Lista de Poemas

DE BORBOLETAS E PASSARINHOS

Se o mundo fosse cinza
Não haveria borboletas
Nem passarinhos
Bastaria um papagaio daltônico
Repetindo a mesma canção
Mas o mundo é colorido
E somos as tintas que fazem
A diferença entre a alegria
E a imensidão de vazios.
79

DESEJO DE VINGANÇA

Trago na alma o desejo de vingança.
Vermelha, amarrada, pisoteada, traída
minha alma chora.
Desprezo todos que amordaçam a alma.
Desejo me vingar com o mesmo sangue
que me socorre as veias dilatadas,
sangue doce, quase azul, sem maldade,
como uma canção triste de Piazzolla,
Ravel ou Schubert.
Meu sangue é quente para ferver o ódio
emparedado do outro lado de mim.
É assim que eu me vingo!
Sei matar a tristeza com o amor
dos grandes poemas
e das grandes canções.
78

FOI O VENTO

Minha filha agora entrou
No mundo das siglas
Tpm
Se bem que no caso dela é uma tepeemezinha
Fico olhando para ela, com raiva do vento
Me olhando silenciosa como se quisesse dizer:
O que foi?
E eu digo: foi esse vento que passou!
58

E DEUS NÃO ESTAVA LÁ

Eu vigiei o céu na minha infância
e Deus não estava lá.
Sentei nos templos que diziam existir Deus
e Deus não estava lá.
Fiquei desgarrado da sorte
e esperei por Deus, mas Deus não estava lá.
Às vezes estive no inferno do ser
e apelei para Deus e Deus não estava lá.
Quando pensei que Deus era uma ilusão
encontrei Deus testando as minhas forças,
embaralhando minha inteligência,
realçando minhas dúvidas,
para que eu descobrisse
que Deus estava em mim.
88

Aprendi...

Aprendi com a vida e com os livros que há concessões que nos levam embora a liberdade, há silêncios que nos tiram a paz e há condescendências que nos fazem cúmplices.
98

A RAZÃO DO AMOR NÃO SE EXPLICA

Eu pertenço a ti porque estou em cada canto do teu sonho.
Estou nos caminhos porque és caminheira.
Guardo tua sombra para que ninguém te aprisione.

Eu escolhi estar contigo porque acredito no amor.
Vivi em busca do mais puro amor
E encontrei em ti a fonte que me alimenta.

Se não sabes escalar a montanha te dou asas,
Se não sabes ver além do mar te dou quilhas,
Se não queres ver a dor sobre a fronte te dou meu peito.

Não sabia de ti porque não existíamos
até o acaso divino mostrar nossa face.
Estamos aqui porque a maravilha foi feita
quando nascemos e recebemos a sina:
- Vai, encontra teu par e guarda-o para o sem fim.

E nos encontramos depois de muito nos perdermos.
E houve descaminhos e desalinhos nas dores e tristezas.
E houve saudades e desejos que não sabíamos.
Agora é hora de sermos a luz do nosso destino.
Deus tem-me dito ao longo do caminho, sem palavras,
que é para nós continuarmos o mundo.
O amor está em nós,
Deus não responde pelos nossos desenganos.
167

ALGUÉM ME EMPRESTA UMA MÃE!

Alguém me empresta ou me aluga uma mãe,
para eu passar um pedaço do dia!
Quero lhe contar coisas que falo sozinho.
Quero pedir um cafuné, um doce, um café,
coisas assim de mãe, que não custa nada fazer.

Prometo que devolvo inteirinha
com uma sacola de abraços e beijos,
na hora das andorinhas.

Eu emprestaria minha mãe,
se ela ainda estivesse aqui,
queria vê-la fazer a alegria daqueles
que olham para retratos
e beijam lágrimas em redemoinho.
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A MÃE DE DEUS

A mãe de Deus está de olho em tudo.
Até em Deus, que sacrificou seu neto por nós.
A Mãe de Deus é tão legal
que eu estou pedindo a ela
para afastar Nibiru só um tiquinho.
Pode levar a lua e aquele povaréu do universo
que fica pra lá e pra cá, lá na lua,
e não ajuda a gente a se livrar do egoísmo.
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GRATIDÃO

A melhor gratidão
não diz que é grata
fica no pelo arrepiado
no sorriso silencioso
no vapor de uma alegria.
A melhor gratidão
nunca vai ser mentida
pela boca que não fala.
O estalo da alma
revela o encanto
estrela graça amor infinito.
313

TENHO PONTES PARA CONSTRUIR

O homem atravessa pontes
para não molhar os pés.
Entanto, derrama pranto e suor
para construir as pontes.

