Lista de Poemas

VAMOS BRINCAR COM AS LETRAS

Vamos brincar com as letras,
Soltar vogais pelo chão,
Fazer danças com consoantes
No compasso da imaginação.

O A abre asas no ar,
O E esconde-se a sorrir,
O I, imenso, põe-se de pé, valente,
O O ousado, começa a fugir 
O U, único, dá voltas no vento,
Sempre pronto a descobrir.

O B balança no ramo,
O C, cínico, faz de meia-lua,
O D, desenha e sonha em segredo,
O F, fugaz, voa na rua.
O G, dá gargalhadas
Com o H que continua.

Juntos criamos palavras,
Pontes feitas de sons,
Como se o mundo inteiro
Coubesse dentro de tons.

E no fim da brincadeira,
Com as letras todas na mão,
Fazemos versos e histórias
Vindas do nosso coração.

BRINCAR COM O ALFABETO

A andorinha azul voa no céu,
Brinca o burro junto ao carrossel.
Cães correm livres pelo campo,
Dançam folhas num outonal encanto.

É o eco que vibra na serra,
Fala o vento, murmura a terra.
Gatos vigiam da janela o luar,
Hienas riem num sonho a pairar.

Irrisório parece o tempo a passar,
Junto ao rio, vejo barcos a atracar.
Kms de sombra sob o sol,
Lágrimas brilham num velho farol.

Mares enunciam mistérios do sul,
Nuvens navegam num tom de azul.
Órbita vaga do olhar que se perde,
Pássaros cantam em liberdade verde.

Quimeras dançam no canto da mente,
Risos ecoam de gente contente.
Serpenteia o rio num ziguezague lento,
Tocas de vida escondem sentimento.

Um universo em vogais e consoantes,
Ventos varrem vales vibrantes.
Waffles, talvez, num lanche ideal,
Xailes voam num vento outonal.

Yogas no campo, paz a nascer,
Zelam os dias por nos fazer crescer.

Évora, 24-07-2025 - Maria Antonieta Matos

20

HÁ UM VAZIO QUE ME CHAMA

Há um vazio que me chama
nas dobras do fim da tarde,
Como brasa que não inflama,
Como flor que já não arde.

Os dias passam sem rosto,
Tão iguais, tão sem medida,
Carrego o tempo no bolso
como quem esquece a vida.

As palavras me escaparam,
Como pássaros de medo,
e os sonhos que ficaram
adormecem sem enredo.

Fico à margem de mim mesmo,
Como espelho em nevoeiro,
Procurando algum alento
num céu sempre derradeiro.

Mas ainda resta um fio,
Uma trémula esperança,
Que resiste, mesmo fria,
Como o fim de uma criança.

Évora, 25-07-2025 -  Maria Antonieta Matos

57

ESTOU TÃO TRISTE, DE TRISTEZA

Estou tão triste, de tristeza,
Que até a palavra duvida 
E no espelho da certeza,
A esperança sente-se perdida.

Estou tão triste, de tristeza,
Que até o vento me desdiz,
E o sol, por mais que acene,
Não alcança o que já fiz.

Tudo à volta me contamina,
A flor, que era cor, definha,
O riso alheio fere-me,
E a manhã já não caminha.

É como se a alma chorasse
Ao toque frio da paisagem,
E cada sombra que nasce
Soprasse a mesma mensagem.

Não sei se é mágoa ou ausência,
Ou o tempo que me encerra.
Só sei que um silêncio em mim
Grita, sem dar-me espera.

Maria Antonieta Matos, 25-07-2025

10

TEU CORPO ME ENCOSTA E TUDO SE REVELA

Teu corpo me encosta e tudo se revela,
No gesto simples, mora o infinito.
O mundo inteiro some na janela,
E o tempo cala, cúmplice e bendito.

Nos teus suspiros, nasce a minha calma,
Teus dedos sabem mais do que explicam.
Passeiam como preces pela alma,
E os medos, um por um, se justificam.

Não há segredo em nós, só confiança,
Um toque e já sabemos do que é feito:
Metade entrega, a outra é esperança.

E quando o teu silêncio beija o leito,
É como se dormíssemos criança,
Com o amor nos envolvendo, peito a peito.

Maria Antonieta Matos - 2025

8

TUA BOCA VEM LENTA, SEM DEMORA

Tua boca vem lenta, sem demora,
E acende em mim um lume sem medida.
Cada toque é desejo que devora,
Cada suspiro, um passo pra a caída.

Teus dedos traçam mapas na minha pele,
Sabem caminhos que eu nunca nomeei.
E o corpo, quando ao teu calor se apele,
É chama viva — e arde sem porquê.

Gemidos são poemas entre os dentes,
O mundo desfaz-se entre lençóis,
Num tempo onde só somos os ardentes.

E após o fim, são nossos corpos sós,
Unidos, exaustos, nus, incandescentes,
Num chão sagrado feito só de nós.

Maria Antonieta Matos - 2025

157

Que Fúria É Esta?

Que fúria é esta, que assola o mundo,
Onde luz o ódio, a injustiça, o imundo?
Mentira se veste de nobre verdade,
E a agressão desfila com naturalidade.

Os gritos não cessam, são hinos da dor,
As mãos, já cerradas, esquecem o amor.
Erguem-se muros, queimam-se pontes,
A esperança se oculta em distantes montes.

Os olhos se fecham à fome do outro,
O tempo apodrece num ciclo roto.
Deuses são mortos em nome da fé,
E a vida é vendida por migalha ou café.

Quem nos roubou a alma primeira?
Quem fez da criança um cão de trincheira?
O riso virou crime, a ternura, fraqueza,
E a paz, só palavra em velha aspereza.

