Lista de Poemas

Haicai



O olhar do rapaz
Acendeu o coração
E a carne pulsou!



279

Um dia na Pandemia no Brasil


Toma banho e veste-se
Pega o álcool em gel
Põe a máscara
Guarda na bolsa um envelope
Confere a lista de compras
Entra no carro
Faz o check-list
Como tirar a máscara ?
Como recolocá-la ?
Como higienizar as mãos ?
E se encontrar conhecidos?
Como manter-se distante ?
Como resolver tudo isso?
Liga o rádio
Escuta as notícias
Mais de mil mortes em 24h?
Caiu mais um ministro ?
Em busca polícia mata criança!
Acelera o carro em excesso
Dar-se conta e para
Vê ruas vazias
Empoeiradas
Portas fechadas
Cai uma chuva fininha
Sinais abertos
De quem é a vez?
Não se aproxime!
E ao chegar de volta?
O que fazer?
Segura o cão
Cão pega Covid ?
Consulta o google
Mais manchetes de mortes
Morreu Moraes Moreira
O Brasil chora
Suicidou-se Migliaccio
Lima Duarte revela
Morreu Aldir Blanc
Artistas se rebelam
Cadê a Regina?
Brasília a espera
E o silêncio impera
Retorna a si mesma
Se arrepia e chora
Se vê impotente
Chega ao ponto
Que sorte!
Poucos estão nas ruas
O medo é agora
Caminha apressada
Agiliza as compras
Retorna ao carro
Higieniza as sacolas
Pensa de novo na volta
Conhece o caminho
Desconhece o Covid
Se inquieta e se indaga
E se os amigos morrerem?
E se a filha não voltar?
E se mãe não aguentar?
E se o presidente não cair?
E se a gente desanimar?
E se a cidade não trabalhar?
E se o campo se rebelar?
E se o congresso não ceder?
E se o Enem acontecer?
E se a Marielle ressuscitar?
E se o PT se reinventar?
E se a "tubaína" matar ?
E se a cloroquina resolver?
E se o povo acreditar?
Ainda a indagar
(....)
Começa a retornar!
O sol está a brilhar!
257

Fronteiras do Ser


Olhei-me inteira
como se fizesse um inventário da vida
Estava plena
Nada me impedia
As marcas são sinais de um percurso
Por que acioná-las agora?
Melhor é deixá-las com o sentido que têm
Do tempo que se foi
Acúmulo apenas
Aprendizados há em demasia
Dores sangradas e cicatrizes curadas
Atos de fé
Ternuras somadas às noites infindas
Caminhadas por trilhas e estradas largas
Sorvo essas lembranças fixadas em meu corpo
Olho, vejo, miro
Reparo
Volto no tempo devagarinho
Conto estrelas
Da janela vejo o Cruzeiro do Sul
Constelação de minha infância
Sempre presente em mim
Porque apagar essas marcas grisalhas
que tantas memórias me trazem?
As tintas já não conseguem ocultar
a imagem que assoma ao espelho
Estou plena
A luz resplandesce e ilumina o meu rosto
Há uma juventude passada
Outra se apresenta
a me cobrar coragem
O ser pede licença, agora Sou.
324

Afagos à natureza


O dia foi de jardinagem
Por um longo tempo eu e as plantas nos olhamos e trocamos carinho
Depois mirei outras espécies

Lembro dos bem-te-vis e dos sabiás
expostos aos raios de sol
Uns cantaram
outros banharam-se de luz

Beija-flores, borboletas e formigas
fizeram seus afagos e faina no ambiente
Ao sabor do tempo ficaram as lagartixas
Abelhas instalaram-se na trepadeira

De carinho impregnadas
as plantas regozijaram-se
Algumas perderam galhos e folhas
Respiraram aliviadas

De alegria, folhas e flores
transbordaram em cores
Lindas rosas desabrocharam
Outras ficaram prenhes

Os mandacarus pareciam descontentes
Fiquei curiosa
Desejariam os sertões?
O seu habitat ?

Amo a aspereza dos cactos
e insisto em tê-los comigo
É por amor que os conservo em meu jardim
Mas eles exigem condição !

Os mandacarus são mágicos
Guardam em si água e flor
Resistem às intempéries e ao sol escaldante
E somente florescem uma vez ao ano

Por um longo tempo hibernam
Tento imitá-los
e com a sua sabedoria aprendo
Nem tudo são asperezas na vida

Se um dia é pesado
o outro é pura leveza
Sorvo as lições dos mandacarus
mas também das xananas

Os dias pesados se vão sem amargura
Guardo a leveza dos dias bons
numa espécie de ensilagem
Assim a vida prossegue

Inspirada ora no mandacaru
ora na xanana
Exposta ora ao sol ora ao vento
absorvo lições da vida e da natureza

Como ocorre com o mandacaru
nunca me faltam flores
Elas se acomodam
nas minhas entranhas até a maturação

Após a hibernação nascem plenas
E fortalecidos andam mundo afora
enquanto o ser prepara-se
para novas concepções
Em 22 de novembro de 2014.
334

Mares de mim




Singro os mares de mim
além de ti
Nesse andar sôfrego
Ao infinito
Sigo

Nada obtive em vão

Às madrugadas me recolho
aos meus intintos
Deixo que a tua alma me invada
Abruptamente renovada
sigo

Me fascinas !

