Poemas
95Mundo-Mudo
Respeito o desacato
de quem cala na multidão
São olhos entorpecidos
dedicados a escuridão
Respeito o desacato
de quem ouve sem pensar
São palavras digeridas
de quem fala por falar
Respeito o desacato
do canto persuadido
São gestos ignorantes
na palavra sem sentido
Respeito o múrmuro alto
de quem ora como bispo
Indolências necessárias
nessa vida sem sentido.
lll
O viver é confundido
Gritos desesperantes
Ecoam como sorrisos
De tanto gritar
A voz cala
Sem sentidos
O que restam são monstros
No alarde dos ouvidos.
Cravos
Vejo meus passos expressos
No marasmo do tempo
O meu templo secreto
Teu respirar.
She says
Procurei pelos cômodos de casa
As meias mal lavadas
E olhos amortecidos de indolência
No desabrochar do tempo
Que hora parte
Hora cura
Onde foi que deixei as xícaras sujas
De tantos desafetos e ternuras
Lembradas no enaltecer da partida
Onde foi que deixei a vida
Que era minha
Que era tua.
Enamorar
Derme
Em minha morte quero moças despidas
Circulando em pavilhões definhados
Onde a cena é megera
E meus olhos obsoletos
Em meu leito
Desejo recordar a vida
Víbora de tamanhas fissuras
Prostituta rameira
Segregadora de meu último trago
Vil adeus não concedi
Me despeço com a alegre feição
Alforriado do cárcere comunitário
Foragido por minhas mãos
Miséria
Persevero no colo do mundo
A dor da solidão
De quem escreve para suprir
As falências da alma.
Alameda Italiana
Se eu lhe fizer um poema
Jures não desonrar
As linhas de meus versos turvos
São estrondosas ao teu tratar
De derradeira rima
Passo a flagelar tua pele
Que mesmo distante
Contemplo leve.
Quatro e um meio comprimido
Canso-me dos dias pobres
Sem nenhuma iguaria
Das taças vazias
Ocupando balcões empoeirados
De incontáveis partidas
Canso-me das horas iguais
Do pesar que aniquila
Do riso forçado
O presente, o passado
Engolidos com a saliva
Canso-me das cores
Variadas entre cinzas
Isentas de ardores
O vermelho deteriorado
Em bocas de mancebas
Canso-me das relações sórdidas
Dos inícios procrastinados a falhar
Das fissuras incessantes
Irrevogável, interminável
Valsa sem par.
Comentários (1)
É você que passa pela vida ou são as coisas da vida que passam por você ?