Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Não há túneis, não há luzes, nem saídas! Tudo é maia, tudo é falso, é só ilusão. Coisas passam, como sempre passarão, intocáveis, persistentes, descabidas.
Entretanto, quando ponho os pés no chão, como é duro! – E como custam as subidas que não levam às alturas pretendidas, sempre ocultam os percalços que virão.
Mas na vida é tão comum que venha um choque, tão intenso, tão profundo e tão cruel, que nos roube da apatia e nos desloque,
nos desperte da dormência e de seu fel. Age assim, nossa existência e, toque a toque, vai tirando, da ilusão, o espesso véu.
Nilza Azzi
406
A chuva e o poema
Chove na madrugada e o sono foi embora, enquanto a voz do céu escorre pela calha e a água derretida, um som mais claro espalha e um galo canta ao longe e diz que está na hora...
Que o dia já começa e a chuva que atrapalha as lidas da manhã, já está mais fraca agora; o sol pode varar as nuvens campo afora e o povo que desperta, esperto se agasalha.
Depois da chuva o ar ecoa ainda mais limpo! Ruídos de motor mais outros sons garimpo, enquanto recomeça a chuva mais pesada
e bate no telhado e escorre em enxurrada. Se, sob o cobertor, meu corpo é um peso morto, o verso que escrevi é apenas mais um porto.
Nilza Azzi
423
Sonho
"It kills me that when you pull up FB that it asks you what's on your mind." (E. H.)
Ela habitava os sonhos de um poeta envolta em seda, o branco do vestido emoldurava o corpo bem brunido e vinha a ele andando em linha reta.
Juntos buscaram, longe do alarido, na rua calma, a forma predileta de conseguir, do amor, cumprir a meta e levitar, num mundo evanescido.
E fosse o sonho escolha de quem dorme, e não o mundo onírico, disforme, ele a teria nua eternamente,
nos braços seus, no amor que, embora ardente, fosse assim branco, a nuvem solta e leve, não a ilusão que a vida nos prescreve.
Nilza Azzi
656
Tristeza III
Ela passou por mim na rua estreita; tinha um chapéu caído sobre o rosto. O céu turbou-se em nuvens indisposto... Acreditei fosse ela a minha eleita!
Distraída, afastou-se e um tal desgosto tomou conta de mim, fez-me desfeita, e sem dar trégua, sempre à minha espreita, largou-me a alma assim, como um sol posto.
O tempo, que a mantém longe de mim, é o mesmo a me fazer sentir meu fim, porque sem ela sou qualquer ninguém...
A tristeza que eu tive, e não me tem, escorreu-me das mãos qual fosse areia e fez da rua estreita, a estrada alheia.
Nilza Azzi
758
Adeus tristeza
É nas horas tristíssimas da tarde, quando o dia demora em se acabar e a luz do sol desperta outro lugar, que essa dor faz o seu maior alarde...
Era assim, fosse dentro do meu lar ou na rua, onde a luz, embora tarde, reverbera, incendeia, abrasa e arde, em fantasmagoria singular...
Mas um dia aprendi de alguém querido, que esse fim pode ter outro sentido, em que a dor sói doer mais passageira:
— Que lição é viver de outra maneira! — Atrás do fim, caminha um novo início interminavelmente vitalício.
Nilza Azzi
1 183
Um dia
Escreverás poemas sobre mim, quando passar por ti qualquer lembrança, presente de um amor, quiçá, que avança desde os começos, sempre rumo ao fim...
Acordarás feliz a cada dia a perseguir o tempo – ele não para. Evocarás a flor que te foi cara e a ânsia de viver – que consumia.
Quando cair o sol, junto ao poente, e aquela angústia súplice da tarde mostrar-te, nas entranhas, quanto arde,
fingindo ser-te um fato indiferente, com as imagens soltas das quimeras, sonharás esse amor que não quiseras.
Nilza Azzi
438
Busca
A palavra que procuro e vive a fugir de mim é feita do som mais puro; tem perfumes de jardim.
Cintila, às vezes, no escuro das noites longas, sem fim, mas se apaga quando juro que não és nada pra mim.
Nilza Azzi
867
Ia a Lua
Ia a lua, num passeio com seus raios, ria solta e leve além da noite azul; altaneira pelo céu, nos seus ensaios, enviava doce luz... No extremo sul,
já dormia o velho sol, além de outeiros... Se na veste branca usava uma estrelinha, ao reinar, a soberana dos celeiros, era o sonho do poeta, que detinha.
Se as estrelas lhe serviam de transporte, do cetim azul das vestes, belas fadas escolhiam, entre as luzes, quais dispor.
E, no céu, a coalizão tornava forte, na unidade das matérias coaguladas, a existência deste mundo multicor...
Nilza Azzi
1 026
Tristeza II
Alegre-se, Tristeza! Não reclame. Não é que um mar de fatos é confuso? Decerto cada terra tem seu uso, e às vezes ele pode ser infame.
Há falsos ideais! Fuja do abuso. Quem sabe pode haver algum liame e a vida de outro modo se amalgame, e o riso surja, mesmo que difuso...
Verdade é que, Tristeza, chega o dia que a casa vai ficando mais vazia, porque ninguém se importa e as coisas tristes
afastam o melhor que a vida traz... Abafe a sua dor, não chore mais; descubra o picaresco e faça chistes!
Nilza Azzi
620
Campos e florestas
É tanto verde, e tão junto, num espaço até pequeno, que ficamos sem assunto, na verdura do terreno.