Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
É quando a tarde cai, e o Sol se esconde, e a noite chega rápido, e me alcança, que não posso esquecer-me da criança perdida, não sei quando, não sei onde.
Não é tristeza, não, ou dor que vaza, também não é saudade o que me agarra. É mais a nostalgia... Aquela farra, na rua, ao fim do dia, em frente à casa.
O espectro da noite, e não me iludo, era uma ruptura, o adeus à vida, a forma de aprender que, descabida, um dia chega a morte e leva tudo.
Enfim, quando declina, em seu processo, o dia, e só nos sobra a escuridão, as mágoas, uma a uma, todas vão juntar-se desmedidas, pois não meço o tempo, pelos frutos da estação.
Nilza Azzi
164
Sophia
Um fio vermelho tingia o horizonte, enquanto Sophia bordava serena. No bosque encantado havia rumores e a luz dos amores, além das falenas.
A deusa fiel ao saber inerente, fazia das linhas tecidas, apenas exemplos de histórias, de escolhas antigas, das velhas cantigas e das cantilenas.
Sophia era sábia ao usar as palavras, mas não mais podia aguentar suas penas. Assim, por desejo do Um, ânsia vasta, dos deuses se afasta, mas busca ser plena.
Rever este mito me faz bem à alma – a profundidade do fato me acena – entendo essa angústia que sempre me habita e a minha desdita, já não vale a pena.
Nilza Azzi
57
Amar livremente
Pode o amor trazer prisão (insensatez), se não for compreendido, mas releve. Pretendido como posse e privilégio, pode parecer régio, mas vai-se... É tão breve!
É possível criar laços por amor, porém cabe a nós cumprir o que se deve, que é rompê-los, desfazê-los sem porquês: isso faz de uma vez com que ele se eleve.
Salve o amor que torna livre. Paraíso é viver sem egoísmo e me faz leve. Traz ventura especial amor assim, pois liberto de mim, em minh’alma se inscreve.
Nilza Azzi
58
Dispensável
Eu não preciso que você me ame, nas tardes de verão ensolaradas... O Sol bem me amará, sem que reclame, embora talvez deixe algumas sardas. Eu não preciso que você me ame, se é primavera e o ar me beija doce. Além, nos campos, flores em enxame são sempre luz. São mesmo antes que fosse a imensidão azul, gélido inverno e o ar já frio, rude e fustigante. Se os polos são o lar do gelo eterno, por mim, faz-se completo o meu instante.
Mas chega o outono e as flores viram frutos, a voz da passarada refestela e brilham estes meus olhos enxutos, se bem que a minha rua seja aquela na qual você não passa há muito tempo, porque será o amor sempre impreciso.
Nilza Azzi
81
Ecos
A rosa cala a flor exala a luz abala a dor resvala.
A fêmea sabe a dor que cabe e dá à luz a cruz do tempo.
A tessitura da teia fina feita em ternura brilha, ilumina.
nilza azzi
65
poeira
é noite chove e o cheiro de poeira só faz lembrar que um dia serei pó
depois da chuva a lua vem faceira e eu choro quieta a dor de ser tão só
nilza azzi
68
Ah! Mares
Entre os lençóis azuis da tua cama, nos unimos de forma tão intensa, que o sol quis apagar sua presença e dar lugar ao fogo de quem ama.
E o teu prazer é pura recompensa ao meu afago, fonte dessa chama, de tal desejo, que teu ser reclama igual fervor e nada em mim dispensa.
Nas sucessivas ondas desse mar, em que nadamos juntos, e tão fundo, tu és o comandante do meu mundo.
Se eu sou a ilha para o teu descanso, és sempre a praia para a qual avanço, mulher selvagem, para te abrasar.
Nilza Azzi
62
Critério
A minha mente anda confusa e vaga, perdeu o siso, o pouco que ainda tinha... E assim deixou-me a murmurar sozinha, linguagem muda – parece uma praga.
Por ter causado esta tristeza minha, do pensamento, um fato não se apaga: – indiferente aos rumos desta saga, meu bem-estar despreza e espezinha.
Já o coração precisa de uma voz, pois quer contar do seu estado aéreo; o descompasso, o sobressalto atroz,
mas não consegue agir e ter critério. Se sofre mais que a mente, e sofre a sós, é porque sabe que és um caso sério.
Nilza Azzi
193
As vozes da floresta
Já no princípio soprava a brisa; o vento beijava os brotos mais tenros na floresta e o sussurro da folhagem, calmo, lento, perpassava o meu caminho, em meio desta profusão de odores, sons, que experimento. A flora abriga a poesia e manifesta, sem voz alguma, a beleza mais perfeita: – A luz da tarde é uma noiva que se enfeita
No calor, enquanto as folhas guardam sumos, o cheiro evapora e sobe. Nessa altura, com meu cão adiante, novos sons reúno; comprovo o sabor de uma fruta madura. O ar parado, pesado e mais soturno reforça por fim o vazio... Quem procura saber quanto é dura essa trilha tão negra? O chão mais crestado não segue uma regra.
Vem o outono. Tudo estala em luz cinérea; galhos quebram, quando secos, sem função, e no chão compõem a cama de matéria, num ruído quase nulo, em razão do processo que penetra a terra e fere-a, preparando-a para as neves que virão. Onde piso, já não deixo mais pegadas: – folhas caem – a conversa está eivada.
Quando a neve pesa firme sobre as copas, sobre os galhos, cria um tempo amortecido e seguindo, inda uma vez, a mesma rota, o silêncio é poesia sem ruído. Folha a folha, o choro dela se desloca; no meu imo, dor escura consolido. Vários ciclos tem a senda e, afinal, na floresta vivem juntos bem e mal.
Nilza Azzi #sextina real
78
Visita
Quando, nas madrugadas, o silêncio da minha sala enche o espaço mudo, do céu escuro, dos confins extensos, surgem fantasmas, sombras de veludo, a evolar-se pelo ar, como os incensos. A forma transparente envolve tudo num halo triste; cobre o mundo denso.
Seria a poesia quem visita, vestida de mistérios, de segredos, a solidão eterna da alma aflita? Tão doce, faz brilhar meus olhos quedos, a sílfide atraente, assim bendita, que afasta para longe os velhos medos e traz a inspiração, e eleva, e agita...
Temente de que o dia a leve embora, fecho as janelas, logo apago a luz, cerro meus olhos, repudio a aurora, pois a visão da deusa me seduz. Busco as palavras, pois ela me escora; à sua bênção quero fazer jus e escrevo versos, como o faço agora.