José_Carlos_de_Souza

José_Carlos_de_Souza

n. , Bahia

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(visão de um xamã)

quando os ventos incorporarem os sons das palavras proibidas
a esperança libertará a visão
quando do chão o futuro surgir em rastros seguros
será hora de sair do chão

quando os passos fingirem caminhos
será preciso abandonar a trilha e recolher o destino
quando a madrugada matizar o nascente
soará o alerta do tempo vencido. será preciso recuar para prosseguir

após o último suspiro - o recomeço - a revolução
após o último giro - o salto - a evolução

as águas se acalmarão no azul
o milagre da semente se fará fartura

o sol continuará sol
manada de luz a nos abrasar

sagrados segredos guardados na terra
e dentro de nós laços imantados de paz
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Poemas

78

(Noites em Bizâncio)

no jardim,
as flores se alheiam
enquanto o mar corre em outra direção.

a noite se acende em perfumes.
369

(Rosas de Atacama)

céu derramando luzes
no chão do deserto
cores
de outra dimensão
flores
de um jardim sem fim.

olhos empinando asas
voam com o condor
no silêncio da paisagem
a paz se faz no coração

rosas de Atacama
mística essência
efêmera florescência
deslumbrante visão.

flores
de um jardim sem fim
cores
de outra dimensão.
371

(Jardim encantado)

os olhos
quase quasares
refletem nas flores
um sorriso de criança.
o jardim
em sua magia
abraçará o orvalho
e como um pássaro
cantará tristezas
solfejará alegrias
marejando nossos olhos
mesmo que à revelia
contando nossos passos
num silêncio de poesia.
magnífico
como o luar
deslumbrante
como o por do sol
intrigante
como um koan.
339

(Tapete de sombras)

a vida é bordada
em tapetes de sombras.
olhar sem ver
é expressão dos ausentes.
taquigrafia absurda
escorre do tempo
gotejando esquecimento.
truque de perspectiva:
planto sempre
o amanhã
no agora.
amanhece
e já é passado,
o futuro
mora lá fora.
desejo de viver
que se move
em círculos.
fogo proverbial:
gosto da boca
em brasa
assando
palavras bêbadas,
incorpóreas
como os sonhos.
em espiral de ervas
os dedos
tangem os cabelos
enquanto o amor
acontece
no desalinho
dos lençóis.
349

(Desalento)

sou
um sol oculto
que afronta manhãs.
345

(Caravana)

na força do deserto
cultivo areia e espanto.

o vento força passagem
muda a geografia
coloca formas
onde nada havia.

sigo um brilho andarilho,
rastros de poeira e encantamento
espargindo raro perfume.

na boca
o ardor que antecede o beijo,
no corpo
lancinante desejo.

na força do deserto,
a caravana passa,
o tempo escoa... suavemente.
365

(Haikai)

livro fechado
palavras em silêncio
natureza morta.
364

(Te amo)

te amo
com a liberdade
dos deuses em festa.
sigo a retidão do olhar.
se há desvios
desfaço os laços
que enfeitam a paisagem.
minha boca
não se afoga em silêncios
mesmo quando tropeço
em teus beijos.
já não posso viver
sem o calor
dos teus braços.
te amo
e esse sentimento
me basta.
329

(Morgana das fadas)

tece a vida
com palavras mágicas,
fios da ressurreição.

mói sementes ao acaso,
na tarefa vã
de enfeitar as manhãs.

gestos largos
tempera os ventos e segue,
como raios na tempestade.

as brumas escondem o teu reino.
a lenda mantém o teu nome.
340

(Sonhos)

sonhos
:mãos calejadas
dedos mergulhados numa incógnita.
352

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