Quando me envolves
atravesso incólume
a brisa gélida do Mar Egeu
Cindida hesito
Entre sussuros e silêncios
sigo

Se posso voar para que navegar ?
Fátima Rodrigues
447

Amor em letra morta

Disfarças a dor de ti mesma
E agarrada a esse átimo
A essa fresta 
A essa chama última 
Te mantens ali
quase sem ar
Sem sonhar
Sem ousar
Sem criar
Sem tu mesma
E  havendo tantas
coisas a dizer
ss palavras ficam borbulhando
na boca amarga
O olhar sedento
o corpo sólido e insano
servido frio
no aço uniforme 
que compõe as peças do banquete 
Em meio as sobras 
da farta ceia
em que fostes parte 
sucumbes para ficar
Empurras a memória ladeira abaixoa
armário a dentro
em letra morta
Ficas no sepulcro 
dos teus achados no Tinder
que pensas guardados só em ti
Ledo engano!
O mundo te olha por ti mesma
sem  te vê
Hoje foi assim
amanhã será de novo
até que exercites o teu ser.

Expedicionarios, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Em 20 de abril de 2023

76

Correntezas da alma


Oh, correnteza livre!
corres junto ao mar e paralelo à costa
veloz e em desalinho
sem nenhum tempo a cumprir 

Tua voz rima com a luz e o vento 

Rompes fronteiras 
Teces caminhos 
Acolhes em ti as ondas dos rios
e dos mares 

Vozes em ti silenciam 

Em teu ventre prenhe
ondas se acomodam
e vagam da costa ao fundo das águas
das margens às profundezas 

Protegei-me dos teus repentes 

O teu resvalar sorrateiro
em mim torna-se um caos 
É lá onde o meu eu faz-se poesia
e onde prenuncia-se a minha alma 

Não me acorrentes 

Da fluidez líquida 
onde flutuas livre
brota a minha verdade
pura como um diamante 

Sou como és 

correnteza em desalinho
tempestade em copo d'água
tsunami passageiro
Sou brisa que paira além

sou como és.


Expedicionários, João Pessoa, Paraíba , Brasil em 09 de março de 2022

78

Guerras globais

As guerras do Norte
transpõem as fronteiras
e as armas da morte
perenes campeiam

Em rotas efêmeras
e por acordos vis
adentram em eras
que nunca se viu 

O sangue transborda
nas redes e nos corpos
Às vidas cansadas
impõe-se o fim 

Memórias  narradas
em acordos horrendos
desfilam empávidas
no gozo do gozo  

Em guerra e sem paz
tem-se apreensão
O acordo se impôe
com incorporação 

Violações e sangrias
em territórios armados
Mulheres açuladas
Corpos devassados 

'- A guerra é de quem?
-  É contra quem?
-  Por quê o combate? 
Todes em escuta! (A resposta não vem).
Fátima Rodrigues, expedicionarios, João Pessoa, Paraíba  Brasil em 15 de abril de 2022.
70

Não saber é heroico


Uma parte de mim fica em silêncio 
como se vivesse além do tempo.
Outra parte de mim canta canções e  desafina sem contenções.
E quando me indagam o por quê  das coisas, se não sei significar, não disfarço, não saber é heroico! Embora não se admita!
O sabor da descoberta vem no silêncio, naturalmente, e se revela por uma fresta iluminada que me pertence, e que nem de longe foi  explorada.
Essa parte de mim que é matéria de línguas e linguagens  tem dobras que desconheço, isso é fato.
E nada mais me dá certeza, pois habito um chão escorregadio, construçao herdada, e que edifico em memória da minha mãe e do meu pai, que conformaram o meu gosto, e plantaram em mim suor, e sangue 
Alegrias e tristezas 
Decepções e ventura
Fé e amor
Tudo junto perfazem esse meu caminho
cujo limite é o horizonte. 
Fátima Rodrigues

Expedicionários,  João Pessoa, Paraiba, Brasil  30 de junho de 2023 .

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Não saber é heroico


Uma parte de mim fica em silêncio 
como se vivesse além do tempo.
Outra parte de mim canta canções e  desafina sem contenções.
E quando me indagam o por quê  das coisas, se não sei significar, não disfarço, não saber é heroico! Embora não se admita!
O sabor da descoberta vem no silêncio, naturalmente, e se revela por uma fresta iluminada que me pertence, e que nem de longe foi  explorada.
Essa parte de mim que é matéria de línguas e linguagens  tem dobras que desconheço, isso é fato.
E nada mais me dá certeza, pois habito um chão escorregadio, construçao herdada, e que edifico em memória da minha mãe e do meu pai, que conformaram o meu gosto, e plantaram em mim suor, e sangue 
Alegrias e tristezas 
Decepções e ventura
Fé e amor
Tudo junto perfazem esse meu caminho
cujo limite é o horizonte. 
Fátima Rodrigues

Expedicionários,  João Pessoa, Paraiba, Brasil  30 de junho de 2023 .

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Sou um ser humano em constante construção. Me sinto parte da natureza e a ela vinculada no sentido material e imaterial. Gosto de lidar com as palavras construindo e desconstruindo castelos. Portanto, escrevo como um exercício de compreensão de mim e do mundo. Além de escrever e ler gosto de cinema, de música e de praticar jardinagem. Sou mãe e essa é uma experiência de vida que me fascina e desafia permanentemente.
https://www.facebook.com/faatimarodrigues
faatimarodrigues@yahoo.com.br