Lista de Poemas
À bolina dos ventos

Respiro e saboreio cada momento definitivo
Tenho na intuição dos prazeres o reencontro
E a assinatura do silêncio quase coercivo gotejando
Entre a solidão e os deleites de um sonho tão bem nutrido
Na horta das minhas ilusões planto a esperança
Que renasce esgotando o cálice onde deposito cada
Lágrima de júbilo escorrendo na face do tempo fugitivo
Exibindo seu indomável silêncio sempre mais paliativo
Nado num passível momento do tempo onde me afogo
Em cada sufocante maresia bradando intempestiva até
Que as margens do amor se unam para sempre assim interactivas
O vento iça para longe teus perfumes poluindo o oceano de solidão onde
Visto aquela onda uivando à bolina, desaguando cativa, para gáudio
De cada maré sucumbindo a nossos pés tão afoita virtuosa...regenerativa
Frederico de Castro
302
Palavras e sentidos

As palavras com seus significados
Bebo-as inteiras sem mastigar ou sentir seu tacto
Engulo-as devoradoramente até mitigar de facto
Cada lamento, gostoso, apaparicado...a levitar...estupefacto
Vigio-as de noite, agregando-as em rimas expostas
Desnudas galgando desejos e paixões que se imolam
Na oralidade de uma palavra terna desfragmentada
Onde pernoitam as minhas solidões tecidas no desvelo
De uma madrugada que morre tão suavemente desapontada
Com palavras besunto o amor que caustico num
Beijo fiel e derradeiro
Deixo o rito de tempo macerando em sonhos corriqueiros
Inconfessáveis, atarantados...cochilando assim desordeiros
Derramo sob o mar dos meus versos todas as
Palavras que outrora me afogavam num aguaceiro
Prenhe de rimas forasteiras, esbravatando todo verbo
Carente, manietado, ululante, desaguando lesto nesta
Maresia de palavras apaixonantes e matreiras
Ficou só uma noite escassa, perdida no vão de um
Comovido silêncio, calcorreando todas as colinas desta
Minha solidão aventureira, consumindo a luz que agora amaina
Tanta escuridão, ousada, nefasta contorcendo-se perante a
Dissoluta vida, feita utopia num incontido bramido tão absoluto
As palavras estendem-se pelo tempo, letra por letra
Soletrando ilusões que despertam até deglutir o ténue
Poente que reverbera pela serenidade de tantos sorrisos grogues
Apaixonados, plicando os sentidos dançantes entre os estuários
Da vida, ambulante, aventureira...ovacionada...enfeitiçante
Frederico de Castro
288
Memórias unilaterais

Geme a alma, carente, castigada esculpindo o ser
Fugitivo que forjo neste destino excursionando pelos atalhos
Deste mundo primitivo guarnecido por versos insanos e instintivos
Ao anoitecer chega o silêncio quase petrificado
Deixando no ar as essências da sua escuridão inibitiva
Contristada acamando meus ais e lamentos mais receptivos
Domei cada hora calcorreando o dorso da solidão
Deixando sob disfarce aquela ilusão patenteada por
Um pasmo e devorador desejo ali cativo
Lenta, lentamente embebedo-me da manhã despontado
Invulgar e depurativa standartizando todos os beijos casuais
Sussurrando nos becos da minha solidão insatisfeita e factual
Recreio-me pelos pastos alados projectando nos céus
Virtuais um vassalo silêncio rumando à catedral das
Minhas memórias onde a fé imerge imperativa e unilateral
Murcharam os lamentos vindos desses olhos tristes
Caiando nosso jardim com mil perfumes primaveris
Numa rara embriaguez saborosamente submissa e viril
É tempo de nos emanciparmos desta meiga ilusão peregrina
Empoleirada nas crinas da solidão centrifugante por onde cavalgo
Desatinado pilhando o tempo proscrito, alucinado...protuberante
Na catedral deste mundo poético exponho a fé que celebro num
Rito sagrado , ajoelhando as rimas modeladas, supracitadas com mestria
Qual incenso vagando pelo altar das palavras assim empolgadas
Morreu por fim o silêncio...enterrei-o de vez...rigorosamente
Numa elegia de festejos pincelando o jazigo onde se extingue
Também a noite esgotada, taciturna...transladada...integralmente
Frederico de Castro
287
Tenho que ser...

Fui um eco avulso, sem indulto morando junto
Ao pecado reduzido a cinzas e pó...sepultado ao
Lado da solidão recheada de tenazes versos em reclusão
Fui silêncio em dia de festa engolindo cada lamento mudo
Tamborilando entre vigorosos fragmentos de um sisudo sorriso
Aconchegado à felpuda noite fenecendo sem mais constrangimentos
Fui escuridão nesta noite de um breu quase incalculável
Desabando em mim toda a luz malabarista e imolável
Argamassa dos meus versos perdidos numa hora lentamente maculável
Fui geometria da tua aritmética precisa e sistemática vasculhando
Cada semi-recta onde pernoitámos embrulhados num desejo incansável
Esquadria para tantos beijos multiplicados com um sabor quase inquestionável
Frederico de Castro
287
Versos em clausura

