Lista de Poemas

A ira sem compaixão


Segurei a caneta como se fosse amolá-la e o papel como se fosse uma pedra.  Pensei na pedra, sobre a pedra e com a pedra: rocha impenetrável que me ocupava mentalmente. Insisti em enfrentar  a rocha mais dura, só para treinar a minha resistência.  Como seria escrever na pedra quando nos acostumamos a escrever  em belos e variados papéis e, sobretudo, na tela? 
A escrita me possuiu. 
Pensei em suar sobre a palavra, em moldá-la com formas e grafias para somente depois acariciá-la. 
- Carinho a doar?
- Sim!
Pensava que, depois do esforço para demarcar um episódio  tão cruel, a 
brisa  soprada sobre o pó desnudaria as letras, os sons, os sentidos, a ideia.
Uma pulsão assim, violentamente amorosa, me possuia  e me empurrava a traduzir as dores, a ausência, o desamparo.  a guerra.
Bombardeios, crianças desnudas, sangue jorrando, a fome doendo, e na memória, não só na minha, na memória coletiva, assomariam o talmud, o torá, o hezbollah, o semitismo, o antissemitismo, o cristianismo  a biblia e  as explosões de ira. 
-Virá de onde tanta ira? 
Lembrei de Aquiles e da sua ira, de sua dor diante do cadáver de Patroclus, lembrei, também, da sua brutalidade incontrolável, sem esquecer da sua compaixão diante da dor do rei Príamo, que ansiava por dar um funeral digno ao seu filho Heitor. 
- E nós? Ainda temos compaixão?!
- Que mundo pensamos para nós e para os que virão?
Que os tiranos recolham-se e retirem a sua ira em armas sobre a Palestina para ceder lugar à vida e a paz. 

Fátima Rodrigues.
 Expedicionários. João Pessoa. Paraiba, Brasil.  10 de novembro
de 2023.
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Às divindades, oxalá!

Às divindades, oxalá! 

Divindades! 
Livrai-me de tudo que não sei lidar
Falo até mesmo do toque insistente da campainha
Quero me encontrar com o outro sem sobressaltos
Sem malquerências
Livrai-me de um outro que se torna familiar
mas quer obrigar-me a sair de mim
Livrai-me dos bons homens e das boas damas que desconhecem a empatia, mas potencializam a simpatia enganadora
Estranhas senhoras, estranhas em si e em mim
Estranhos senhores que nem desconfiam das dores de suas damas
Diz Sartre, são bons pais e mães, filantropos, mas racistas!
Livrai-nos  senhor de professores desamparados e desenganados de si
suas palavras podem contaminar a mente fértil dos jovens
Livrai-nos dos pastores que não sabem pastorear, coisa que exige conhecer a Aldeia, seu rebanho e sua história.
Divindades! Teceis laços diretos com os que creem 
Se há vontade divina para que a mediação?
Enlaça-me com a tua energia e proteção 
Me põe luz na minha escuridão
Me acolhe nos desertos
e na abundância mistificadora
Me acolhe! 

Fátima Rodrigues 

Expedicionários, João Pessoa, Paraiba, Brasil em 20 de maio de 2023.
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Semeaduras da vida

Amigo e amiga são raízes
e amparo em nossa vida
Chegam devagarinho 
ou apressados
e juntam as suas bagagens
às nossas utopias 
Viajam conosco por mares e lugares 
Semeiam em nós os seus sonhos
como os ventos nas longas madrugadas
Na dor não se ausentam nem especulam
Nos acolhem em doce escuta
e ressoam em nós melodias astutas
Seus afetos nos atravessam e acalmam como a brisa nas noites assombradas
Mas se a vida os encurralam
esperam que amenizemos  o fel dessa amargura
No território da bonança colhemos os seus favos de mel
como dádiva nas semeaduras.
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A Terceira Via



 


A Terceira Via “à direita” 

A Terceira Via sentada em berço esplêndido, combina submissão e alienação, sentada à direita de todas as situações;

A Terceira Via ignora as veias abertas e sangrentas do Brasil na pandemia;

A Terceira Via ignora até mesmo cenas que no carnaval promovem os cortes-reais, quando vidas negras são negligenciadas nas alturas de modernos edifícios, expressão e ápice do racismo estrutural;

A Terceira Via esconde de si as mulheres e nega-lhes a política, deixando ao seu encargo o sangue escorrendo por suas virilhas, enquanto o presidente veta a lei e vocifera: segurem suas veias, estômagos e ventres!

