José_Carlos_de_Souza

José_Carlos_de_Souza

n. , Bahia

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(qualquer viagem)

quando olho pra você
o tempo para na retina

o sol insólito se perde
nos fiapos da neblina

o horizonte franze
e sutilmente se inclina

no hiato da vertigem
qualquer viagem alucina

não pede paz nem silêncio
é amor que desatina

sem cortina de fumaça
nosso céu se ilumina
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Poemas

7

(quermesse)

se eu soubesse
cantar cantaria
ou faria uma prece
se eu pudesse
dançar dançaria
mesmo quando
música não houvesse

a cada passo um caminho
para cada cabeça um sol

se você quisesse
o mundo lhe daria
com tudo que lhe apetece
viajaria no tempo
e com estrelas
nos olhos voltaria
aos dias de quermesse

se eu soubesse cantar cantaria
se você quisesse o mundo lhe daria
395

(Sol de Glauber))

faca de gume afiado
a dialética do caos
coloca lado a lado
os bons e os maus

rio perene, imaginário
nuvens de arribação
são pés cortando caminhos
é o sol castigando o sertão

terra seca, esturricada
abrindo-se em estrias
mostra-nos a saga macabra
de um povo em agonia

o céu ardente cria redemoinhos
mó inclemente nos reduzindo a pó

imagem triste e degradante
de uma região esquecida
onde, 'o sertão é quase nada
e não tem quase nada.'
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(o sol na cumeeira)

tocar os acordes
como quem toca as estrelas

com o sol na cumeeira
sentir o pulsar do momento

acordar as flores
por o jardim em movimento

para que o circular da vida
transporte as nossas cabeças
365

(psicotrópico)

plantar no mar
as estradas, abrir caminhos
sinalizar estrelas
perder o medo, ver moinhos

agora o tempo sobra
a tarde reparte silêncios
na sombra que sopra

a noite referenda o mito
mas cobra o preço do sacrifício
esses paraísos são meros artifícios
banais e fazem parte de um rito

rugir quando a lua surgir
ou esperar o que não é soul nem pranto
eis a cota do devaneio e do espanto
370

(Belatucadrus)

e vinha, aura mítica
na palidez da neblina

talvez sofresse
e ninguém soubesse
talvez amasse
ou louco estivesse

olhar sagrado metia medo
chama viva queimava entre os dedos

o hálito quente dilacerava os nervos
em tempos de guerra
a alma mística animava a carne
em delírios de paz

noite mascarada de estrelas
deuses em trajes mundanos
406

(noites sem fim)

nas noites sem amor
o tempo corre lento
a madrugada apavora
desperta lembranças
paixões de outrora

são noites sem fim
ardendo saudades
corações em motim
vertendo vontades
querendo dizer sim

em noites assim
a gente se perde
em duplos atalhos
criando ilusões
ou fazendo canções

agora, se você viesse
talvez eu chorasse
e quem não chora
quando em altas horas
reencontra o bem que perdeu

mais uma noite sem amor
e eu procuro descobrir
onde foi que errei
encontro só a certeza
de que nunca mais te verei
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(luz distante)

migrar para o espaço sonhado
derreter o olhar nas sombras
lavar o dia das noites impuras

o que diz a voz que dialoga com a incoerência?
o que fazer da vida quando a voz destoa da 'multidão'?

não tenho medo das horas paradas
sei que o tempo às vezes nos entorpece

...tateando o vazio
vejo uma luz distante
dizer o que o sol nos cala
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