Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quanto mais, quanto menos te vejo, mais percebo a doçura que falta no meu dia, na noite, no ensejo, desse olhar cuja ausência ressalta.
Quanto enlevo, nos ais dos cortejos, e outros mais nas conquistas em alta. Quanto amor eu não cri benfazejo e, por menos, larguei sobre a pauta.
A medida dos passos que avanço, se esta rua dirige-se ao caos, não permite chegar ao seu fim.
Sem a trégua de um mero descanso, sem um ponto de fuga, entre os vaus, há tristezas que vivem em mim...
Nilza Azzi
193
lembranças
quando me apaixonei o mundo apagou-se ao meu redor e só ganhava cores quando estavas por perto
quando me apaixonei as palavras perderam o sentido e a única língua importante era a que falavas
em sonhos te envolvi cada cuidado, cada escolha tudo que fazia era pela vontade de ser bela aos teus olhos
em desejos me abismei em descobrir mistérios me envolvi ao querer mergulhar nos teus olhos negros memoráveis
as horas só valiam partilhadas o sentido e a razão eram-me nada e tua camisa azul entreaberta me fazia sonhar com teus mamilos
os sonhos só me valiam por tua voz quando falavas era o canto enternecido e as ideias semelhantes sobre a vida era tudo que importava
quando me apaixonei tua presença ao meu lado era dádiva eras o homem mais completo que eu jamais conhecera
quando me apaixonei seria capaz de desfazer-me de mim mesma para que o mundo fosse a liberdade que entendias
...e soube o que era a dor a certeza da duração impossível as feridas que trazíamos em nossas almas tristes
nilza azzi
34
gato-poesia
meu gato-poesia espia e mia em cima do muro inseguro, lambe as patas espreme os olhinhos amarelos...
se teme o inimigo ancestral bem ou mal, enfrenta o perigo e junto ao perdigueiro vai brincar
nilza azzi
178
Nebulosa
O amado surge e o horizonte brilha em cintilações de luz, em cor e festa. E o cheiro do capim dessas manhãs rescende ao bom odor da terra bruta. Por onde andei, em solitária estrada, longe de ti, ó força de minh'alma? Somente atrás da pequenina chama do amor que vislumbrava prado além; em busca da estrelinha sobre o monte, nas tardes de perdida escuridão... Não sei! Nem sei de como estás diante de mim, atrás das névoas de ilusões tão fortes. Diz, meu amor, da essência dessas flores, do encantamento dos jardins celestes; e dessas vinhas de cachos maduros das fontes virgens cujas águas cantam outras canções, das quais não falaremos...
Nilza Azzi
195
Velas ao vento
Na linha do vento, prossigo sem lei, singrando esses mares, tão verdes, além... Acima esse teto de céu azul rei, meus rumos tomei, não me curvo a ninguém.
Se o vento se acalma ou se estaca de vez, eu paro e contemplo a existência ao redor, mas quando ele sopra, bem doce e cortês, eu sou vela inflada e navego melhor.
No mar da poesia, as palavras eu pesco e, ao tempo do vento, seguimos velozes, nos damos as mãos, em completa união.
Os meus sentimentos aos verbos eu mesclo, exponho minh'alma e juntamos as vozes — veleiros ao vento, os meus versos se vão...
Nilza Azzi
205
domínio
deixo meus dedos passearem pelo teclado com a mesma impaciência com que desenhava a lápis sobre o papel palavras nascidas da memória antiga e dessa intimidade sem fronteiras retiro dos sentidos que me restam os sons velozes das vogais e as esperanças surdas das consoantes procuro as sensações inusitadas de quando se combinam as verdades em vocábulos tontos de tristeza em palavras loucas de alegria e quando o espaço todo se recobre de preto tanto quanto posso dar de mim procuro descanso numa praça e espero que essas aves tenham asas
nilza azzi
204
Inconstância
Na terra em que havia palmeiras e o sabiá com seu canto habitam jovens faceiras mas seu mundo é desencanto.
Foi-se embora o trovador num navio sem destino a cantar versos de amor e a sofrer por desatino
Nilza Azzi
166
Encontro romântico
O meu amor não teme as madrugadas e vence o frio e a chuva sem receio. Caminha, vem de carro ou outro meio de transporte, por ruas alagadas...
O meu amor me olha e diz que é feio usar qualquer desculpa esfarrapada. Denota indiferença pela amada, mandar uma mensagem por correio.
E para estar comigo, no meu leito, escolhe o seu perfume mais cheiroso, aquele que ele sabe ser perfeito,
num gesto delicado, afetuoso. Assim, desejo vê-lo satisfeito e faço a minha parte por seu gozo.
Nilza Azzi
196
Linhas cruzadas
Para Dudu Oliveira
Vi o fio bem esticado, mas mesmo assim tropecei me atrapalhei nas palavras e não consegui tocar seu âmago, seu sentido
Nas linhas eu me enrolei desenhei um zigue-zague juntei frases desconexas enfrentei os meus pecados e desfiz-me em personagens
Bem do topo da montanha olhei um mar sem sentido a banhar areias brancas mas vacilei nas palavras e perdi encanto e vez
Nilza Azzi
173
Passado
Debrucei-me sobre as minhas incertezas todas presas por um fio, meio suspensas como contas de um colar, as minhas crenças a vacilar labaredas mal acesas...
Depois me ergui, enfrentando indiferenças, sem entender bem o vão das sutilezas... Guardei num susto as palavras todas presas e desdenhei de aventuras mais intensas.
Enfim parti à procura de outros ares, para enfrentar a pressão que cresce farta, além da dor, sem sinais particulares...
Atrás de mim não imprimo qualquer marca, jamais espero que um dia tu me ampares, nessa esperança, minh’alma não embarca.