Muitas luas e sóis desabaram
no crepúsculo de nossas vidas.
Fugimos do rio e do mar revolto
porque somos passageiros das pontes.

A rede armada no quadro
retém o rude e sonolento pescador.
Não posso acordá-lo.
Esta imagem me salta como uma navalhada.
Desesperado, caio morto,
torto de desejos, ávido de sonhos.

Me levanto ao amanhecer, espada na mão.
Um sorriso antes de abrir a porta.
Uma rua infinita para seguir.
Descalço os sapatos, mastigo a solidão.
Dou o primeiro passo, não olho para trás.
Tenho pontes para construir.
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CARLOS GILDEMAR PONTES (Fortaleza-CE)
 
Escritor e Poeta. Ensaísta e Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, Campus de Cajazeiras. Editor da Revista Acauã, Mestre em Letras. Tem 27 títulos publicados, entre Poemas, Contos, Ensaios, Crítica Literária, em 21 livros, e 7 cordéis.
É traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas.
Ministra Cursos, Palestras, Oficinas, Comunicações em Eventos nacionais e internacionais.
Vencedor de Prêmios Literários locais e nacionais. Foi indicado para o Prêmio Portugal Telecom, o principal prêmio literário em Língua Portuguesa no mundo.
É articulista/ colunista do Gazeta do Alto Piranhas e do Site www.diariodosertao.com.br
Blog: http://rastros.zip.net  E-mail: gilpoeta@yahoo.it

Faixa Preta de Karate Shotokan – 3º Dan/ CKIB
Coordenador do Projeto Karate Campeão, da UFCG.

FORMAÇÃO ESCOLAR
Primeiro/ Segundo Graus: Colégio Militar de Fortaleza/Colégio Rui Barbosa - 1980       
Curso Básico de Língua Francesa: Casa de Cultura Francesa da Universidade Federal do Ceará. Carga Horária: 420 h/a,
Curso Superior: LETRAS - Universidade Federal do Ceará. 1986
Especialização em Literatura Brasileira – Universidade Federal da Paraíba, 1989.
Mestrado em Letras - Área Literatura - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. 2011
Doutorando em Letras - UERN, 2019
 
LIVROS:
Lesco-Lesco: a lida cotidiana - poesia, 1984.
Canção à lua - poesia, 1984.
Caixa postal – poemas postais, 1986
Metafísica das partes – poesia, 1991.
O olhar de Narciso – poesia, 1995
O silêncio – conto/ literatura infantil, 1996.
A miragem do espelho – conto, 1998
Super Dicionário de Cearensês, 2000
Literatura (quase sempre) Marginal – ensaios, 2002
Os gestos do amor: magia e ritual – poesia, 2004
Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, ensaios, 2005
Quando o amor acontece... – poesia, 2006
Travessia de mundos paralelos – crítica literária, 2007
Da arte de fazer aeroplanos – conto, 2008
Melhor seria ser pardal – poesia, 2009.
A literatura e seus tentáculos (Org.) – ensaios, 2011.
Amor, verbo de se fazer – poesia, 2013.
Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura - Ensaio, 2014.
A essência filosófica do amor - fragmentos, 2014.
Poesia na bagagem, (Antologia poética, vol 1), 2018
Cultura popular: meios, formas e identidades (Org.), 2018
 

Cordéis:
Da roça pro viaduto, 2ª ed. 1998
As aventuras de Zé Severino, 2004
A queda do Zé Severino, 2005
Bush vai reinar no inferno, 2007
O delegado que roubava livros, 2008
A morte do rei do Pop Michael Jackson, 2010
A casa de Josenir (é a casa da poesia), 2012
Homenagem a Bráulio Bessa, 2018
I Mostra de Teatro de Cajazeiras, 2019
O mundo da poesia, 2019