Mas entre os escombros do coração,
Uma brisa murmura: ainda há mão.
Uma mão que cura, que ainda se estende,
Que toca o abismo e não se rende.

Que fúria é esta? É nossa, é nascida
do medo, da dor, da alma partida.
Mas se ainda resta um gesto, um olhar,
Há esperança do mundo recomeçar.

Maria Antonieta Matos - Junho de 2025

6

NO SILÊNCIO DAS CELAS

Nas celas frias, sem nome ou bandeira,
Na revolta da noite sua dor inteira.
Grades não prendem o que arde na mente,
Nem matam o sonho do insurgente.

Silêncio imposto por farda e por aço,
Mas dentro pulsa um mundo no compasso.
Lá fora, a história dorme ou se esquece;
Aqui, cada lágrima é o que acontece.

O grito abafado entre os muros cresce,
É ênfase que corta, é chama que aquece.
Nem tortura apaga o traço do ideal,
Nem medo apaga o que é visceral.

Escrevem em paredes com sangue e poeira
poemas de luta, justiça, bandeira.
Por cada ferida, um povo desperta,
Por cada calabouço, uma porta aberta.

Pois mesmo acorrentado, o peito é clarão,
A verdade não morre em nenhuma prisão.
Se a voz não ecoa no dia que amanhece,
O tempo gritará por quem não esquece.

23-06-2025  - Maria Antonieta Matos

87

CEGA DE NÃO ENXERGAR

Estou cega de não enxergar, as palavras,

De não estarem claras na minha mente,

De ficar parada sem as ver, como a água

a correr ligeira, no papel á minha frente.
 

Vejo o vazio onde a ideia desaba,

Um silêncio que aos poucos se expande,

A sombra espessa onde a frase se acaba,

E o verso perdido num mar abundante.
 

Ah, fosse o verso uma flor que floresce,

Uma faísca de luz que me alcança,

Que acende o caminho onde a musa me esquece,
 

E traz de volta o fervor da esperança.

Mas não no breu me vejo só e, sem abrigo,

Cega de mim e, das palavras comigo.
 

Maria Antonieta Matos

156

MÃE CONTA-ME UMA HISTÓRIA


Mãe conta-me uma história… para eu sonhar,

Que tenha bonecas… para eu vestir,

Que tenhas barquinhos… para navegar,

Que tenha carrinhos de brincar,

Que tenha um amor de encantar.

Canta-me baixinho… para eu dormir,

Para embalar a noite… para não sentir,

A insónia que insiste os meus olhos abrir.    

Ensina-me cada letra… para que possa aprender

Ensina-me a contar… para saber viver,

Dá-me esse sorriso que me faz prender,

Mostra-me como fazes… para eu entender,

Afaga meu rosto, senta-me no colo e deixa-me morrer.

213

O PRIMEIRO BEIJO

Envergonhada, e a voz se calava, 

Sem dizer o que sentia,

Mas minha ânsia, por tua boca chamava,

E quando me apertavas, fugia.

 

O corpo se arrepiou, descontrolado,

Ansioso por te beijar,

Os olhos suspiraram como uma cola,

Embriagados a pedir esmola,      

Na loucura de te desejar.

 

Estremeceu o corpo febril,

Os olhos choraram de alegria,

Tua boca me matou a sede,

Que já estava em agonia.

 

Renasceu uma alma nova,

E impaciente por querer mais, 

E a tua boca me saciava,

Com doçura, me desejavas, 

E agora os beijos são virais.

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Comentários (2)

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namastibet

obrigado por me ler

Val
Val

Gostei , escreves bem :)

Maria Antonieta Rosado Mira Valentim de Matos - MARIA ANTONIETA MATOS, nasceu em 1949 em Terena, Concelho de Alandroal e reside em Évora, Alentejo, Portugal Aposentada da Função Pública
Editou o livro “ Visita à Aldeia da Terra” através de Edições Poejo, baseado e inspirado na Aldeia de esculturas em barro e cimento, sita em Arraiolos, livro de quadras e fotografias personalizadas na atividade e profissões da aldeia, apoiada pela junta de freguesia de Arraiolos. Fez apresentação do livro em escolas e Bibliotecas Municipais para crianças do jardim-de-infância, escola básica e séniores. Colabora em vários grupos de poesia e blogs.
Editou o livro "OLHARES RITMADOS - Nada Sou... Mais Do Que Eu", em 2022
Participação em Coletâneas: “Poetizar Monsaraz - Vol I” “Poetizar Monsaraz Vol II” “Nós Poetas Editamos V” “Nós Poetas Editamos VI” “Sentir D’um Poeta” “Eternamente Poeta” “Poesia sem Gavetas Parte III” “Poemário 2015” “Conto de Poetas Parte III” “Amor Eterno” \"Poemário 2016\" \"Apenas Saudade\" \" Fusão de Sentires\" \"Poemário 2017\" \"Mais Mulher\" \"Perdidamente II\" - Autores Edição - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Sopro de Poesia\" - Autores Edição Orquídea Edições - Grupo Múltiplas Histórias \"Poesia a Cores\" - Pastelaria Studios Editora Grupo Múltiplas Histórias \"Dança das Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Poesia com Reticências (...) - Pastelaria Studios Editora \"Poemário 2018\" - Pastelaria Studios \"Cascata de Palavras\" - Pastelaria Studios Editora \"Perdidamente Vol. III\" - Poem' Art - Grupo Literário Amigos - " Delírios de Verão"  - Delírios de Outono" "Poesia na Escola"  Verso & Prosa 

https://tradestories.pt/maria-matos/livro/visita-aldeia-da-terra