Nilza_Azzi

Nilza_Azzi

Eu me lembro todo dia de um amor de salvação, mas esqueço o que queria e as lembranças lá se vão... Nilza Azzi

n. 0000-00-00

Perfil
85 009 Visualizações

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
Ler poema completo

Poemas

543

Cantilena campestre


toda vestida de azul ela caminha no sonho
não sei de quando desperta
nem do portal que transponho
na névoa desse luar, na poeira das estrelas
a palha do milho maduro, a terra cheirando a chuva
quem sabe de tal sonhar supõe que consegue vê-las
as promessas do futuro
a colheita de candeias
uma pequena andorinha, ao seu lado revoava
e nas mãos comer, lhe vinha
não! não era sua escrava
naqueles campos de milho, a luz da lua se espalha
nos caminhos por que trilho
todo o milharal farfalha
com o brilho das estrelas, por onde o sonho se escoa
polvilha as luzes mais belas e talha o céu de garoa
para ali os reis já vêm
buscando a presença atávica
a noite sabe a Belém
distante, mas sempre mágica

nilza azzi
41

Ave migratória


Deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor,
pequenas aves voam contra o vento forte;
vão para o sul, onde farão ninhos de amor.

Chegado o inverno há que partir, buscar a sorte,
e assim precisam viajar com destemor,
deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor.

A avezinha solitária, quase à morte,
encontra forças pra voar como um condor!
Talvez a busca de um destino nem lhe importe,
mas bate as asas com vontade e com vigor,

deixando os ares congelados lá do norte...

Nilza Azzi
57

Poesia, ah! que te quero!


Poesia assim me escapa
e me deixa triste e só...
Se a vida me desse um mapa
e todo esse rococó
tirasse do meu caminho,
quem sabe, minha Poesia,
eu soubesse o que é carinho;
m sabe a velha alegria
surgisse à frente primeiro,
nesse espaço em que me esgueiro...

Quando chega o desespero, 
fujo às pressas, sem parar. 
Mas às vezes o exagero 
faz com que nos falte o ar; 
Poesia, ah! que te quero, 
nos sonhos de um mundo aberto! 
Por ti eu falo e exagero 
e luto por ti decerto. 
Doce és tu, viva no sonho, 
não nos versos que componho. 

Há flores no teu caminho, 
que não crescem para mim! 
Por certo eu não adivinho 
a direção do jardim, 
onde vivem, sempre belas, 
as ideias e as palavras; 
onde não causem querelas; 
já não sejam de outras lavras... 
Poesia, ah! que te quero! 
nesse meu verso sincero. 

Nilza Azzi

 
46

Em tiras


Enchem os cestos
de tentativas desastradas
os papéis rasgados

Estímulos externos
conduzem a certezas
acredito que consigo
um bom trato com a palavra
mas não sigo nesse trilho
sei que é falta de juízo

A alma dilacerada
reconhece suas tiras
na lixeira insuficiente

Nilza Azzi
39

sons da noite


As notas soam claras
a noite vai errante
a musica preenche
a mente em seu vazio

A dor e a solidão
são pretextos falsos
escorrem livremente
as lágrimas guardadas

A realidade avança
e zumbe nos ouvidos
perfeita expressão
de isolamento extenso

Se o mundo é só espanto
a próxima estação
vai ser uma parada
difícil de encarar

Nilza Azzi
51

Noturno


Estrelas desse céu que, sobre mim,
derramam influências tão sutis,
valei-me pelas preces que não fiz,
poupai-me de viver tão triste assim.

Se tudo sobre a terra tem um fim,
(e nada que eu conheça o contradiz)
livrai-me do impossível, outrossim.

Estrelas merencórias do meu sonho,
não posso confessar que me envergonho
de amar com tal paixão – não por enquanto!

E o céu, que a tudo abarca em sua luz,
conclama a não querer o amor – não tanto –
mas ele é o vencedor que me seduz...

Nilza Azzi
38

Alternâncias


A vida não é pausa, é movimento –
veja a dança de Shiva, a respiração de Bhraman...
E quando um ser se esquiva do compasso,
estaciona.
O sucesso dos que amam
é saber recomeçar.
A cada abraço, a cada beijo,
um novo ensejo; não um fim,
mas recomeço.

A vida não é pausa, é movimento –
seja de sóis, planetas, ventos, águas...
E quando um ser se esquiva, perde o laço,
desmorona.
O fracasso de um viver
é não saber que a vida é essa.
A cada passo, a cada tombo,
não um fim, um novo avesso
pra desvirar.

A vida se renova em sucessão –
veja a dança de Shiva,
de Bhraman, a respiração.

Nilza Azzi
55

Ressaca


Quando a saudade bate à minha porta
e os dias decrescentes, outonais,
são sucessivamente desiguais,
nenhuma distração me reconforta.

Indiscutivelmente não sei mais
porque já nesta vida pouco importa
se a linha do destino é reta ou torta;
viver na desventura é não ter paz.

As aves silenciam bem mais cedo
e mesmo quem, do escuro, não tem medo,
vacila quando o sol declina e some.

Se, à dor desse vazio, falta um nome,
o sentimento agudo que me ataca
semelha os vagalhões de uma ressaca.

Nilza Azzi
21

Pé de couve


Fiz um plano de amor para nós dois,
mas depois percebi que houvera engano;
decidi que plantar um pé de couve
ia dar algum lucro e tive fé...

Mas não é que ele vive bem viçoso
e formoso nas folhas verdejantes?
Dá-me instantes de ação, enquanto cuido
de evitar os pulgões co’a água de fumo.

E consumo uma folha aqui e ali,
pra manter essa planta vigorosa,
já que rosa não serve de alimento.

No momento, conservo a minha escolha!
Fico aqui e, se tanta é minha dor,
meu amor, ao olhar-me, ri feliz...

Nilza Azzi
45

A força


Ela é a força forte que penetra,
com seu falo de luz, serpente alada ,
a caverna matriz, fonte secreta:
luz e sombra são senha nessa entrada.

No mistério do caos, da vida asceta,
brilha a luz, um prenúncio da alvorada;
o princípio de tudo que decreta:
a criação jamais virá do nada.

Mas que não seja a luz jamais direta
e  sua força, a força de uma espada,
não se evada naquilo que secreta
da  fonte escura, em luz escalonada.

Tal disciplina exige a dura estrada
e no saber, contido nesta meta,
não seja o orgulho a busca malfadada,
e  sim a vida, a escolha predileta.

Nilza Azzi


59

Comentários (4)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
yuri petrilli

Belos sonetos!

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

Filipe Malaia

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!