Lista de Poemas

A FEIRA

Oiço os burburinhos de gente, na rua a passar

O estrondo duma porta que parece fechar

O barulho da feira misturando a música e as vozes

Sinto os cheiros e o trepidar da sardinha a assar


O corpo e o pensamento, induz-me a desanuviar

Calcorreio na calçada até à feira, que fica a um passo

Paro e pasmo para ver a criançada a delirar

E a gente animada, outra enjoada às voltas no ar


O pó espalha-se como uma nuvem, torvando as vistas

A pedrinha entra no sapato novo e começa a picar

Fico pressionando o pé no chão até ela se soltar


Com folgo ainda, percorro cada exposição de artistas

Cada mostra de saberes, e engenhos me vêm mostrar

Arte tendenciosa que leva sem querer no momento a comprar


22-06-2013 Maria Antonieta Matos

807

RUA ESQUECIDA

Rua inativa esquecida

Do vai vem da população

Antigamente cheia de vida

Dia e noite de animação


Das rodas das ”bailaradas”

Dos jogos da rapaziada

No meio de tanta algazarra

Dos risos e das fisgadas

Dos chorincos entre topadas

Dos belos contos de fadas

Eram muito… pequenos, nadas


Subiam às árvores a brincar

Caiam de lá e voltavam

O chorar era a chorincar

E q ando se cortavam

A agulha e a linha serviam

Em casa que os golpes se cosiam

E era ao ar que eles saravam


Sentados no portado ao serão

Vozes altas soavam no negro

Entoava um pregão

No escuro que arrepiava de medo

Levantavam-se sempre cedo

Musicando as cardas no chão


Chaminés sempre a fumar

Com a panela de barro ou ferro

A comida a perfumar

A curiosidade de quem passa

Apetite não faltava

Porque de tudo se gostava


O colchão mexido e remexido

Para um bom acordar

Sempre branco era o tecido

Do lençol de renda e bordado

Com a colcha de cadilhos

Esticada para nada ser notado


Nas ribeiras sempre cantar

Ao som da água a correr

Lavavam a roupa, punham a corar

E nos arbustos iam estender


À cabeça o alguidar

Num troço que o equilibrava

Caminhavam a conversar

E a dor se suportava

Eram as cruzes assim diziam

Dor pela posição curvada

Se estendiam e se torciam

No meio de muita risada


Iam à fonte carregando cântaros

À cabeça e ao quadril

Em qualquer dia do ano

Bebiam por um cocho ou barril


Num copeiro, havia um copo

Com um napperon bem tapado

Ao lado do poial dos cântaros

Cada um bebia e era lavado


O aguadeiro corria as ruas

Quem quer água fresquinha?

Trazia o copo numa mão

E na outra a cantarinha


Em casa se alumiavam

Com candeeiros a petróleo

Ao lusco-fusco as mulher bordavam

Faziam o enxoval de renda

Vestidos cheios de folhos

E as meias que calçavam


Faziam rodas a cantar

Paus e tampas a musicar

Os pais e os vizinhos

Sentados para os apreciar


24-08-2013 Maria Antonieta Matos

631

CICLO DO AZEITE

Ali vejo crescer

Uma árvore no solo

E quem a plantou?

Foi ti António


Tem a folha verde

Muito pequenina

Está a florescer

E não está sozinha


Quero entender

O seu crescimento

E por isso olho

A todo o momento


O vento e a chuva

Sacode a flor

E caem as lágrimas

Parecendo ter dor


Vejo já o fruto

Vestido de verde

A crescer ao sol

Não acho ter sede


De forma oval

Mudando de cor

É azeitona

De grande valor


Vejo a oliveira

Com copa sombria

Vestida de luto

Cheia de maresia


Lá vem o rancho

Cantando umas modas

Cheio de energia

A cortar as podas


Trazem a merenda

Para merendar

E batem uma sorna (sesta)

