Lista de Poemas

FACE DE UM SONHO...

Talvez eu seja a parte insignificante de um sonho,
uma vaga lembrança de alguém que me amou,
uma frase esquecida de um poema perdido em qualquer pergaminho,
uma vida que ficou no caminho...
Talvez eu seja uma passagem sem portas abertas,
uma janela sem horizonte, felicidade sem ponte,
um triste adeus.
Quem sabe um lamento, o sol, o vento
que sopra a brisa serena na noite,
que encerra o dia deixando-o no passado.
Talvez eu seja o único, o sádico, o sarcástico,
o pródigo, o médico, ou o clérigo.
Talvez eu seja o outro, o culto, o sábio, o gênio,
talvez eu seja ar, talvez eu seja augusto,
talvez eu seja inferno...
Talvez eu seja encanto, um canto, uma fábula,
ou quem sabe o espanto da face da gárgula,
talvez eu seja eu, ou um sonho vazio.

Marco A. Alvarenga
                                             
                                                          
178

QUASE NADA...

Temos pouco tempo, quase nada, quase um caso, quase um beijo, quase um abraço...
...Temos pouco tempo, um encontro às pressas, às avessas, às escuras, aos momentos... Temos quase um tempo...
Temos pouco tempo, de idade, de intimidade,
de toque, pouco tempo de pele na pele, de odor, de flor e amor...
Temos pouco tempo de sorrisos, de risos, gargalhadas, pouco tempo de sonhos, e mais nada...
Temos pouco tempo de sol, de mar, de amar, pouco tempo, pouquíssimo tempo, para mim, para ti, pouco tempo para nós...
Temos pouco tempo da noite, para o céu estrelado, para a lua de encantos, para o canto das vozes, para os gritos ferozes, que saem da alma...
Temos pouco tempo, para ouvir a canção preferida de versos perfeitos, talvez um segundo perdido no tempo...
                                                         
Marco A. Alvarenga                                       



                                                        
150

OS ASTROS NÃO TEM CULPA...

Sou o único culpado de tudo.
Alguém precisa se responsabilizar,
pelos danos, pelas perdas, pelos males,
pelas brigas e desentendimentos.
Alguém precisa assumir a culpa,
para que os verdadeiros culpados
se beneficiem, enquanto eu sou
poupado das verdades...
E o que é a verdade, quando tantos
não a enxergam, ou fingem não a
conhecer?
Sou o culpado da vida mal vivida,
das noites mal dormidas, da falta
de apetite, sou culpado da artrite,
da renite, da bronquite...
Sou o único culpado do mal tempo,
do vento que traz de volta as folhas
varridas, as folhas mortas, que morreram
na última tempestade...
Sou culpado das feridas e cicatrizes,
que ficaram como lembranças,
sou culpado do peso na balança,
da falta de esperança, dos dias perdidos.
Sou culpado do ontem que se apressou,
do hoje que não espera, do amanhã
atrasado...
Sou culpado do apreço, o qual me leva
a aceitar o próximo sem distinção,
sou culpado desse mundo cão, desse
eterno não, que a vida me dá de presente.
Sou o único culpado das vontades alheias,
da aranha em sua teia, culpado das mazelas do mundo, do bêbado, do vagabundo.
Sou culpado de mim mesmo, de não ter,
de não ser, e não poder...
Sou culpado da dor, da flor que ressecou,
do sol escaldante, do choro constante da
criança, da ira na vingança, sou culpado
de tudo, de não ser mudo e retrucar, de não ser cego e enxergar, de andar para trás.
Sou culpado de qualquer coisa...
De ver, ouvir, e gritar.

Marco A. Alvarenga
                                                           
138

VOU SER POETA...

Vou ali buscar uma rosa no jardim,
Ou quem sabe roubar algumas flores,
Para adornar minhas poesias em cores,
Fazer brilhar um novo arco-íris...

Vou ali pintar palavras, inventar rimas,
Fazer sorrir aquele que se faz triste,
Colorir a vida com obras primas,
Secar a lágrima que ainda insiste...

Vou ali, rabiscando paredes e muros,
Versejando poemas, decorando futuros,
Fazer o sol brilhar na tempestade...

Vou ali na companhia de Neruda,
Atrás da orelha um galho de arruda,
Vou ser poeta por toda eternidade...

Marco A. Alvarenga

                                           
165

MARCO POR MARCO...

Sou feito fera,
um tanto faminto
devorador da vida
sofrida, chorada,
sou cegueira crônica
aos olhos alheios,
sou esteio da humanidade...
De defeitos feios
qualidades lindas,
sem redundâncias,
sem arrogâncias,
aquariano perfeccionista,
ilusionista da ilusão...
A experiência inesperada,
o conhecimento tardio,
a coerência,
do eu também posso,
a malandragem
que incomoda,
fora de moda,
pão com manteiga...

Marco A. Alvarenga

                                                        
145

À POESIA...

Te escrevo, como descrevendo a vida,
às vezes amarga, ás vezes doce, mas sempre intensa...
Te escrevo com ânsia, como se fora o ar que respiro,
como a água que necessito...
Te escrevo, como se eu tocasse a flor, com a carícia
de um poeta e a suavidade da brisa...
Te escrevo, com a ira de um vulcão em erupção,
na intensidade do ódio, na fúria insana...
Te escrevo, no transcorrer do tempo, quando nasce
o dia e morre a noite...
Te escrevo à minha maneira, com a essência
da alma e o corpo inteiro...

Marco A. Alvarenga


                                         
152

QUASE UMA DOR...

Quando me pego revendo meus poemas,
me vejo com semblante já um tanto cansado,
os olhos marejados de saudades...
Viajo nos meus próprios pensamentos passados,
e sinto que o sonho ainda não acabou,
que o entardecer das palavras me pedem socorro,
e a poesia me consome...
Transporto-me, para reviver momentos,
aliviar meus pesos, acalmar minh‘alma.
A primavera se foi e com ela as flores,
ficou o pó sobre o banco da praça, sem graça,
em ruínas, também cansado de ouvir histórias...
Sobraram noites sem luares, restaram frases perdidas,
e uma porção de reticências...
Ficou o som do soneto, o poema bem feito,
e os versos de amor.
Quando me pego revendo meus poemas,
é quase uma dor...

Marco A. Alvarenga


                               
138

ENGANOS...

Existem formas e gestos, notoriedades, admirações, procuras, e uma porção de decepções...
Existem esquivas, esquinas, desvios, e uma avenida perigosa.
Existem caminhos, espinhos, pedras e topadas, mas também há quem estenda a mão...
Existem olhos, olhares, toques e uma mão atrevida.
Existem posses, poses, poeira e uma vaga sensação de poder...
Existem vícios, paixões, alucinações, e um número enorme de não!
Existem sorrisos, medos, vontades, e uma quantidade extrema de enganos...!

Marco A. Alvarenga

                                                            
155

PEDRAS EM PECADOS...

Até as pedras andam, depois dos ventos fortes,
depois da chuva fina...
Até as pedras dormem, depois de um certo tempo,
depois da madrugada...
Até as pedras morrem, depois de atiradas,
depois dos seus pecados...

Marco A. Alvarenga
                                               
132

INESQUECÍVEL...

Eu esqueço nomes, mas não esqueço gestos, esqueço palavras, mas recordo um bom livro.
Assim como um bom vinho é inesquecível ao paladar, tudo o que é bom é evidente recordar...

Marco A. Alvarenga

                                                     
139

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