Assim se desnuda cada latido dócil
Enfeitando nossos sentimentos esborratados
Num mavioso ronronar pulsando assim recatado
Sob aquele pungente abraço melodioso...agora colmatado
No murmúrio dos ventos recostei-me entre as brisas
Passageiras desbaratando toda a saudade inquebrantável
Latente, bem aquilatada e matreira até que o toque
Da tua sombra assoalhe o lajedo de tantas memórias forasteiras
No vazio dos dias preenchi as horas varejando pela cumeeira
Das mesmas palavras corriqueiras conjugando a semântica dos meus
Versos unânimes, enclausurados numa paixão deveras tão derradeira
Estanquei no baldio dos meus silêncios o acto de solidão que transbordou
Em cada migalha de luz tateando o momento resoluto onde nos entregamos
Condolentes, intoxicados...quase absolutos, mais contundentes...pacificados
Frederico de Castro
292
Para além da distância

Com efeitos curativos a noite esvazia-se
Na escuridão, adormecendo a malandrice do silêncio
Que nos apetece...aromatizando o dia que nasce
Impaciente e de esperanças se reabastece
O ponteiro marca cada hora deambulando pelas
Esquinas deste tempo impaciente, perdido num coktail
De solidões onde me embebedo em cada beijo tão subserviente
Aprisionado naquele calafrio de desejos tão coniventes
Do alto do precipício pulam as palavras apoteóticas
Planam no planalto das ilusões aliciantes deixando no quociente
Do amor a aritmética de mil desilusões escalando este silêncio
Mastigando todo o prazer displicente...quase narcótico
Mitigo nesta lágrima um pouco da saudade em mim enclausurada
Recupero num fôlego aquele abraço recriado com muita elegância onde
Não existem mais distâncias, apenas e só a confidente circunstância desta
Ausência escapulindo consumada na reeleita esperança escorada com Tamanha exuberância
Frederico de Castro
292
Nos subúrbios do tempo

Encontrei algures espaçada entre as
Cortinas do tempo aquela brisa esvoaçante
Orlando o horizonte quase embriagado pela
Melodia comemorativa de um dia rompendo extravagante
Plantei cada palavra no jardim da poesia expectante
Onde se noivam as rimas dos meus versos mais semânticos
Onde se adoçam os lábios com beijos tão petulantes
Onde raia a aurora impregnada de superlativos abraços galantes
Sossego a noite que se deita em lençóis sedosos iluminando cada
Gomo de luz fascinante e escancarado, confortando todo aquele silêncio
Solene, subtil reentrando em cada sentido desvairado vadiando pelos subúrbios
De uma manhã carente, entulhada num dócil e religioso silêncio inebriante
Caminho agora sob toda a tenda da solidão inquieta pendurada nos
Cavaletes da minha saudade prostrada, obsoleta, depondo aos pés
De tão meigo sorriso uma rejubilante e enamorada carícia
Transformando cada desejo unívoco num verso mais embelezado e recíproco
Frederico de Castro
285
Performance do silêncio

A escuridão asfalta o caminho rompendo
Todas as solidões precárias despindo o
Manequim dos silêncios mais mercenários
Surpreendendo até um eco feliz...tão perdulário
Sou como o mar arrastando suas ondas e maresias até à
Longinquidade do mais ténue desejo oscilando a cada navegar
Dolente e astuto vestindo as marés irrequietas com um fantástico
Maremoto de oceânicas paixões tão ofegantes...quase insurretas
Bordei cada palavra que alinhavei na minha solidão
Descosi toda a saudade onde se remendam tantos malfadados
E fatais sonhos desalmando a dialéctica destes versos em reclusão
Pelos corredores da vida fiquei admirando aquele formoso
Gomo de luz andarilho, deixando um ósculo de prazer à pesarosa
Madrugada que se perfila flanqueada de solidões tão meticulosas
Frederico de Castro
330
Chuva de cristal

Desfaz-se a madrugada em prantos amaldiçoando
As trevas proverbiais alimentando a lamparina de
Cada lamento enferrujado marinando no convés
Da solidão tão peregrina
Cai uma chuva miudinha em gotas de cristal
Colorindo a noite debruando o epílogo dos nossos
Desejos mais perspicuos ao estampar a aurora com
Soberbos beijos tão insaciáveis...cada vez mais inadiáveis
Na superfície de todos os horizontes eclipsam-se
As solidões mais fugitivas ao compartilhar esta insurrecta
Palavra obsessiva alimentando todo o marketing destes
Versos prostrados num ensurdecedor silêncio ali cadastrados
Sob as palmeiras da minha terra acolho aquela sombra
Passageira saltitando acrobática pelos sonhos infestados
De alegria e perseverança até que a luz num ordeiro pestanejar
Se delongue tão íngea, tão sossegada...esgaratujando minha solidão a latejar
Frederico de Castro
511
Habeas corpus

Desprevenida chegou a noite
Acoitou-se entre as silvas do tempo
Denunciando a solidão que se prostra entre
As avenidas policiadas de tanta ilusão aliciada
Frutificam-se as madrugadas com perfumes
Acariciantes aquartelando nossos desejos intolerantes
Congénitos, vigiando o violável silêncio chegando beligerante
Após o soluçar hostil de um pranto sucumbindo tão vociferante
Pedi um habeas corpus à solidão ilegítima violando todos
Os prazeres sumários processados naquela reclusão literária
Onde cuidadosamente me embrenho de forma tão necessária
Foram sistemáticas as lembranças que orquestrei invadindo
Cada díspar momento perdido entre as pesquisas desta saudade
Embrionária, impondo uma prece excepcional e autoritária
Horas e horas caminham sem sentido deixando atónita esta
Impávida tristeza que ainda perdura, magoada, precária deslizando
Entre as sombras plúmeas de um inominado silêncio tão sedentário
Frederico de Castro
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