Para descansar

São pagos à jorna

E têm que se esforçar

Por quilos que apanham

Assim vão ganhar


Vejo o olival

E o Ti Gaspar

Com a vara na mão

Para varejar


Batendo nos ramos

Para o fruto cair

São azeitonas

Que estão a bulir


Vejo o ti Toscano

Debaixo da oliveira

A estender o pano

Com grande cegueira


Estão ali a cortar

O ramo já seco

E o luís a queimar

Bebendo um refresco


Subindo a escada

Esta a Henriqueta

Ripando os galhos

De azeitona preta


A escolher conserva

Está a Rita a fazer

E a pôr na tarefa

Para o ano se comer


Está muito sadia

Aquela azeitona

É para conserva

Diz a Maria Joana


Mudando a água

À azeitona verde

Depois de pisada

É muito apreciada

Com orégãos e sal

E folhas de louro

Tempero divinal

E o conduto é ouro


Caem a saltitar

Em tom musical

E para rabiscar

Vai o ti Florival


O pano está cheio

A jeito de ensacar

Tiram a folhagem

E está pronto a pesar


Direitinho ao lagar

Carregado de sacos

Lá vai o veículo

Cambaleando nos buracos


Segue-se a lavagem

E vai para moer

Já não tem folhagem

Dá para perceber


É triturada ainda

Para a transformação

E a prensa de seguida

Para fazer a extracção


Protegido do calor

É armazenado

Em grandes depósitos

Até ser engarrafado


Depois é rolhado

E vem a rotulagem

E espero que comprem

Com alguma margem


Assim se faz o azeite

Douradinho e a brilhar

Tempera bem a comida

Com muito bom paladar


É líquido e puro

E tem caminho duro

Mas é com confiança

Que se ganha no futuro


Um ano leva a colher

Uma só azeitona

E um segundo a comer

Tem conduta glutona


Maria Antonieta Matos 15/07/2011


640

LIVROS

Um livro também tem vida

Nasce e aprende a falar

Amigos ou não, convida

Sempre pronto ensinar


Tem longo ou curto percurso

Tudo depende da estimação

Da importância no seu uso

Ou de quem o tem na mão


No seu espaço vive discreto

À espera de ser consultado

Outras vezes sempre aberto

Educando por todo o lado


Livro de arte ou técnico

De ciência, ou matemática

Trágico ou então cómico

De leitura ou de gramática


De diversão ou de sonho

E também de fofoquice

Livro de conteúdo medonho

E até de malandrice


Compilando em cada dia

O que se observa no mundo

Fazer da escrita magia

Semear livros para estudo


Assim se aprendem saberes

Em cada um minuto

Uns contribuem a escrever

E a tirar proveito o astuto


18-11-2012 Maria Antonieta Matos


732

CICLO DO SAL

Águas salinas do mar

Bombeadas pelo vento

Que salpica a brisa no ar

Nas hélices do cata-vento


Correm por grandes canais

Com murmúrios musicais

Decantadores as abraçam

E as purificam demais


Cresce a salinidade

Em grau muito elevado

Deleitam-se em cristalizadores

Um processo adequado


Da elevada a temperatura

As águas vão evaporando

Deixam ficar os cristais

Colossais, iluminando


Formam-se lâminas de sal

De brancura irradiante

Extraídas por grandes máquinas

Numa labuta constante


Para eliminar impurezas

Existem grandes lavadores

Beneficia a beleza

E é referência nos sabores


No aterro em grandes “serrotes”

O sal fica depositado

Dali vai para a indústria

Para ser refinado


O esforço físico do homem

Necessários em cada processo

Que ao frio e ao calor

Caminham para o sucesso


Fornos de alta de temperatura

Sugam toda a humidade

O sal que tempera e cura

E quando é demais, dá secura


No caso do sal refinado

Que é moído e peneirado

O prato sai melhorado

Com o tempero desejado


O produto é seleccionado

E sujeito a uma análise

Depois é empacotado

E passa à próxima fase


O controlo é essencial

A embalagem e o peso

Este produto mineral

Deixa saudades ao obeso


Procede o enfardamento

Segue depois para o mercado

E espera pelo momento

De temperar o cozinhado


Não exagere no condimento

Pode levantar a tensão

E causar um enfartamento

Atenção ao coração!


