Isabel Pires

Isabel Pires

n. 1964 PT PT

Amar o abismo da descoberta. Sem cair.

n. 1964-01-30, Lisboa

Perfil
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Às vezes basta

às vezes basta
uma palavra
uma flor ou apenas uma pétala
um sorriso
o voo rasante das gaivotas
não sentir e não me importar
uma colher de arroz-doce, mas com a parte da canela
o cheiro a mar
uma pinta na folha
o frio da pedra e o quente de uma respiração
o fumegar do café
importar-me com o teu sentir
o lápis de cor amarelo, para pintar o sol
aqueles teus fios de música que fazem estremecer
uma impressão, mesmo que vaga, de felicidade
o ondulado da seda negra
a lembrança sempre presente de ti

para a vida prosseguir


Mark Power | Paris. Palais Garnier. Stage curtain. February 2004.


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Poemas

43

Palavras-brilho

pelo jogo das camadas, que caminha da mais superficial para a zona invisível e profunda, percebi o quanto é difícil escrever sobre o brilho, o lado brilhante, a luz. e neste tipo de exercício das camadas lembro-me sempre do belíssimo descascando a cebola de günter grass.
primeiro foi a forma das palavras. a definição do traço, o apuramento das linhas, o rigor do desenho.
depois, quando as palavras já não bastavam na sua forma e daquela forma, vieram as cores, os tais pigmentos escolhidos com devoção, na tentativa de lhes acrescentar vida. também para que as palavras soubessem falar da vida que interessa.
a descrição sobre os movimentos dos peixes no mar até melhorou, mas foi preciso ensaiar muitas mesclas com as aguarelas.
sobre o poema deitado na seda negra, um acidente a comover-me os dias, já não foi assim, que as nuances mais apuradas da pintura também não chegaram e não chegam para o descrever bem. porque é a quantidade de luz que faz a grande diferença. uma diferença tanto maior quanto mais interior e profunda for a camada.
era preciso estudar muito, até porque a luz não é uma onda como aquelas do movimento de mar e nem o microscópio e os tubos do laboratório serviam para a apanhar. talvez abordá-la sob outro prisma... com um prisma colocado em diversas posições.
dias de labuta com feixes de luz a escorrer entre os dedos, a escolher a amplitude mais adequada a cada sílaba de cada palavra, até sair um primeiro esboço do ensaio que contraria a cegueira... para evitar que fique tudo escuro por dentro, o medo que vem de criança...


Helmut Newton
295

Do silêncio

Até há pouco tempo eu desconhecia um tipo de silêncio que julgo ser menos comum. Não sei que nome lhe poderei dar, nem consigo descrevê-lo com exactidão. Será um silêncio que cura?
Exteriormente, o som ou a sua ausência, é muito semelhante àquele quebrar da chávena branca que ontem deixei cair nos ladrilhos da minha sala. Mas pelo interior, não existe a sensação de dor, de perda, como aconteceu em relação à porcelana.
Há cerca de duas semanas dei comigo a pensar no assunto e a sentir algo de bom dentro de mim, apesar do episódio que o desencadeou ter ocorrido há precisamente trezentos e sessenta e um dias.
Os minutos, poucos, entre capotar um carro e a chegada de socorro, recordo-os como sendo de uma grande felicidade. Depois das três voltas, de tanto ruído de equipamento a desintegrar-se pedaço a pedaço, sem espaço para me mover e involuntariamente a fazer o pino, senti que aquele silêncio funcionava como um ponto de ordem em mim. Uma sensação que consegui experimentar outras vezes, embora de modo menos impactante. Que eu tenha consciência não houve regozijo por constatar que fintei a morte - nunca se finta a morte; apenas ilusão - até porque eu não sabia se existiam sequelas graves. Diria que é uma espécie de bem-estar que se arrepia com o movimento em redor, que rejeita as vozes, que não quer abraços com braços, nem sorrisos, mesmo que ternos. Um intervalo que apenas suporta um olhar que não seja invasivo e aceite deitar-se no colo enrugado da alma.
Antes de me aparecer este novo personagem a desafiar os meus neurónios e a querer brincar com o meu coração, eu só navegava em mares com ondas vulgares de silêncio, numa dicotomia excessivamente primária entre o bom e o mau das horas caladas.
Dizia que o mau silêncio era sempre vazio. Quer fosse abafado pelo desprezo e pela indiferença, quer fosse acicatado pela violência.
Dizia que o bom silêncio era sempre cheio. Mesmo que preenchido de um nada. Mas um nada não corrosivo, apenas de descanso e contemplação. O silêncio bom também é feito do fogo do nosso olhar cúmplice, tem o desenho mudo das gargalhadas das crianças, sabe aos corpos suados das nossas tardes de amor, desfaz-se bem dos sons do trabalho e tem a dor dos que amamos.
O meu novo silêncio, aquele que recentemente tomei consciência de também sentir, apesar de me bafejar de aconchego, tem fios perturbadores. Uma perturbação aparentemente inócua. Aparentemente, é o que penso neste momento. Como se fosse uma película inquietante que se assemelha a um friso de barquinhos à vela, muito frescos e envolventes, mas sem definição de rumo.


