Kátia Surreal

Kátia Surreal

escrevendo obscuridades da alma e do mundo.

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quem vai pelo bosque

busca-se 
quem se deixa 
vai-se pelas folhas
perde-se quando
é chegada a hora
a noite tem o tempo que quiser 
os dias são escuros
tudo que brilha
escapa-se por frestas
o bosque é perdição
devaneios por entre trilhas
mas sua intuição insiste
quem vai pelo bosque
busca-se
em estado triste
depara-se com uma fonte
o instante anuncia o retorno
o rio transborda 
a trilha é desfeita
tudo começa de novo
(kátia surreal: 22/9/2026)

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Poemas

42

todo mundo bem burnout

renato russo disse em sua canção
o mal do século é a solidão
e sigamos tal sina sozinhos
o que fazer neste fim de madrugada
se o que me resta é estar comigo
a tela do celular em mãos
trabalhei o dia inteiro
meu cinzeiro aqui já está cheio
o peito a mente o corpo
tudo é tão vazio
a síndrome é de burnout
sei lá não sei cá
bye bye mais uma night
algo em mim clama socorro
quiçá clique num jogo
ou caia na rede
não sou peixe
mas com seu tigrinho
é fácil de me capturar
tenho contas a pagar
e a proposta é indecorosa
valeu mais uma aposta
imagina nem tenho vícios
vou assassinar a própria existência
apenas existindo
estado permanente crítico
só me resta estar comigo
parece o fim
olha é só isso
(kátia surreal: 29/9/2026)


6

se

se eu ainda tiver voz que seja um grito que transforme
se eu puder ouvir que vibre toda a minha existência
ecoando-se na janela fechada dos que dormem 
sobre o travesseiro da egocentricidade
ou dos que estão entorpecidos na máquina de alienar corações
se eu tiver que sentir que seja da altura de um humano
cujo início da trilha ainda permanece dividido
com os arames farpados da desunião
se eu tiver que olhar
que mire sob a tríplice ótica
condoreira modernista contemporânea
do alto do baixo por entre entranhas
que seja um manifesto poeticamente
declamado em praça pública
com todos os nossos sentidos
na base sólida do amor
se eu ainda estiver viva
mas se já estiver morta
ou se estiver morta
ainda que viva
que esta poesia continue se tecendo
na infinitude de um sonho 
que morre e renasce 
na folha persistente de outubro
(kátia surreal: 29/9/2026)



10

a flor do capoeirista

certa vez
brotou um homem feito 
das pedras britadas da cidade
de costas ao chafariz  da praça 
em que se apressa o passo
mais do que descansa

era noite de cabos roubados
só um feixe do quarto minguante
atravessadas por nuvens trevosas

o sujeito quase dormia
quando avistou uma flor verdadeira
por detrás da falsa cachoeira
ela era vermelha
a centelha que à visão se iniciava
a guerra que dançava
capoeira

o homem sem recheio
desvitaminado
voltou-se pr'outro lado
e antes que as horas escuras findassem
e a sua fina existência
o rapaz lutou
como se lhe houvessem 
muitas pernas e agilidade

era um inimigo
desconhecido
embora tão irmão
na cor na trajetória
na condição

partiu então xangô
na vibração nagô
cuíca atabaque berimbau
agogô
ele agora estava sozinho outra vez
com sangue alheio entre os dedos
e um segredo
a flor ainda permanecia
vívida e vermelha
no centro da praça
onde logo mais teria gente
o indivíduo agora tinha uma escolha
e uma flor em suas mãos
que nunca deixa de sangrar
(kátia surreal: 29/9/2026)


6

no tempo da floresta

aprendi por muitos anos
e com orgulho
que sou professora
e quando miro um outdoor
através do vidro do automóvel
rápido capto o desvio
ou a construção criativa
para uma aula fora da caixinha

aprendi que preservar o meio ambiente
é garantir vida e saúde das futuras gentes
ser professora me ensinou e me ensina
assim como desensina
quando ignoro
que também não sou professora
e as horas fora de sala
é de um tempo de outrora
que o gigante venceslau pietro pietra
não me vence com seu ritmo industrial
em sua ganância capital

há outro saber que provém da vertigem
das ervas ardentes da mata fechada
os mitos secretos que ecoam
das orelhas da ancestralidade

aprendi com o anti-herói de nossa gente
que a preguiça não é só um estado bom
e sim um processo de transformação
só possível quando se entrega ao sono na rede
ócio criativo dos que dormem e sonham
e sobretudo sabem
que nenhum trabalho forçado ou duro
dignifica o homem que se ausenta
das raízes da alma de sua selva
(kátia surreal: 29/9/2026)


