José_Carlos_de_Souza

José_Carlos_de_Souza

n. , Bahia

Perfil
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(qualquer viagem)

quando olho pra você
o tempo para na retina

o sol insólito se perde
nos fiapos da neblina

o horizonte franze
e sutilmente se inclina

no hiato da vertigem
qualquer viagem alucina

não pede paz nem silêncio
é amor que desatina

sem cortina de fumaça
nosso céu se ilumina
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Poemas

78

(Sonhos)

sonhos
:mãos calejadas
dedos mergulhados numa incógnita.
355

(Morgana das fadas)

tece a vida
com palavras mágicas,
fios da ressurreição.

mói sementes ao acaso,
na tarefa vã
de enfeitar as manhãs.

gestos largos
tempera os ventos e segue,
como raios na tempestade.

as brumas escondem o teu reino.
a lenda mantém o teu nome.
342

(Fina aparência)

nós somos
velhos rios assoreados
debilitados de águas.

o que é a nossa existência?
uma fina aparência
ou o que ninguém viu
ou o que não podemos deter.

o acaso não é destino
é o silêncio ganindo solidão
em línguas de lança e fogo
a dissolver verdades.

um dia ouviremos o sol.
272

(Coisas boas de lembrar)

caminhos me levam
onde o passado esconde
coisas boas de lembrar.
são memórias
guardadas em linho,
teias
estendidas no tempo,
ânforas
do mais puro vinho.
são velhas palavras
plantadas no ar
a trescalar
nobres perfumes,
são histórias de amor
contadas
na língua dos sonhos.
são caminhos...
que me levam à você.
363

(Te amo)

te amo
com a liberdade
dos deuses em festa.
sigo a retidão do olhar.
se há desvios
desfaço os laços
que enfeitam a paisagem.
minha boca
não se afoga em silêncios
mesmo quando tropeço
em teus beijos.
já não posso viver
sem o calor
dos teus braços.
te amo
e esse sentimento
me basta.
331

(Qorpo Santo)

alma de longas plumas
laqueada de mistérios
voz matraqueada
dos quero-queros

toda dose de exagero
na manhã mal amanhecida
quando o horizonte
ainda
neblina

em sinal convexo
sangra a palavra fugidia
estrela acesa no medo
362

(Caligramas)

na liturgia do mar
uma lua líquida
deságua dos meus olhos.
sargarços fazendo-se de renda
lembra-me os sonhos de Li Po
onde os barcos carregam os rios.
desiludido louco perdido
soterro sonhos roubados
em caligramas etílicos.
é a poesia em sua plenitude
perdida no absurdo.
voar com os olhos
na ousadia do decote
é mordida sem dente.
pegou fogo no meu dicionário
queimando palavras recentes
e o velho latim ganhou forças
na trama perversa dos carbonários.
desiludido louco perdido
soterro sonhos roubados
em caligramas de luz.
410

(Bicho urbano)

bicho urbano
sem nenhum traquejo
para contato humano
rato desbaratado
sem rota de fuga

trajado de fome
couraça sem nome
malogro sinistro
sem pose, sem posse
sem registro

bicho esquisito
vive morto-vivo
mais um na manada
sem voz, sem poder
sem amor... sem nada.
382

(Desalento)

sou
um sol oculto
que afronta manhãs.
345

(Quebranto)

quero sim quero não
maré cheia da indecisão
coloca o amor
num barco à deriva
em rota de colisão.

vindo do mar
rebuscado olhar
luz derretida em clarão
lua deserta
banha o meu
ser
e a minha solidão.
já não sei mais viver
já perdi a razão
quebranto de lua cheia
amarra minha alma ao sofrer
estraçalha o meu coração.
362

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