José_Carlos_de_Souza

José_Carlos_de_Souza

n. , Bahia

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(qualquer viagem)

quando olho pra você
o tempo para na retina

o sol insólito se perde
nos fiapos da neblina

o horizonte franze
e sutilmente se inclina

no hiato da vertigem
qualquer viagem alucina

não pede paz nem silêncio
é amor que desatina

sem cortina de fumaça
nosso céu se ilumina
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Poemas

78

(Sonhos de abril)

"Abril é o mais cruel dos meses"
-T.S. Eliot-

o céu se deslava
em cirros e overdose de nimbos.
em alguns momentos
com o sol entredentes
fazem-se nuvens de arribação.
meus dedos gotejam
rosas encarnadas.

chovem miniaturas
para que os anjos
desovem auroras.

(penas que uma manhã machuca/
tristes sonhos de abril.)


258

(Temporal)

fios ramados
imitam árvores sombrias
em postes
de esquecimento.
galhos carbonizados
assinalam a passagem da tempestade.

pedra vai,
rolando,
lavando-se
em águas turvas...
lodo
em ressaca de temporal.
304

(Anavilhanas)

espanto
erguendo
desafios
a hora rugindo
abrindo caminhos
os pés fugindo
a vida por um fio.

águas
refletindo
miragens
rio sem peias
sem margens
corre colhendo anseios
diluvianas imagens.

frisos feito frases
recortes em elos de ilhas
ventre verde
tortas trilhas
brilha ao sol
anavilhanas.
242

(Frisson)

há um quê
de encanto

nesse seu grito
de espanto
409

(Jardim encantado)

os olhos
quase quasares
refletem nas flores
um sorriso de criança.
o jardim
em sua magia
abraçará o orvalho
e como um pássaro
cantará tristezas
solfejará alegrias
marejando nossos olhos
mesmo que à revelia
contando nossos passos
num silêncio de poesia.
magnífico
como o luar
deslumbrante
como o por do sol
intrigante
como um koan.
339

(Ave sem par)

tardo, sombrio
sinuoso como um rio
voo desgarrado de ave sem par.
371

(Alucinados girassóis)

dou um mergulho em seus olhos,
alucinados girassóis.

brisa ara a pele
em rastros de arrepio.

algo se perdeu na tarde.
algo mudou entre nós.
339

(Haikai)

livro fechado
palavras em silêncio
natureza morta.
348

(Amor sem ter fim)

guitarras sonolentas
vinhos envelhecidos
vozes desafinadas
bardos enlouquecidos,
apocalipse de festim.

em meio ao temporal
sopra um vento arruaceiro
raios despencam do astral
num vaivém traiçoeiro
o mundo acaba no botequim,

entre farras e fossas
entre sambas e bossas
os nossos sonhos voam
nossos corações doam
amor sem ter fim.
293

(Caravana)

na força do deserto
cultivo areia e espanto.

o vento força passagem
muda a geografia
coloca formas
onde nada havia.

sigo um brilho andarilho,
rastros de poeira e encantamento
espargindo raro perfume.

na boca
o ardor que antecede o beijo,
no corpo
lancinante desejo.

na força do deserto,
a caravana passa,
o tempo escoa... suavemente.
368

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