Bessa, 2018
I Mostra de Teatro de Cajazeiras, 2019
O mundo da poesia, 2019

Poemas

32

ALGUMAS COISAS IMPRESTÁVEIS

Eu me iludi porque sou feito de desejos.
Cri num mundo que não existe.
Os ladrões de esperança
compraram as consciências
dos homens de almas pobres.
O amor fez que veio
E se fantasiou de cabelos longos
de alegria e de fantasia de amor.
E eu cri no amor porque o amor não adormece
os sonhos dos infantes.
Eu faço contas e junto coisas imprestáveis.
Tive muitos amores imprestáveis.
Quando arrumo as gavetas da memória
saltam-me poemas imprestáveis,
porque pertencem a um tempo
em que fazer poemas valia alguma coisa
- como ganhar um beijo da menina quieta
que lia poemas e entendia a eternidade
daquele momento.
Eu não troco um poema imprestável
por mil sorrisos falsos.
175

AMAR É BOM

Amar
é quase a mesma coisa
que morrer
a gente ama e sofre
pensando que vai vencer

Na infância
o maior amor de mãe
mãe é pudim, doce de leite
comida que só ela sabe fazer

Na adolescência
é tempo de heróis
às vezes o pai
às vezes o que voa na TV

Quando se é Romeu
o amor é afiado
Julieta é o diamante
no cristal envenenado

Depois somos pai e mãe
o amor é um espelho
de frente para outro espelho
amor de filho é divino.

Ah! Amar é bom
melhor do que ser amargo
carregar fardo
ou ser uma imensa
praga na solidão.
355

ALGUMAS COISAS IMPRESTÁVEIS

Eu me iludi porque sou feito de desejos.
Cri num mundo que não existe.
Os ladrões de esperança
compraram as consciências
dos homens de almas pobres.
O amor fez que veio
E se fantasiou de cabelos longos
de alegria e de fantasia de amor.
E eu cri no amor porque o amor não adormece
os sonhos dos infantes.
Eu faço contas e junto coisas imprestáveis.
Tive muitos amores imprestáveis.
Quando arrumo as gavetas da memória
saltam-me poemas imprestáveis,
porque pertencem a um tempo
em que fazer poemas valia alguma coisa
- como ganhar um beijo da menina quieta
que lia poemas e entendia a eternidade
daquele momento.
Eu não troco um poema imprestável
por mil sorrisos falsos.
354

SOU QUEM TE SABE

O que me dizes das árvores
Enfileiradas no bosque
Falando coisas de passarinho?
O que há em teus olhos de cometa
A incendiarem os meus sentidos
Depois de tantos sonhos repetidos?
Quem te mandou aqui?
Podes me dizer,
Se é para ser feliz posso te acolher
Tenho um coração maior que meu país
Feito de ilusão, que é pra ser feliz.
Feito de dor, que é pra ser humano.
Um coração de amor
Sou quem te sabe o que sou.
342

COM A SEDE DAS FORNALHAS

Eu passava os dias sonhando
com a mulher amada
achava que ela viria um dia
em camisola transparente
andando ao meu encontro
na displicência de quem demora
e o vento colava a camisola em seu corpo
e me entorpecia de desejo
à noite ela me visitava o pensamento
e nós conversávamos baixinho
para não acordar os outros da casa
e ríamos baixinho
fazendo gestos com as mãos
e encolhendo o corpo num abraço
horas a fio fiávamos o tempo
e nos beijávamos como noivos
e nos amávamos com a sede das fornalhas
que aqueciam os engenhos de cana
eu lembro de tudo que quase foi
cada pedaço de nós que costuramos
com as linhas da solidão.
333

A ÁRVORE SOLITÁRIA

A árvore solitária na beira da estrada

Passa seu tempo contando os carros

Os caminhões, os ônibus, as motos

Olhei para ela nessa vida de solitário

E vi que só ela dava sombra

Em meio a tanto deserto

Pensei nela ali na estrada

Empoeirada, empoleirada de ninhos secos

Pensei nela um dia semente

Brotando da terra depois de uma chuva

Olhei para ela pelo retrovisor

E vi que sumia, pequenina, solitária

Como a vida que segue sem propósitos.
547

FOI O VENTO

Minha filha agora entrou
No mundo das siglas:
TPM
Se bem que no caso dela é uma tepeemezinha.
Fico olhando para ela, com raiva do vento
Me olhando silenciosa como se quisesse dizer:
O que foi?
E eu digo: foi esse vento que passou!
712

RELICÁRIO

Há mais coisas
entre o mel e a abelha
do que possa imaginar
nossa chã homeopatia.

O terço, amigo,
é a arma do vigário
se não posso te ofertar um poema
que os anjos escutem a prece
desse nosso relicário.
752

SERTÃO DOS BICHOS

Arde a terra sob meus pés
Anteu sou eu e os meus calos
de léguas e sol
arde em mim uma lua
que acalma meus olhos
e os olhos dos bichos
que sonham
a chuva amarela do
milharal em flor
714

DE BORBOLETAS E PASSARINHOS

Se o mundo fosse cinza
Não haveria borboletas
Nem passarinhos
Bastaria um papagaio daltônico
Repetindo a mesma canção
Mas o mundo é colorido
E somos as tintas que fazem
A diferença entre a alegria
E a imensidão de vazios.
97

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.