Sal de grande variedade

Tempero da natureza

Sobressai a qualidade

Grosso ou em flor, que pureza!


O cheirinho a perfumar

O gosto a saborear

O sentido a navegar

O olho a está a mirar

O prato que vou pegar


Maria Antonieta Matos 12.08.2012


890

O LIVRO DE PAPEL

 Dedicado a Isabel Santos Moura

 pelo seu livro “O Anjo Gabriel, o Miguel e o livro de papel”


O homem por não ter tempo

Vive o tempo a complicar

Ocupando todo o seu tempo

Em tempo para inventar

Reduz-se a um cantinho

Com tudo ali à mão

Pela máquina sente carinho

Pelo homem ingratidão


Vive num mundo virtual

Nada se apalpa nem se vê

Como um mundo espiritual

Emociona-se, em tudo crê


No ano de dois mil e cem

Em que tudo é eletrónico

As pessoas não se conhecem

São máquinas amor platónico


O Miguel muito preguiçoso

Passava dias a jogar

Na escola ficava ansioso

Sem gosto para estudar


Só existe o computador

Onde se joga lê ou estuda

Mas o cientista inventor

Cria um pequeno, mais promissor

Para não carregar quem o usa

Toda a gente foi comprar

O e-book assim chamado

Onde livros se podiam guardar

Com o maior espaço pensado

E era fácil de transportar


No dia do aniversário

O Miguel recebeu de presente

Um e-book revolucionário

Que o fez pular de contente


Era o seu melhor amigo

Levava-o para todo o lado

Via histórias de encantar

Passava o dia ligado


Um dia com muita alegria

Ao ver uma grande aventura

O e-book não cedia

Miguel fica triste, numa amargura


O pai passou a explicar

Que o muito uso o enfraquecia

Que era preciso carregar

Para ter de novo energia


Mas uma vez não teve volta

Estava mesmo avariado

Teve mesmo que ir para loja

Para aí ser concertado


No seu quarto com tristeza

Em silêncio e sem querer comer

Na cama dava voltas de incerteza

Se o fim da história iria saber


Por tudo o que aconteceu

Um novo e-book pedia

Que fosse amigo e fosse seu

Que não carregasse a bateria


De repente um anjo aparece

O Anjo da guarda Gabriel

Que seu espirito amolece

Deixando a paz ao Miguel


Para satisfazer o seu desejo

O anjo sorri-lhe e não fala

E num remoinho de luz a voar

Vai cair numa grande sala


Era uma grande biblioteca

Que o Miguel desconhecia

Porque os livros da sua época

Não tinham tanta magia


Olhou todo o colorido

Tirou um livro, ansioso

Era aquele o preferido

Que abriu e folheou curioso


Era um livro de papel

Que não ia avariar

Estava à mão do Miguel

Apenas tinha que o estimar


Assim o Anjo Gabriel

Deu um livro de papel

Ao nosso amigo Miguel

Muito bem escrito pela Isabel


05-01-2013 Maria Antonieta Matos  

599

VENDAVAL

Num zunido inesperado

Batem portas e janelas

Um escuro no céu nublado

Faz parecer estar numa cela

Tudo começa a voar

Vento e chuva desvairados

Levam pessoas a cambalear

Em postes estão encostados

Um remoinho no ar

Muros caídos e estruturas

Gentes estão em amargura

Árvores e carros a nadar

As ruas estão inseguras

As casas a destelhar

Vejo um dia pavoroso

Pontes caídas, muita lama

Cheias que levam as camas

O trovão se ouve bombar

O relâmpago luminoso

Uma árvore está a rachar

E a faísca a incendeia

Nada está a restar


As sirenes alertam o perigo

Anda tudo em alvoroço

Porque merece este castigo

A gente que tem tão pouco?


