Golpe do Baú - Crônica
"Quando falo sobre os livros nessa coluna, penso nas pessoas que não gostam de saber o fim da história, mas por outro lado, penso em quem é como eu, que mesmo sabendo que o Titanic afundou, revi o filme dezenas de vezes...
Gostamos das surpresas, mas nos relacionamentos procuramos a estabilidade que a confiança estabelece, mesmo sabendo da existência da imprevisibilidade da vida.
Engana-se muito quem acha que é difícil de ser enganado. A prática de iludir e enganar o inimigo vem desde que o homem é homem. A camuflagem é um recurso de sobrevivência de muitos animais, não se restringindo às borboletas, camaleões ou à Lagartixa Satânica Cauda de Folha (que de satânica não tem nada). Pois é, o ser humano também se camufla, se por um lado todos sabem que há lobos em pele de cordeiro, por outro há os que acreditam em qualquer aparência, sem julgar se se trata ou não de uma camuflagem.
Até mesmo um Noviço desconfia das aparências.
A propósito, O Noviço, personagem e título do livro que quero sugerir para leitura, trata-se de uma peça teatral que inaugura a comédia no teatro brasileiro pelo ilustre autor Martins Pena.
Ambrósio e Rosa se..."
Leia a crônica completa em: http://folhavalle.com/golpe-do-bau/
Você guarda mágoa, ou é a mágoa que te guarda? (Crônica)
Estive revisitando o Livro de Mágoas da escritora portuguesa Florbela da Conceição Espanca.
Aí está uma pessoa que soube sofrer com elegância!
E ela sabia exatamente para quem escrevia; um seleto público de leitores sofredores, daqueles que encaram a dor de frente, olhos nos olhos, estando ou não com medo, esses não saberiam sorrir, guardando dentro de si, um gesto de covardia.
Florbela diz nos primeiros versos desse livro:
"Este livro é de mágoas.
Desgraçados que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados pode,
talvez, senti-lo... e compreendê-lo..."
Então você me perguntaria, e quem é que pensa em elegância na hora do desespero? Bem, não é na hora exata, é depois, é no momento da mágoa, na hora de remoer, nessa hora tem gente que mastiga a mágoa com a boca aberta, e fica ali ruminando, ruminando, mas há os que mastigam elegantemente, de boca fechada, e com o garfo deposita, calmamente, o caroço no prato.
E como falar de mágoas, dores e elegância sem se lembrar, também, dos poemas de Francisco Otaviano e Paulo Leminski? Quase impossível! Eles são dois, dos muitos escritores brasileiros que também souberam, cada um à sua maneira, sofrer com elegância. Dos seus caroços brotaram versos para os quais me faltam os adjetivos, pois transcendem as palavras, as dores, as mágoas... Atingem o âmago da alma, como este de Paulo Leminski:
"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisas que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra"
E este do Otaviano:
"Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu."
Os poemas falam por si. E por isso, fico até sem jeito de continuar escrevendo depois de transcrever versos dessa magnitude.
Mas preciso dizer que ao longo da vida, tenho percebido que as pessoas vêm perdendo a elegância do sofrimento, hoje as pessoas sofrem feio, como se feio fosse o sofrer, quando feio é se mostrar alegre, sem o ser...
Usando o jargão contemporâneo: 'para que tá feio!'
Deixe a mágoa guardar você, te proteger pela experiência de vida, mas não guarde mágoa, não a remoa.
Quanto mais se tenta sufocar a dor, mais tempo passamos remoendo, é preciso tratar a dor, resolver o problema, encarar a dor de frente, mas às vezes o problema só se resolve com a quietude do repouso, com o silêncio.
Nesse tempo de silêncio nós damos tempo para a alegria se nutrir, ganhar sustância e ressurgir com força, com vontade e com verdade.
Para isso é importante ir alimentando a mente com mais arte, com boa música, com bons livros, com mais poesia, esses são bons nutrientes para a mente, são os recursos que ela vai lançar mão na hora do aperto.
É preciso ter bons ingredientes estocados na mente para dar a volta por cima; mas se a pessoa vai lá e estrangula o sofrimento, não vive a 'quarentena' da dor, da mágoa, do luto, ela perde os frutos dos seus caroços, num esforço vão de impor uma alegria pálida.
E acabam estocando mágoa e sofrendo sem elegância.
Madalena Daltro Fonseca.
Coluna: Cultura & Literatura
Jornal: Folha Valle
http://folhavalle.com/voce-guarda-magoa-ou-e-magoa-que-te-guarda/
Chora a morte em vida (do livro: Poesia Chick Lit II)
Chora em vida a própria morte
Foi um desperdício da natureza
Um lixo a mais no lixão da tristeza
É um coração maltrapilho
Tosco e sem brilho.
Se árvore fosse
Seria lenha
Teria o colo do lenhador
Passaria no braço da cozinheira
Manteria aceso o fogo
Que aquece, ilumina, alimenta
Espantando a tristeza
Soltando fagulhas saltitantes, brilhantes... cintilantes...
Agora cintila a lágrima
Que apaga o fogo dos sonhos
Mas resistente como pedra
Continua desejando... vida, brilho, fogos e alegria!
Madalena Daltro Fonseca.
Ola, espero poder acompanha-la nos versos e, sendo sensível saberá ler nos escritos que a vida tem três tempos:- passado, presente e futuro. Até o próximo verso.
Muitas vezes fazemos coisas que realmente são impraticáveis, mas, quando assumimos fica bem mais fácil de acertar os passos. Poemas muito bem escritos...
Gostei muito dos seus poemas... E essa é minha sociedade!