A Terceira Via ignora os inocentes ardendo em febre e fome, no inferno de suas vidas, enquanto esses famélicos esperam os céus dos evangélicos e concordam com os católicos negacionistas;

A Terceira Via desconhece as famílias unidas nos cruzamentos urbanos com suas placas encardidas, a nos lembrarem da crua miséria humana;

A Terceira Via é o leite e o pão de cada dia entregues em fartas cotas ao agro pop no Congresso Nacional, que se “à direita” em todas as estações e dias do ano;

A Terceira Via agrega bilionários arrumadinhos que sonham em habitar Marte, para não ouvir os ecos dos tiros das favelas, e às escondidas higienizam suas mãos sujas de sangue;

A Terceira Via tenta roubar a cena da luta dos trabalhadores contra a mentira, golpes de consciência desfechados por diferentes linguagens nas Ditaduras: ecos do Auto do Frade, o Frei Caneca, nos teatros das salas de aula, narrativas como Os Sertões sobre a destruição de Canudos casa a casa, e filmes como Mariguella, enredo de um militante executado em via urbana;

A Terceira Via esmaga - sob o jugo do capataz da vez no Congresso Nacional -, a memória da Guerra dos Bárbaros, enquanto avança em territórios indígenas com toda a sua boiada;

A Terceira Via oculta, com suas potentes mídias, as mãos solidárias das periferias posicionadas em defesa dos que tombaram em prol da Reforma Agrária, e de Mariele Franco, executada no Brasil, e em Paris homenageada;

A Terceira Via legítima a Necropolítica fascista de todos os dias, mantida pelas milícias-militantes-militares do Estado;

Sentados na precária invenção da Terceira Via os ricos dizem-se sem liberdade para respirar ar puro, e reclamam da opressão em seus carros blindados, helicópteros, heliportos, enquanto mantém-se assombrados com as hélices giratórias dos seus pesadelos em noites insones;

Estão os ricos acuados pelas imagens de famílias pobres e confinadas em sua horrível miséria, por idosos- fantasmas e suas famílias piedosas, todos a clamarem por justiça em depoimentos na CPI da Covid -19;

Os ricos do Brasil engasgados com a própria comida - que regurgita em suas estreitas gargantas, em seus estômagos azedos, nas suas bocas sedentas de moedas-, espectros harmonizados por cirurgias sem-fim, navegam em busca do desfiladeiro da Terceira Via, sua grande esperança de redenção, Via que os manterão no mesmo lugar, no conforto do seus bankers, ressecados e retesados pelos marca-passos dos dólares, e dos paraísos monetários, confinados e alimentados pelos grilhões insanos da miséria humana.

Será mesmo essa a nossa via?
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Travessias do ser

Atravessei ruas, becos e vielas
não via e nem era avistada
Senti as madrugadas geladas
e o silêncio a contornar-me
Um rio caudaloso se fez em mim
de margem à margem 
Se fez pleno
Sem barqueiro
Só um imenso e angustiante vazio
me invadia
e eu procurava o calor de um abraço
Encandeada
atravessei desertos e pântanos
e nem na multidão me encontrei
Sobram desertos 
nesse amalgama
que é a minha vida
Mas em meu ser
a graphia é generosa
E os mapas ?
Desnudam a terra 
conforme a vista alcança 
Não desnudam a mim
onde o aço e o vazio se alternam
numa valsa insana
Ser é incongruente, Sei!
e nem isso me faz temer
Na lua crescente me ergo incólume
A vida requer coragem.
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Te amo

As vezes eu quero dizer mas não consigo
E penso... as palavras são tantas!
Por que não expressam?
É que as sensações são múltiplas e me atravessam
Descrevê-las demanda sentidos que a grafia não dá conta
Fico oculta 
Caminhar é diferente 
O sentido se faz em cada músculo e no ar que respiro
Chorar me torna inteira
e o silêncio em mim promove encontros
Te amo são apenas duas palavras
Mas o amor se anuncia num turbilhão
Suores, secreções, sensações que atravessam corpos em êxtase 
Impossível dizer tudo
Melhor é sentir.
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Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente.
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