Michel Gomes

Michel Gomes

n. 1973 BR BR

Casal chinês ou sino-cantante Pela margem marrom; Um casal chinês Em verbos bronzeados e mornos Declaram seu amor. Azul–marinho À ouvir declarações ocultas Em orelhas cintilantes. A decadência musical Das línguas cantantes Repletos de ideogramas, Disfarçam, Ao depararem com vultos estáticos; Logo em seguida Prosseguem em deleite confuso Em braços em forma de anzol. Cone amoroso, Trapézio apaixonado É o que parecem Quando De olhos oblíquos, Tateiam o zênite. Capricho imaginário De ervas ofuscantes e douradas , Que balançam Ao som da flauta zéfira. Pés calçados De forma medonha Escorrem feito rio fervido. Há casal sino-cantante Como és supremo Em ver o firmamento passado em dores de parto !

n. 1973-06-18, São Paulo

Perfil
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Fantasmas encarnados

As pessoas existem mesmo quando há muito tempo não se veem?

Será que podemos considerar as lembranças como pessoas?

Fotografias descongeladas e cujo passado é o presente;

Bailam como figurantes nos terrenos pulsantes.

As pessoas são meras lembranças entorpecidas e fantasiadas pelas nossas sinapses.

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Biografia
Minha biografia é tão simples...
Fui diagnosticado pela crença popular como retardado mental, demorei muito à aprender a ler e vivia olhando para meu próprio mundinho; lá não tinha ninguém que zombasse das minhas deficiências.
Assim que aprendi a ler, me deleitava com livros de poesias, alguns considerados malditos... Ainda hoje continuo no meu mundinho, não encontrei ninguém que fale minha língua. 

Poemas

29

Agora?

Se as coisas que sentimos acabam,
O que fazer com as semanas e os seus dias
Que nos apontam e nos acusam de ainda termos sentimentos? 
226

Encostas

Cai
sobre o ombro
as encostas do mundo.
322

Sem formigueiro


Há uma formiga à andar longe do
caminho traçado,

À observar as trilhas perpétuas ,formadas

E seus irmãos correndo, fugindo
sempre das estações.

A rainha deu ordem de proibir-lhe a
entrada

E planeja com suas asas que o futuro
vire concreto borbulhante,

E que a rebeldia beije o desespero e
a inanição.

O poder não admite que nuvens
brancas: pairem e desenhem,

E todos os dias os olhinhos óctuplos são redesenhados e conformados

Em ver tempestades colossais.

Formiga sem formigueiro quem sabe nem
és formiga!

E das suas alturas enxerga...

... Que os excrementos possuem belos órgãos
sexuais que trancam os ferrolhos

Da percepção.


275

Caneta


Ah !

Que desejo de escrever algo que
ilumine

Tal qual luz laranja e trapezista.

Ah!

Que desejo de ver crianças voadoras

Lacrimejarem de tanto rirem.

Ah!

Que desejo latente de ser feliz e não
entender coisa alguma.

Há!

Cavalos que nascem em gramas verdes

Que são torturadas por fungos
infernais.

Há!

Potros confusos

Pois, seus pais marrons dormem sonhos
negros,

Enquanto, espumas brancas oriundas da
boca e orifícios nasais das éguas gélidas,

São amaciadas e tomadas como leite.

Ah!

Que um dia possa borrar em preto ou
azul

Fazendo a vontade do complexo bolso
que me encerra.

360

Ninhada ou que acontece na luz

Nasceram e as
boquinhas abertas

Não se sabe se por
fome ou desespero.

(seus olhos foram
abertos por um santo sem saliva).

Pelos castanhos,
brancos e barrigas ao chão.

Seres de antenas e muitas pernas observam os felpudos
encantadores.

A senhora Cascuda
lança provérbios eloquentes e cheio de pesadelos refrigerados:

" NASCEMOS E
MORREREMOS ESCRAVOS. "

"VERÃO MAIS BOCA QUE
COMIDA E EM ALGUNS QUINTAIS MAIS COMIDA QUE BOCAS."

" A IMENSA ALEGRIA É
SERMOS ESCRAVOE E LIBERTOS:

"SEMPRE PODEMOS
ESCOLHER A QUE ""AMO"" SERVIR."

" JÓ MORREU SACIADOS
DE DIAS".

E o som de quatro
pernas emudeceu esperando o colostro .

337

Celebremos

Céu indiferente continua recolhendo

Para depois jogar poeiras astrais,

Criaturinhas esplêndidas morrem

E não renascem e, os que ficam fingem

Que ele está em algum braço
benevolente.

Fartamos-nos desde ontem das datas eloquentes;

Chega de presentes!

Reclamação de fome com carcaças
fincadas nos dentes!

Diversão sem emoção!

Abraços e dias sem afeto!
364

À Hrabskova




Mulher em rios caudalosos

De pensamentos

À olhar o seu chá enferrujado,

Morno, vivo e domesticado.

Ah ! e quando pensas criança

Em alguém; já notou

Que as margaridas que nasceram e
foram despejadas

Nas paredes ficam imóveis,

Como se estivessem ausentes...

Aguardando o seu semblante ressuscitá-las?

(pois o que existe não necessariamente
está vivo)


Olhando pela janela

Com sua chávena pintada em cores de Vicente Van Gogh

Por mãos chinesas.


As formigas caminham por tua janela
aquecida,

Enquanto muitos caminham

Em lábios aprisionados pelo frio

Em quietude absoluta.


Hrabskova em oração silenciosa

Grita em pulmões incandescentes,

Ao ponto que seus olhos verdes
contemplam o que muitos já perderam.


345

VG

Verbo cambaleante tentando apalpar
as luzes adormecidas,
frias e acrofóbicas.

Sintaxe desconexa
toma licor
em um canto desencarnado;
toda beleza esvaiu-se.

Barba ruiva entre blocos pesados,
olhos aparentes
a verem a translucidez,
enquanto o barro vermelho geme de amor pelo céu descortinado.
374

Ninho

Ninho

Amarelo em retorcidos gemidos,
Empoleirados
No marrom enferrujado.
Tocadas de leve pelas folhas
Verdes endiabradas.
Paz ensolarada,
Quieta.
Indiferente é a quietude assombrosa
Que rodeia a consciência das manadas.
Aí, amor!
Foste parido em duras penas
E para sobreviver,
Consome a seiva
Que sustenta o consolo.
Noite que anda sem pressa
Deixe sua saliva nos sustentar,
Enquanto estamos desatinados
Em nossos paraísos artificiais.
394

A morte é amarela

Enquanto sorvia em goles teu enébrio,
ecos infantis em bambolês em movimentos mornos,
apalpavam teus tímpanos;

Os pés pequenos enegrecidos
a levantar poeira,
círculo imperfeitos...
... olhos-castanhos-fantasmas
a fitarem o futuro de ontem...
352

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