Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Pudesse eu compreender tua presença, parcela dos meus sonhos, hoje em dia, poria luz intensa e colorido por tudo ao meu redor, sem pensar mais. Procuro passo a passo a solução, perfaço do meu verso, a longa estrada, mas a palavra já se vai sem me levar.
Nilza Azzi
35
Gala
O silêncio conversa a sós comigo, conhece a voz que sabe, mas se cala. As luas giram roucas, sem perigo, enfeitam-se as estrelas para a gala.
O céu, de um brilho tolo e muito antigo, esquece a pertinência de uma escala e diz: – A imensidão é meu castigo! E a vida, haverá meios de imitá-la?
Aquém dessa cortina de poeira, a cósmica poeira trás o espaço, instila-se um vazio estranho e denso.
Persigo uma palavra – ela se esgueira. Remendo a sombra nua do que faço e sorvo a inanição de um mundo denso.
Nilza Azzi
85
Fascínio
Quando, da tua boca que fascina, bebo desse desejo que me aquece, tenho ciência desta minha sina, de ser mulher, sem merecer benesse,
pois teu poder viril tem toxinas, às quais eu não resisto, nem com prece. Com parte na fraqueza feminina, eu sou o dia claro que anoitece.
Padeço dessa ausência que há de mim, e nela me transformas, sem que eu queira, nesse vulcão que abriga fogo e lava.
Eu morro em teu abraço como escrava, como se fosse coisa corriqueira alçar-me à erupção que leva ao fim.
Nilza Azzi
30
Happening
Fazer amor contigo, às escondidas, apenas pelo gosto ao proibido. Com jeito simular umas mordidas, na orelha, e murmurar ao teu ouvido
besteiras e vontades reprimidas, no mais secreto espaço da libido. Criar um rebuliço em nossas vidas, em busca de um conforto desmedido,
sentir que nos tornamos por momentos um só, já que um do outro tão sedentos, buscamos nos unir de corpo inteiro.
Ser assim, de tal forma que teu cheiro, ainda ao acordar, esteja em mim, como se os sonhos não tivessem fim...
Nilza Azzi
206
Fábula
... E não foi fácil responder que não, que não queria teu amor pra mim! Mas não havia mesmo solução, morreu bem na garganta aquele sim.
Se sonho, ó meu amado, com venturas que, ao certo, viveria nos teus braços, decerto, o que mais vale é o que perdura, num mundo de carinhos tão escassos.
Há trilhas isoladas, solitárias, contudo a chuva lava as nossas mágoas e o mundo, renovado, se revela...
No bosque quieto das araucárias, sementes, que esperaram pelas águas, germinam ao vencer medo e procela.
Nilza Azzi
48
Estrelas e nuvens
Há nuvens tão brancas no céu infinito, um terno convite a contar carneirinhos. Também há estrelas e, muitas, reflito, mas sempre estarão a brilhar tão mansinho?
A noite agradável revela um conflito, a brisa suave parece um carinho e cresce o luar, cada vez mais bonito, aqui neste canto, um quintal comezinho.
Matéria de sonhos e versos perfeitos, mistérios celestes instigam a mente... Quisera viver bem mais leve e contente,
Ccntudo uma dor vem roer, de tal jeito, pedaços do ser, que a saudade rejunta, e seguem disjuntas, estrelas e nuvens.
Nilza Azzi
182
Estupor
E não teria riso, espanto ou graça, o amor em meu modelo predileto, repleto do desejo que devassa, doçura incontrolável e sem veto;
e não seria um jogo sem trapaça, não fosse a natureza desse afeto, intensa na alegria que me abraça e abala o mundo interno tão quieto.
E não teria o céu brilhos distantes, se para tanto não houvesse antes matéria nos espaços siderais.
Assim, meu bem querer, o amor se faz da força da emoção e, sem engano, é graça, é riso, é espanto cotidiano.
Nilza Azzi
48
Canto escuro
Perene aquela dor, e aparecia, conforme uma tristeza, colorida das cores desbotadas desta vida, sem graça, sem prazer, sem alegria. A trégua nunca vem e nos traz paz, porém se tudo passa, a dor também e, mesmo, nesta terra de ninguém, nenhuma das escusas satisfaz. O medo mais guardado tinha forma das noites sem luar. Era tremendo! E, desde os velhos tempos, vinha sendo o vácuo poderoso que transtorna.
Inútil esconder, negar seu nome, — a praga nos devasta e nos consome.
Nilza Azzi
35
Eras
Eras entre os amores, preferido, à noite o raio de luar, e o sol que dava ao dia o brilho e o sentido, da primavera, o encanto do arrebol,
e, também, eras música ao ouvido... Contigo o encanto e a cor da natureza, o livro aberto que nunca foi lido, eterna dúvida e pouca certeza,
a clara solidão do meu caminho, a rota, o desatino do meu rumo e a frouxa gratuidade das quimeras.
Se o teu melhor segredo eu adivinho, as dores do abandono enfim assumo, em face da alegria de outras eras.
Nilza Azzi
58
Entre nós
Eramos dois, a sós, naquele quarto, apenas tu e eu e uma certeza: – a sensação de um tempo em que já fartos, as cartas, espalhamos sobre a mesa.
Na mesa eram valores que reparto, com expressão banal, sem sutileza, as águas derramadas nesse parto, a dor dessa tortura ainda acesa.
Se tu eras o filho que eu não tive, a estrada a desbocar em um declive, a guerra, desbancando a minha paz,
já eu, enquanto exemplo da desdita, sentia em mim a culpa infinita de até não conseguir amar-te mais.