Silence, 2015 | Cristiano Mascaro

441

Equilíbrio

Vou andando por aí. Ou vou andando por aqui. Como preferires: o aí, o aqui...
O que me interessa é dizer-te que essa frase - o vou andando por aí - é a que melhor expressa os meus dias, como algo que se intromete na tecedura das horas que vão escorrendo e engordando até se fazerem dias. Um claro / escuro que nesta zona do planeta não tem grandes diferenças de tempo em cada lado. Tento lembrar-me mais vezes desta circunstância equilibrada da luz que faz dias e noites e transferi-la para a bordadura de seda que está entre o coração e a alma. Sempre me pareceu que a minha alma está sentada próximo do coração. E a tua, por onde anda? Não a deixes cair, fixa o que te digo.
Vou andando por aí, às vezes pé ante pé que nem dás conta, a fazer misturas de luz que me permitam ver a estrada para andar, o mar para navegar, o céu para voar. Sempre com aquela cábula que entalei há um ano nos neurónios, para o caso de falhar o traçado.
Nem sempre corre bem. As pedras e os buracos dos caminhos, a fazer esfoladelas nos joelhos. Os músculos que não obedecem. As zangas das águas e as birras dos céus até largarem raios. Raios que não me partam, nem à película da quietude que estendo na praia e até deixo boiar como um colchão de penas salpicado de pétalas brancas. Exactamente como te disse com a caneta a pintar a folha, naquele dia em que te prometi sentir-te nas tuas coisas, só porque são tuas.
Vou andando por aí...


664

Poesia

A poesia não (me) serve apenas para dizer o que não consigo e não posso dizer de outra forma.

A poesia também me ajuda a suportar o mundo,
aquele a que chamam real e o que há dentro de mim,
que também é muito real para mim.


Josephine Cardin

685

Grande

Não são os espaços revestidos a emoções mais pronunciadas - a alegria e a tristeza - que mais me comovem.

A minha perturbação emotiva dá-se melhor naquele altar em que me deixas as palavras e te adivinho o olhar grande.

Zazielona

674

Trapézio

O caminho da aceitação tem um limite.
Nem sempre feliz no sentido de amplamente sorridente.
O limite pode ser o estado permanente de quase lágrimas, em que a habilidade é sustê-las.
Porque não se pode andar por aí a provocar inundações. A protecção civil tem mais que fazer.
Porque há que viver o friso de fora.
Quando se toca o limite, e isso entende-se muito bem no friso de dentro, o melhor é segurá-lo.

O mundo anda desvairado para além da guerra. A Matilde já o diz há muito, num poema lindíssimo, em "Fevereiro", mas que serve qualquer mês. "A poesia não salva o mundo. Mas salva o minuto.", ouviu-se na festa de Paraty.
Continuando.
O mundo tem teorias loucas sobre o que se deve sentir. Nem os malucos as percebem.
Uma é igualar a aceitação a fracasso.
Outra é criticar a dificuldade em integrar o que não se pode mudar, ou seja, o continuar na luta.

E tu, e eu... Com um sorriso inacabado, sabemos que após a invenção do chão perdido - não te lembras de dizer que andava à procura de dias com chão? -, sim, após a invenção do chão perdido, os dias passaram a coser-se com fios de ambos os lados. Com fios a formar uma corda oscilante entre os dois pólos. Lutar ou deixar correr com regras, o que não deixa de ser outra luta. Uma corda bamba a que é preciso adaptar os passos de dança. Sempre a conferir o limite entre o amargo e o doce da coreografia.

Há tempos, para caracterizar um estado emotivo, escrevi no caderno que era de quase lágrimas, a expressão que me ocorreu e que me deixou na dúvida se te transmitia tristeza.
Actualmente, que já pensei mais um bom pedaço no assunto, sei que esse quase lágrimas pode ser o limite da estabilidade possível de agarrar num poço de tristeza. Como se fora um lastro de felicidade.

397

A rapariga que gosta de livros

Com alguma frequência leio e oiço relatos de estratégias usadas para motivar para a leitura de livros, sobretudo princípios direccionados para os grupos etários mais jovens.
Mais do que pensar nas formas que melhor servirão para atingir o objectivo, mergulho deliciosamente no meu universo infantil.

