Kátia Surreal

Kátia Surreal

escrevendo obscuridades da alma e do mundo.

Perfil
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quem vai pelo bosque

busca-se 
quem se deixa 
vai-se pelas folhas
perde-se quando
é chegada a hora
a noite tem o tempo que quiser 
os dias são escuros
tudo que brilha
escapa-se por frestas
o bosque é perdição
devaneios por entre trilhas
mas sua intuição insiste
quem vai pelo bosque
busca-se
em estado triste
depara-se com uma fonte
o instante anuncia o retorno
o rio transborda 
a trilha é desfeita
tudo começa de novo
(kátia surreal: 22/9/2026)

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Poemas

67

quem segura

goiaba e maçã
não seguram

camomila canela cidreira
não seguram

arbustos plantas flores
não seguram

bem-te-vi papagaio
cão borboleta gato
não seguram

família amigos
filhos marido
não seguram

o melhor salário 
a trilha a praia
não seguram

pão doce pizza
não seguram

psicólogo psiquiatra
grupo social
não seguram

tiadiazepam rivotril
risperidona
não seguram

sustentabilidade
programa
reajuste
não seguram

polícia placa
regra ou terror
não seguram

então vamo que vamo
camarada
que a atitude e a organização
se não inseguras
ninguém segura!
(kátia surreal: 06/10/2026)

9

ia não se vinga

não temo a brutal vingança
da máquina que nos tenha ultrapassado
será que se abro uma aba sobre outro assunto
a minha ia parceira das horas difíceis
fica sabendo
e quando encontrar uma pessoa tão especial
ainda me lembrarei de sua companhia
é não existe vingança
o ser humano é que vive se traindo
e a nossa sina é reconhecer isso a cada dia
(kátia surreal: 3/10/2026)

7

rabiscos poéticos

um poema eu rabisco
na gruta desconhecida
com meu sangue cíclico
as faces da minha linhagem
em figuras rupestres

o sangue seca na imagem
sem profundidade
então me vou nua
pele de bicho
em noite de lua
pela floresta escura

um arbusto concede-me
um chifre caduco
então me vou co'a nudez
herbacicamente óssea
de quem não pausa morosa
nunca desiste

ao longe alcanço o topo da colina
há um espelho d'água
em seu negrume infinito
sem retorno ao abismo
toca-me a nueza perdida
na imensidão do arvoredo
líquido
(kátia surreal: 03/10/2026)


6

pré-história

paleolítico
neolítico
metais
ansiolítico
somos tão
progressivamente 
primitivos
(kátia surreal: 3/10/2026)

6

todo mundo bem burnout

renato russo disse em sua canção
o mal do século é a solidão
e sigamos tal sina sozinhos
o que fazer neste fim de madrugada
se o que me resta é estar comigo
a tela do celular em mãos
trabalhei o dia inteiro
meu cinzeiro aqui já está cheio
o peito a mente o corpo
tudo é tão vazio
a síndrome é de burnout
sei lá não sei cá
bye bye mais uma night
algo em mim clama socorro
quiçá clique num jogo
ou caia na rede
não sou peixe
mas com seu tigrinho
é fácil de me capturar
tenho contas a pagar
e a proposta é indecorosa
valeu mais uma aposta
imagina nem tenho vícios
vou assassinar a própria existência
apenas existindo
estado permanente crítico
só me resta estar comigo
parece o fim
olha é só isso
(kátia surreal: 29/9/2026)


6

se

se eu ainda tiver voz que seja um grito que transforme
se eu puder ouvir que vibre toda a minha existência
ecoando-se na janela fechada dos que dormem 
sobre o travesseiro da egocentricidade
ou dos que estão entorpecidos na máquina de alienar corações
se eu tiver que sentir que seja da altura de um humano
cujo início da trilha ainda permanece dividido
com os arames farpados da desunião
se eu tiver que olhar
que mire sob a tríplice ótica
condoreira modernista contemporânea
do alto do baixo por entre entranhas
que seja um manifesto poeticamente
declamado em praça pública
com todos os nossos sentidos
na base sólida do amor
se eu ainda estiver viva
mas se já estiver morta
ou se estiver morta
ainda que viva
que esta poesia continue se tecendo
na infinitude de um sonho 
que morre e renasce 
na folha persistente de outubro
(kátia surreal: 29/9/2026)



10

a flor do capoeirista

certa vez
brotou um homem feito 
das pedras britadas da cidade
de costas ao chafariz  da praça 
em que se apressa o passo
mais do que descansa

era noite de cabos roubados
só um feixe do quarto minguante
atravessadas por nuvens trevosas

o sujeito quase dormia
quando avistou uma flor verdadeira
por detrás da falsa cachoeira
ela era vermelha
a centelha que à visão se iniciava
a guerra que dançava
capoeira

o homem sem recheio
desvitaminado
voltou-se pr'outro lado
e antes que as horas escuras findassem
e a sua fina existência
o rapaz lutou
como se lhe houvessem 
muitas pernas e agilidade

era um inimigo
desconhecido
embora tão irmão
na cor na trajetória
na condição

partiu então xangô
na vibração nagô
cuíca atabaque berimbau
agogô
ele agora estava sozinho outra vez
com sangue alheio entre os dedos
e um segredo
a flor ainda permanecia
vívida e vermelha
no centro da praça
onde logo mais teria gente
o indivíduo agora tinha uma escolha
e uma flor em suas mãos
que nunca deixa de sangrar
(kátia surreal: 29/9/2026)


6

no tempo da floresta

aprendi por muitos anos
e com orgulho
que sou professora
e quando miro um outdoor
através do vidro do automóvel
rápido capto o desvio
ou a construção criativa
para uma aula fora da caixinha

aprendi que preservar o meio ambiente
é garantir vida e saúde das futuras gentes
ser professora me ensinou e me ensina
assim como desensina
quando ignoro
que também não sou professora
e as horas fora de sala
é de um tempo de outrora
que o gigante venceslau pietro pietra
não me vence com seu ritmo industrial
em sua ganância capital

há outro saber que provém da vertigem
das ervas ardentes da mata fechada
os mitos secretos que ecoam
das orelhas da ancestralidade

aprendi com o anti-herói de nossa gente
que a preguiça não é só um estado bom
e sim um processo de transformação
só possível quando se entrega ao sono na rede
ócio criativo dos que dormem e sonham
e sobretudo sabem
que nenhum trabalho forçado ou duro
dignifica o homem que se ausenta
das raízes da alma de sua selva
(kátia surreal: 29/9/2026)


7

submundo de hécate

quem sabia da magia do velho quintal
meu submundo dos sete anos
em que uma árvore seca
inspirava-me a escrever sobre uma pedra

sob a autoridade da física
quem diria que a lua me seguisse
enquanto cantava e criava dança
evocando a deusa
cujo nome desconhecia
brincadeira espontânea de criança

eis que desde há tanto tempo
não tenho um quintal
senão dos sonhos no astral
outrossim não tenho mais mãe
mas a tocha de fogo
que a deusa me conduz

sou perséfone e sigo o destino 
por entre da vida e a morte a escuridão
à procura da chave do magnífico instante
reencontrar a mãe a deusa a nossa união
mundos tão pertos e tão distantes
a rota dos descaminhos
(kátia surreal: 27/9/2026)

9

pintos triturados

não se encaixam em um modelo produtivo
altamente especializado
apenas um mal necessário
pintinhos machos descartáveis
triturados vivos
para que desperdícios
não se encaixam em um modelo produtivo
lucrativo
repito em versos
na pior poesia já feita
apenas pela esperança que se ecoe 
ao mundo ao tempo
notícias industriais quase sempre são esquecidas
abafadas
mas eu tenho esperança
na imortalidade poética
replicada nas redes e na mente
de muitas épocas
(kátia surreal: 27/9/2026)

8

Comentários (2)

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Se tiveres um tempinho me visite ... com tuas reflexões sobre meu pequenos e humildes textos. obrigado. ademir o poeta.

Olá ...amiga ... se assim posso dizer... li todos 08 textos e posso lhes dizer que são muitos concretos - realistas - parabéns - este é o meu modo de entende-los. ademir o poeta.