Lista de Poemas

(na boca da noite)

na boca da noite
bailam as línguas
em beijos roubados
 
de peito aberto
e olhos fechados
sigo folheando a alma
 
colho segredos
com as pontas dos dedos
neste céu de seda suave
 
há algo por trás do acaso
leis que trocam os sinais
luzes abrindo os portais
 
para que o meu coração
conecte-se ao teu
e nossos sonhos sejam reais
303

(visão de um xamã)

quando os ventos incorporarem os sons das palavras proibidas
a esperança libertará a visão
quando do chão o futuro surgir em rastros seguros
será hora de sair do chão

quando os passos fingirem caminhos
será preciso abandonar a trilha e recolher o destino
quando a madrugada matizar o nascente
soará o alerta do tempo vencido. será preciso recuar para prosseguir

após o último suspiro - o recomeço - a revolução
após o último giro - o salto - a evolução

as águas se acalmarão no azul
o milagre da semente se fará fartura

o sol continuará sol
manada de luz a nos abrasar

sagrados segredos guardados na terra
e dentro de nós laços imantados de paz
361

(qualquer viagem)

quando olho pra você
o tempo para na retina

o sol insólito se perde
nos fiapos da neblina

o horizonte franze
e sutilmente se inclina

no hiato da vertigem
qualquer viagem alucina

não pede paz nem silêncio
é amor que desatina

sem cortina de fumaça
nosso céu se ilumina
313

(amanheço pássaro)

amanheço pássaro
com o canto preso na garganta

fiz-me bruxo amotinando sortilégios
dispenso elogios, busco amavios
tenho o tempo disperso da memória

carrego o mundo em minhas mãos
cortes e cicatrizes de guerras e motins

sou o começo e também sou o fim
nas vozes que alimentam o caminho

todos os passos sedimentam nossa existência
328

(Belatucadrus)

e vinha, aura mítica
na palidez da neblina

talvez sofresse
e ninguém soubesse
talvez amasse
ou louco estivesse

olhar sagrado metia medo
chama viva queimava entre os dedos

o hálito quente dilacerava os nervos
em tempos de guerra
a alma mística animava a carne
em delírios de paz

noite mascarada de estrelas
deuses em trajes mundanos
394

(psicotrópico)

plantar no mar
as estradas, abrir caminhos
sinalizar estrelas
perder o medo, ver moinhos

agora o tempo sobra
a tarde reparte silêncios
na sombra que sopra

a noite referenda o mito
mas cobra o preço do sacrifício
esses paraísos são meros artifícios
banais e fazem parte de um rito

rugir quando a lua surgir
ou esperar o que não é soul nem pranto
eis a cota do devaneio e do espanto
358

(o sol na cumeeira)

tocar os acordes
como quem toca as estrelas

com o sol na cumeeira
sentir o pulsar do momento

acordar as flores
por o jardim em movimento

para que o circular da vida
transporte as nossas cabeças
353

(Sol de Glauber))

faca de gume afiado
a dialética do caos
coloca lado a lado
os bons e os maus

rio perene, imaginário
nuvens de arribação
são pés cortando caminhos
é o sol castigando o sertão

terra seca, esturricada
abrindo-se em estrias
mostra-nos a saga macabra
de um povo em agonia

o céu ardente cria redemoinhos
mó inclemente nos reduzindo a pó

imagem triste e degradante
de uma região esquecida
onde, 'o sertão é quase nada
e não tem quase nada.'
356

(quermesse)

se eu soubesse
cantar cantaria
ou faria uma prece
se eu pudesse
dançar dançaria
mesmo quando
música não houvesse

a cada passo um caminho
para cada cabeça um sol

se você quisesse
o mundo lhe daria
com tudo que lhe apetece
viajaria no tempo
e com estrelas
nos olhos voltaria
aos dias de quermesse

se eu soubesse cantar cantaria
se você quisesse o mundo lhe daria
385

(retórica do caos)

querer
só é poder
na retórica do caos
520

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