São os menos protegidos

Os que mais pagam na vida

Num inferno sempre metidos

Lutando sem saldar a dívida


23-01-2013 Maria Antonieta Matos

647

O CIRCO

Itinerante

Com a forma circular

Todo o espectáculo é montado

Muita gente a trabalhar

Muita alegria para dar

E a seguir ser desmontado


Música pela rua da cidade

E um megafone entoando

Gente de qualquer idade

Pára…. fica delirando


No recinto até à bilheteira

Segue uma fila de gente

Uns querem lugares de primeira

Para ficarem bem à frente


Pouco a pouco ficam sentados

O bar do circo a funcionar

Vende algodão doce, pipocas, gelados

Enquanto o público está aguardar


O apresentador anuncia

O espectáculo vai começar

Há palhaços, acrobacia

Surpresas, para encantar


Num assombro hilariante

Cheio de cor e magia

Desfilam artistas a cada instante

É o circo é fantasia


No público muitos sorrisos

Muita gente a gargalhar

Com a música e improvisos

Dos palhaços a magicar


Na arena entoam palmas

Exaltação de muito agrado

Artistas dão sua “alma”

Num espectáculo humorado


Passam cavalinhos mestrados

O artista dando instrução

Fica o público embasbacado

Da sintonia e precisão


Trabalham o cérebro e os músculos

Andam com a mala às “costas”

Partilham a arte do mundo

Juntam culturas, gente bem-disposta


Se algum mal lhe acontece

Não o demonstram na pista

E o público a rir tudo esquece

Enchendo de ânimo o artista


07-02-2013 Maria Antonieta Matos

582

CICLO DA CORTIÇA

Sobreiro árvore formosa

Com a copa bem alargada

Folha verde, sinuosa

Resistência ilimitada

Semeado e plantado

Tem copa, muito frondosa

Existe grande montado

Sua sombra apetitosa


Com grande espontaneidade

Regenera os rebentos

Desperta a curiosidade

Ali se passam bons momentos


Sua folha é persistente

E a lande é o seu fruto

Vê-se tanto gado comendo

Este importante atributo


Seu crescimento é lento

E longa a sua existência

Passa por muito tormento

Mas tem grande resistência


A paisagem harmoniosa

Monumentos da natureza

De importância ecológica

São de estimada beleza


O tronco vai engrossando

O seu casco tem valor

E o homem vai inventando

Cada peça com amor


A cortiça é um produto

De qualidade comprovada

Saí do sombreiro em bruto

De utilidade variada


Os artistas vão inovando

Esta matéria preciosa

A indústria transformando

E a ciência meticulosa,


Este produto é extraído

Quando a árvore já é adulta

Duma forma manual

Com um machado, resulta


O golpe é linear

A precisão é de mestre

Para o casco despegar

Sem ferir a árvore, agreste


Este processo acontece

De nove em nove anos

A economia engrandece

Grande parte, alentejanos


Eleita para vedante

Conhecida em todo o mundo

Preciosa para as garrafas

Conservarem o conteúdo


Passeios, para o turista

Observar todo o montado

As aves, as flores e o gado

E mais tudo o que se avista


Maria Antonieta Matos 28-07-2012


599

CHUVA II

Chove com muita brandura

Na terra vai entranhar

As sementes com a frescura

Começam a germinar


Não vejo o sol a espreitar

Mas um cinzento no céu

Apetece-me saltitar

Nas poças, e andar ao laréu


18-10-2012 Maria Antonieta Matos

620

Comentários (2)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
namastibet

obrigado por me ler

Val
Val

Gostei , escreves bem :)

Maria Antonieta Rosado Mira Valentim de Matos - MARIA ANTONIETA MATOS, nasceu em 1949 em Terena, Concelho de Alandroal e reside em Évora, Alentejo, Portugal Aposentada da Função Pública
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão"  - Delírios de Outono" "Poesia na Escola"  Verso & Prosa 

https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra