Poemas
95Deveras
O teu caos é verídico
Os teus olhos são limpos
Apareces do nada, me trazes sorrindo
Ah, guri
Teu andar desajeitado não engana
Tuas mãos frias enrugadas lhe entregam
Diz ser vermelho, azul, cor do incerto
Mas rapaz
Perceba a dislexia de meu pulmão
Chegando bem de manso
Te trazendo quase em vão.
Clarabóias
podia sentir o ar quente de suas ventas
entrelaçar
desgrenhar meu corpo amaldiçoado
pôs fogo em minhas flores
roubou-me pirulitos
deu-me balas nunca provadas
saciou-se de minha inocência
antes eu levava flores
antes eu não sabia da escuridão
antes eu era criança
antes não era prisão
agora tranco a porta
agora escondo a chave
desenterro minhas bonecas
mas elas já não brincam mais comigo.
Marasmo
Disserto sobre a vida
Mas nada sei do mar
Será só um barquinho
Ou um navio a naufragar?
E se a vida não for nada?
Ainda tem a ver com mar
Mar que nada, nada, nada
Mas nunca consegue chegar.
Nadar eu sei
Nado de trás, frente, peito, cachorrinho
Nado no teu peito, nado com carinho.
Nado no Nada.
Talvez não saiba nada da vida
Talvez não saiba nada do mar
Certeza que não sei nada de nada
Absoluta certeza de que não sei amar.
Um poema em duas mãos.
Um cigarro e meio amor (1x2)
Se o que dizem por aí for verídico, de que só amamos uma vez na vida. Fico completamente decepcionado comigo mesmo. Não por não ter amado ainda, mas por ter amado a pessoa errada.
Vejo a melodia que ecoa entre os bem amados, ar fugaz que transparece na atrocidade do vento. Oh céus, por que esses versos perdidos não chegam até mim? Será eu, um antônimo de nós? Primeira pessoa do singular.
Abstrato perante o mundo, ou mundo abstrato diante de mim? Vejo-me e não me enxergo. Talvez focando os olhos diante do espelho faça o borrão entrar em foco. Mas se o problema for o espelho?
O chão onde piso é tão torto, balança, leva e trás, caí. Eu continuo no mesmo lugar, tudo se move. Esse meu olhar perplexo diante da existência. Eu que vejo o mundo ou o mundo que me vê? O sentido existe pra quem se surda da realidade.
Como um pêndulo na ventania, no olho do furacão. Movo-me, sacudo-me, sem direção. Porém preso a algo invisível que me impede de chegar a lugares nunca explorados. Tento me soltar. Mas o que me prende, chama-se VIDA.
Um texto de duas mãos.
Desconhecido
Mutilado em minhas veias
No ócio do estrondoso mar
Certifico-me que insano seja
Fugaz as linhas que nos trazem
Correndo sem cessar
Abrindo novas alas
Espalhando imensidões
Sincronia essa que já não me sente
Eu, pleno vigor mundano
Perambulando em abstinência
Deixo-me em teu contra plano.
Pano de prato
Algo desastroso estava por trás das bordas sujas de batom rosa.
Me pergunto, que tipo de mulher usaria cor tão alegre num domingo chuvoso? Definitivamente
incompreensível. Talvez uma otimista sorridente passara pelos arredores. Mas não, não é possível.
Indignada me punha a pensar. O café esfriava, meu cabelo parecia estar mais bagunçado a cada hipótese. Me dei conta que ainda estava com a blusa do pijama.
Cheguei a pensar que talvez fosse inveja a minha indagação, pois aquela cor nunca estaria em meus lábios, o otimismo nunca viria a ser parte de mim, e eu nunca, nunca, nunca sairia de casa num domingo chuvoso.
Levantei e fui escovar os dentes.
O copo ainda guardava meus resquícios de felicidade.
Translúcida
Sem ideias compiladas
Como vou prosear?
Se minha rima não te afaga
Nada vale de amar
(Assinado: Ladrão de criatividade)
Vício de estar
O espanto, como se quisesse escalar o mundo a troca de um beijo, a vida, em troca de um só olhar de amor.
As risadas já presentes dominam a alma, a espera de lembranças desencadeadas de um possível abraço confortante.
Noite onde a lua perde seu rumo, onde a água ganha imensurável densidade, onde três passos mudam um rumo inteiro.
Incerto, certeza de um talvez.
O sopro gelado evaporando de um corpo em chamas, de uma mente limitada a lógicas.
Razão que se perde, frio que corrói.
Tudo é novo e tão velho, tudo é energia contida, amor reformulado para caber.
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?