Desde que aprendi a ler, subiu-me a vontade de comer palavras amarradas em livros. Uma vontade para a qual ainda hoje não tenho uma explicação, já que no ambiente familiar e no grupo de amigos não havia o hábito de ler com regularidade.
Apesar de não ter uma explicação, sei que houve uma circunstância que serviu para alimentar esse gosto e provavelmente teve uma expressão significativa ao nível da consolidação do meu hábito de leitura. Refiro-me às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que, à época, em muitas pequenas localidades do interior, como era a vila onde vivia, funcionavam como o único meio de acesso a livros.

Este serviço foi criado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1958, de acordo com sugestão de Branquinho da Fonseca, e almejava abranger todo o território nacional. Começou com quinze carrinhas cinzentas, da marca Citroën, e teve uma grande expansão logo no início. Por exemplo, em 1961 já havia quarenta e sete veículos a circular, com o serviço gratuito de empréstimo domiciliário de livros. Estas bibliotecas itinerantes funcionaram até 19 de Dezembro de 2002.

A carrinha ia duas vezes por mês à minha terra e ficava estacionada no largo principal cerca de duas horas. Nós, os miúdos inscritos, esperávamos com ansiedade pela nossa vez. Um cartão pequenino numa bolsinha de plástico era o nosso passaporte para o mundo dos livros.
A certa altura comecei a notar que o limite de livros estipulado para o empréstimo domiciliário era escasso para as minhas necessidades. Então, o conservador-bibliotecário - era assim que se designava o "dono" da nossa carrinha - disse-me que como era assídua e não estragava o material, deixava requisitar mais dois livros por quinzena e eu fiquei muito contente. Assim, tinha sempre livros para ler!

Também nessa época, o que pedia pelo Natal e aniversário era livros. Os da "Anita" deslumbravam-me e ficava furiosa quando teimavam em substitui-los por pijamas e meias.

E há um episódio engraçado com livros. Ou melhor: com um livro proibido.
Um dia, em casa, numa gaveta da cristaleira, descobri um livro branco com letras azuis e vermelhas, cuja conjugação resultava em "Método de Ogino-Knaus".
Bom, na minha cabeça de criança funcionou assim: se este livro está separado dos outros, num sítio invulgar e de raro acesso é porque tem alguma coisa de especial. "Será melhor lê-lo", pensei. Sim, nas tardes que passava sozinha dei conta dele. Claro que os meus oito anos, e numa época em que havia menos informação, não permitiram entender nada. Mas aquelas figuras com as trompas de Falópio ainda hoje são desenhos deslumbrantes que habitam a minha memória visual. É que nem sequer imaginava que tinha trompas na barriga! E isto soa-me - sim, soa-me - a muito giro porque a trompa é o instrumento de sopro cujo timbre mais se assemelha à voz humana.
Da primeira vez que o ginecologista me deu uma explicação muito pormenorizada, com o auxílio de uns rabiscos no bloco das receitas, ri-me. "Percebeu o que lhe disse?", perguntou. Disse-lhe que agora sim, que estava perfeito e que sentia as minhas trompas devidamente encaixadas!


Henri Cartier-Bresson

218

(escrito a pensar na arte de ser feliz, aquela que a Cecília escreveu)

... durante aqueles dias, todas as manhãs, na sala envidraçada que beijava o mar, serviram-me café antigo que sabia a lar.
havia os cestos de fruta, o pão macio e quente, e as compotas.
a textura das toalhas de linho nas madeiras desgastadas.
'tem ido à praia?', perguntou-me...


846

Tristeza

Há uma perturbação acrescida na tristeza que se apanha nos dias compridos e limpos. Uma distensão e claridade que se afiguram violentas pelo contraste com o negro baço que não se contenta com a alma e alastra aos olhos.

As noites a quererem fazer pendant com os dias, não deixam o corpo descansar e desafiam memórias.

Filamentos invasivos, a desinquietar sinapses.
O nocturno desnuda a pele e cospe na mentira. Até amanhã.
A solidão é um animal danado sempre pronto a abocanhar. Sempre te disse.
A caixinha dos sonhos... Não tenho força para a abrir.

A tristeza é mais estranha no Verão.
A tristeza detesta o Verão. Sobretudo se for Agosto.


Sadness | William Wetmore Story | Angel of Grief

691

Da sobrevivência

Há dias que
por cima do tecto têm
uma neblina suave e morna
que impede a fixação das angústias.

Esses dias
em que me julgam
a importar-me menos com o mundo
e a importar-me mais comigo
fazem falta.

Também se cresce na penumbra.
Mais, às vezes.


Victor Palla
662

Livros

1

Comentários (1)

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davinci

muito bom o seu poetar...