Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Meu soneto desbotou, perdeu a cor e me conta que jamais falar de amor, ele irá, pois não consegue ter mais força e por mais que ele torça ou se retorça,
fica preso numa forma inconsequente, na aspereza de uma rima repelente. Como fosse um marginal posto de lado, já não tem a mesma glória do passado.
Diz que vai fazer as malas e partir; procurar por novos ares, vai fugir, pois não quer saber de dor de sofrimento.
Eu lhe digo que isso é coisa do momento, mas o pobre diz que não e, decidido, parte mesmo e me deixa deprimido.
Nilza Azzi
45
Bela
brota uma orquídea amarela iluminando o xaxim contrapondo-se ao marrom explode e confunde o verde como um pedaço de Sol solta faíscas de cor e um odor adocicado.
nilza azzi
572
Atirei um cravo n'água
Ando com mania de escrever versos para crianças mas aquela linguagem simples e inocente me faz falta ainda que um dia eu tenha sido a menininha que declamava versos nas datas cívicas e em outras ocasiões ainda que tantas vezes tenha subido ao palco de vestido branco falta um "tantinho assim..." para que eu consiga tocar a pureza... nunca chego até ela e sei que me escapou ou terei me afastado dela porque tive o sonho de crescer de fazer parte do mundo adulto onde há grandes pensadores engodo traiçoeiro que atrai almas ingênuas depois de ter cruzado o limiar que acolhe gente grande escorrego na ilusão da nobreza e do altruísmo sem jamais poder tocar os poderosos ainda que não resvale no chão cheio de limbo ainda assim, não quero chegar a descrever as dores do eu aviltado cresci, mas não sou grande o suficiente para isso e os meus versos, ah!, os meus versos são arremedos inúteis que não ganham prêmios, não recebem aplausos porque trago na voz o azedume de um adulto e a falsa educação de não dizer mais o que penso sem meias palavras sustentada apenas por cabelos cacheados e um brilho nos olhos que mal descortinaram o mundo
Não sou mais uma criança e também não sou adulto a alma veio das alturas, mas anda presa numa carcaça velha embalagem que a desclassifica para as prateleiras da frente para a verdade necessária e contundente de que esse mundo ainda não foi bem sacudido por tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas ainda não foi bastante ameaçado por asteroides e cometas vindos do espaço exterior pelas explosões solares e pelos desmandos dos homens sobre a Terra por guerras atômicas e crianças famintas pela desordem que melhor exporia a nossa pequenez
Então vago perdida pelos sentidos das palavras sem encontrar um nexo e uma exatidão simples o sentido da esperança para mim está perdido na forma extrema de dolorosa e inexorável descrença
Salve, mestre Fernando Pessoa
Nilza Azzi
75
Atraso
Não morro de amores por fogo em floresta, por ave em gaiola, por tudo que agrida e, menos ainda, por tudo que empesta o mundo animal destruindo-lhe a vida.
Não morro de amores por fato homicida, por ignorância, por tudo que gesta ausência de paz e esperança na vida; por tudo que é guerra, essa coisa funesta.
Porém o que dói, em minh’alma, bem fundo, decerto é tortura, em qualquer situação, fazendo morrer o sorriso em meus lábios.
Provoca revolta, esse horror oriundo de seres brutais que atrasados estão bem longe da luz elevada dos sábios.
Nilza Azzi
28
Iniciação
És tu mulher, a guardiã desse portal invisível, aquele que há tanto tempo procuro nos cantos, nas ruelas, nas travessas e alamedas, sem mesmo refletir sobre o cansaço dos meus verbos, a deusa metamórfica do sentido latente. Sem ter a permissão, invado o átrio e peco contra a tua intimidade, a vasculhar além dos teus segredos, nas dobras paralelas. A ousadia é armadilha, veja o espelho de Hércules que aponta para a Medusa vencida. A conclusão das formas, o poema a exasperar a instável perfeição, segues correta, enquanto o ávido, inábil ser que sou, escapa pelas linhas pontuadas de todos os sentidos do teu ser.
Nilza Azzi
52
Intensa
Eu sou assim, alguma coisa incerta: a luz bruxuleante em alvoradas, farol que em mar revolto a nau alerta e tenho a intrepidez que desagrada.
Quisera ser mais sábia e mais esperta, porém me sei um pouco desvairada; nenhuma tentativa me conserta... Sou floco de algodão, ou quase nada.
Sou peça que faz falta no teu mundo, contudo, não me encaixo como queres. Restaram-me as arestas barulhentas,
assim, minha presença, não aguentas! Desejo nivelar-me a mais mulheres, mas quanto mais eu subo, mais me afundo.
Nilza Azzi
33
Urano
Ó meu amado, o quanto espero ver teu rosto, bem junto ao meu com terna sombra protetora; ir por caminhos aos quais dantes nunca fora, teu coração junto do meu e, justaposto,
de forma tal, que eu não me sinta pecadora, pelo compasso irregular e tão oposto, à tua calma compressão, ao antegosto de passear-te pelos prados, tal pastora.
És para sempre a plenitude em minha vida, longe de ti o mundo não ganha sentido; a tua ausência faz de mim um ser disperso.
O beijo doce que conheço e não se olvida, não encontrei em outra boca; é o preferido e o meu prazer é do tamanho do Universo.
Nilza Azzi
47
Simulação
Falar de amor, sem estar apaixonada; de dor atroz, quando a vida me sorri... Buscar certezas nos verbos de outra estrada; ter sonhos maus, acordar feito um zumbi!
Viver os dias, saber que a alvorada conduz à noite, ao crepúsculo rubi e ao esvair-se, a visão atordoada, reconhecer ter falhado... Não previ
que o meu fingir era falso. Ter assim, a dor maior, esse espanto permanente, sem compreender a razão de ser poeta...
E a uma só vez, nessa força que me afeta tornar vazios os momentos do presente, fazer chorar pelo amor longe de mim.
Nilza Azzi
45
Vácuo
Momentos em que alma vive estranha, aqueles sem o som de um mar de rosas, distante de outras horas venturosas; momentos em que luta, perde, apanha.
Desastres naturais – porque curiosas são sempre as situações em que se acanha, enquanto o vergonhoso da façanha, resvala da poesia para a prosa.
É vácuo, tão feroz em seu abalo, a força deste embate, enquanto calo o espanto de viver sem esperança.
É, sim, um vento frio. Ele resseca os olhos que se voltam para Meca. A alma, mesmo morta, não descansa.
Nilza Azzi
38
História pequena
Os olhos da velha chinesa, nos campos de arroz, ancestrais, têm alma que à terra está presa, além dos limites da paz...
Atrás do horizonte dos olhos, nascido de um Sol emergente, encontram-se, dobram-se os polos – a vida – calvário dos crentes.
O mundo contido no espaço, alcance interior da visão, estende as cortinas – colapso – o escuro, onde as dores não são.
Os olhos da velha chinesa esticam as cordas dos sonhos. Constroem a cena indefesa; são tela de filmes tristonhos.