7

submundo de hécate

quem sabia da magia do velho quintal
meu submundo dos sete anos
em que uma árvore seca
inspirava-me a escrever sobre uma pedra

sob a autoridade da física
quem diria que a lua me seguisse
enquanto cantava e criava dança
evocando a deusa
cujo nome desconhecia
brincadeira espontânea de criança

eis que desde há tanto tempo
não tenho um quintal
senão dos sonhos no astral
outrossim não tenho mais mãe
mas a tocha de fogo
que a deusa me conduz

sou perséfone e sigo o destino 
por entre da vida e a morte a escuridão
à procura da chave do magnífico instante
reencontrar a mãe a deusa a nossa união
mundos tão pertos e tão distantes
a rota dos descaminhos
(kátia surreal: 27/9/2026)

9

pintos triturados

não se encaixam em um modelo produtivo
altamente especializado
apenas um mal necessário
pintinhos machos descartáveis
triturados vivos
para que desperdícios
não se encaixam em um modelo produtivo
lucrativo
repito em versos
na pior poesia já feita
apenas pela esperança que se ecoe 
ao mundo ao tempo
notícias industriais quase sempre são esquecidas
abafadas
mas eu tenho esperança
na imortalidade poética
replicada nas redes e na mente
de muitas épocas
(kátia surreal: 27/9/2026)

8

na força de circe

há uma força muito supimpa que nos habita
que toda mulher deveria evocar à vida
sabemos
quase sempre é difícil um real livramento
daquele que nos causou descontentamento
transformá-lo em porco
após um soco
ou humilhação
é um profundo desejo
que nem sempre parece estar em nossas mãos
ah como queria vê-lo mudo feito esponja-do-mar
e nunca mais nossos íntimos segredo revelar
há um crime pois que ninguém descobre
encontra-se no mais tenebroso porém nobre
despenhadeiro da mente
convergência da universal emanação
mulher tu podes
segue da morte o coração
mulher este é teu suporte
segue as bifurcações da divina árvore
qliphoth
(kátia surreal: 27/9/2026)

10

as orelhas de obá

queres ser mulher
para a te escutar
obá quis ser oxum
o resultado foi nenhum

queres ser mulher
para um pouco a te escutar
não cortes a orelha
para que xangô te queira

queres ser mulher
para então a te escutar
cuidado com a invejosa
tens a força da pororoca

querer ser mulher
para agora a te escutar
ouve a própria intuição
livra-te de emboscadas
tu és tão enigmática
com poder e sedução
(kátia surreal: 25/9/2026)


11

medusa

quando garota
vi-me no espelho
a própria medusa
cabelos em ondas
tive medo

cerrei a boca
os olhos a mente
tapei as orelhas
adormeci no mundo

eis que me desperto
orelhas e olhos abertos
a concepção necessária
para que tudo 
de minha boca saia

cuidado
o veneno de minha língua
é milenar
(kátia surreal: 25/9/2026)


10

esfinge

sete anos e um livro verde
capa e leitura duras
o cheiro contudo me fez lutar
para que fosse meu 
não doutros irmãos

como se fosse agora
vejo se abrindo o quintal
por meio do verde livro
um mágico portal
cuja entrada de musgos
conduzia-me a novos mundos

parte de mim era fera
guardiã dessa entrada
por onde ninguém passava
já a outra havia-me
a liberdade do voo
escolhi a firmeza do tesouro
minha posse ninguém punha o olho

havia uma cidade onde ninguém passava
havia um lindo homem que desejava alcançá-la
o segredo era o tal perfume
sobre o qual quem presume
que responda ao magnífico enigma

o que é o que é
vem perfumado do verde da natureza
e guardado caducifoliamente
com perfumes em palavras

eis que édipo respondeu
o livro
mas ele não me atirou no abismo
apenas deixou-o aberto
transitando pela cidade ao seu bel-prazer
o tempo fez o odor desaparecer
e o perfume do mágico jardim
findou-se para mim
permanece apenas na memória
numa procura sem fim.
(kátia surreal: 25/9/2026)

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Comentários (2)

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Se tiveres um tempinho me visite ... com tuas reflexões sobre meu pequenos e humildes textos. obrigado. ademir o poeta.

Olá ...amiga ... se assim posso dizer... li todos 08 textos e posso lhes dizer que são muitos concretos - realistas - parabéns - este é o meu modo de entende-los. ademir o poeta.