Cantilena campestre
toda vestida de azul ela caminha no sonho
não sei de quando desperta
nem do portal que transponho
na névoa desse luar, na poeira das estrelas
a palha do milho maduro, a terra cheirando a chuva
quem sabe de tal sonhar supõe que consegue vê-las
as promessas do futuro
a colheita de candeias
uma pequena andorinha, ao seu lado revoava
e nas mãos comer, lhe vinha
não! não era sua escrava
naqueles campos de milho, a luz da lua se espalha
nos caminhos por que trilho
todo o milharal farfalha
com o brilho das estrelas, por onde o sonho se escoa
polvilha as luzes mais belas e talha o céu de garoa
para ali os reis já vêm
buscando a presença atávica
a noite sabe a Belém
distante, mas sempre mágica
nilza azzi
Ave migratória
Deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor,
pequenas aves voam contra o vento forte;
vão para o sul, onde farão ninhos de amor.
Chegado o inverno há que partir, buscar a sorte,
e assim precisam viajar com destemor,
deixando os ares congelados lá do norte,
seguindo em busca de alimento e de calor.
A avezinha solitária, quase à morte,
encontra forças pra voar como um condor!
Talvez a busca de um destino nem lhe importe,
mas bate as asas com vontade e com vigor,
deixando os ares congelados lá do norte...
Nilza Azzi
Poesia, ah! que te quero!
Poesia assim me escapa
e me deixa triste e só...
Se a vida me desse um mapa
e todo esse rococó
tirasse do meu caminho,
quem sabe, minha Poesia,
eu soubesse o que é carinho;
m sabe a velha alegria
surgisse à frente primeiro,
nesse espaço em que me esgueiro...
Quando chega o desespero,
fujo às pressas, sem parar.
Mas às vezes o exagero
faz com que nos falte o ar;
Poesia, ah! que te quero,
nos sonhos de um mundo aberto!
Por ti eu falo e exagero
e luto por ti decerto.
Doce és tu, viva no sonho,
não nos versos que componho.
Há flores no teu caminho,
que não crescem para mim!
Por certo eu não adivinho
a direção do jardim,
onde vivem, sempre belas,
as ideias e as palavras;
onde não causem querelas;
já não sejam de outras lavras...
Poesia, ah! que te quero!
nesse meu verso sincero.
Nilza Azzi
Em tiras
Enchem os cestos
de tentativas desastradas
os papéis rasgados
Estímulos externos
conduzem a certezas
acredito que consigo
um bom trato com a palavra
mas não sigo nesse trilho
sei que é falta de juízo
A alma dilacerada
reconhece suas tiras
na lixeira insuficiente
Nilza Azzi
sons da noite
As notas soam claras
a noite vai errante
a musica preenche
a mente em seu vazio
A dor e a solidão
são pretextos falsos
escorrem livremente
as lágrimas guardadas
A realidade avança
e zumbe nos ouvidos
perfeita expressão
de isolamento extenso
Se o mundo é só espanto
a próxima estação
vai ser uma parada
difícil de encarar
Nilza Azzi
Noturno
Estrelas desse céu que, sobre mim,
derramam influências tão sutis,
valei-me pelas preces que não fiz,
poupai-me de viver tão triste assim.
Se tudo sobre a terra tem um fim,
(e nada que eu conheça o contradiz)
livrai-me do impossível, outrossim.
Estrelas merencórias do meu sonho,
não posso confessar que me envergonho
de amar com tal paixão – não por enquanto!
E o céu, que a tudo abarca em sua luz,
conclama a não querer o amor – não tanto –
mas ele é o vencedor que me seduz...
Nilza Azzi
Alternâncias
A vida não é pausa, é movimento –
veja a dança de Shiva, a respiração de Bhraman...
E quando um ser se esquiva do compasso,
estaciona.
O sucesso dos que amam
é saber recomeçar.
A cada abraço, a cada beijo,
um novo ensejo; não um fim,
mas recomeço.
A vida não é pausa, é movimento –
seja de sóis, planetas, ventos, águas...
E quando um ser se esquiva, perde o laço,
desmorona.
O fracasso de um viver
é não saber que a vida é essa.
A cada passo, a cada tombo,
não um fim, um novo avesso
pra desvirar.
A vida se renova em sucessão –
veja a dança de Shiva,
de Bhraman, a respiração.
Nilza Azzi
Ressaca
Quando a saudade bate à minha porta
e os dias decrescentes, outonais,
são sucessivamente desiguais,
nenhuma distração me reconforta.
Indiscutivelmente não sei mais
porque já nesta vida pouco importa
se a linha do destino é reta ou torta;
viver na desventura é não ter paz.
As aves silenciam bem mais cedo
e mesmo quem, do escuro, não tem medo,
vacila quando o sol declina e some.
Se, à dor desse vazio, falta um nome,
o sentimento agudo que me ataca
semelha os vagalhões de uma ressaca.
Nilza Azzi
Pé de couve
Fiz um plano de amor para nós dois,
mas depois percebi que houvera engano;
decidi que plantar um pé de couve
ia dar algum lucro e tive fé...
Mas não é que ele vive bem viçoso
e formoso nas folhas verdejantes?
Dá-me instantes de ação, enquanto cuido
de evitar os pulgões co’a água de fumo.
E consumo uma folha aqui e ali,
pra manter essa planta vigorosa,
já que rosa não serve de alimento.
No momento, conservo a minha escolha!
Fico aqui e, se tanta é minha dor,
meu amor, ao olhar-me, ri feliz...
Nilza Azzi
A força
Ela é a força forte que penetra,
com seu falo de luz, serpente alada ,
a caverna matriz, fonte secreta:
luz e sombra são senha nessa entrada.
No mistério do caos, da vida asceta,
brilha a luz, um prenúncio da alvorada;
o princípio de tudo que decreta:
a criação jamais virá do nada.
Mas que não seja a luz jamais direta
e sua força, a força de uma espada,
não se evada naquilo que secreta
da fonte escura, em luz escalonada.
Tal disciplina exige a dura estrada
e no saber, contido nesta meta,
não seja o orgulho a busca malfadada,
e sim a vida, a escolha predileta.
Nilza Azzi