José_Carlos_de_Souza

José_Carlos_de_Souza

n. , Bahia

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(visão de um xamã)

quando os ventos incorporarem os sons das palavras proibidas
a esperança libertará a visão
quando do chão o futuro surgir em rastros seguros
será hora de sair do chão

quando os passos fingirem caminhos
será preciso abandonar a trilha e recolher o destino
quando a madrugada matizar o nascente
soará o alerta do tempo vencido. será preciso recuar para prosseguir

após o último suspiro - o recomeço - a revolução
após o último giro - o salto - a evolução

as águas se acalmarão no azul
o milagre da semente se fará fartura

o sol continuará sol
manada de luz a nos abrasar

sagrados segredos guardados na terra
e dentro de nós laços imantados de paz
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Poemas

78

(Caligramas)

na liturgia do mar
uma lua líquida
deságua dos meus olhos.
sargarços fazendo-se de renda
lembra-me os sonhos de Li Po
onde os barcos carregam os rios.
desiludido louco perdido
soterro sonhos roubados
em caligramas etílicos.
é a poesia em sua plenitude
perdida no absurdo.
voar com os olhos
na ousadia do decote
é mordida sem dente.
pegou fogo no meu dicionário
queimando palavras recentes
e o velho latim ganhou forças
na trama perversa dos carbonários.
desiludido louco perdido
soterro sonhos roubados
em caligramas de luz.
409

(Quebranto)

quero sim quero não
maré cheia da indecisão
coloca o amor
num barco à deriva
em rota de colisão.

vindo do mar
rebuscado olhar
luz derretida em clarão
lua deserta
banha o meu
ser
e a minha solidão.
já não sei mais viver
já perdi a razão
quebranto de lua cheia
amarra minha alma ao sofrer
estraçalha o meu coração.
359

(Mapa da vida)

quem tem o mapa da vida
gravado na alma
não esquece os caminhos.
378

(Haikai)

livro fechado
palavras em silêncio
natureza morta.
347

(Quebra-cabeças ou Fausto redivivo)

da mente retorcida
desaninharam-se as serpentes.
tecido espiritual cercado de abutres. luxúria faustiana.

os deuses perderam a fé.
292

(Bicho urbano)

bicho urbano
sem nenhum traquejo
para contato humano
rato desbaratado
sem rota de fuga

trajado de fome
couraça sem nome
malogro sinistro
sem pose, sem posse
sem registro

bicho esquisito
vive morto-vivo
mais um na manada
sem voz, sem poder
sem amor... sem nada.
381

(Amor sem ter fim)

guitarras sonolentas
vinhos envelhecidos
vozes desafinadas
bardos enlouquecidos,
apocalipse de festim.

em meio ao temporal
sopra um vento arruaceiro
raios despencam do astral
num vaivém traiçoeiro
o mundo acaba no botequim,

entre farras e fossas
entre sambas e bossas
os nossos sonhos voam
nossos corações doam
amor sem ter fim.
292

(Alucinados girassóis)

dou um mergulho em seus olhos,
alucinados girassóis.

brisa ara a pele
em rastros de arrepio.

algo se perdeu na tarde.
algo mudou entre nós.
339

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