Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
A vindima perfumada de estrutura poderosa faz lembrar meu namorado vindo das terras vulcânicas a um tempo ácido e seco com seus toques sensoriais vinho claro mas seguro que sabe à uva e ao mar
Nilza Azzi
31
A um professor
Quando eu crescer, quero ser professor, como você, de uma classe repleta... Pelas crianças, fazer o que for, pois através da esperança e da meta,
elevaremos o nosso futuro. Melhores rumos daremos ao mundo, quando encontrarmos um meio seguro de formação, de um saber mais profundo.
Quando eu crescer, também quero ensinar, essa é a frase que espero ecoar nos corredores de nossas escolas.
Com alegria, os alunos, gabolas, seguindo exemplo concreto e cabal, tomar seus mestres por seu Ideal.
Nilza Azzi
46
Nas bolhas desse vácuo
Há calma. E se nenhuma ave canta e morre na garganta o canto meu, as folhas não se mexem por espanto: perdeu-se a voz do amor. Que então se grave,
nas bolhas que esse vácuo emudeceu, a ausência e a condição não desejada e nada, nada mesmo, eu sei que nada, da atroz separação trará consolo.
Se o dolo de uma espera sem resposta, não pode a mim trazer mais nenhum mal, quisera o bom silêncio da quimera...
Sacode a minha alma em sobressalto aquela voz, que incauto inda procuro, no silêncio, tão escuro, de minh’alma.
Nilza Azzi
34
O exercício...
O exercício de amar é cansativo; incansável, o mar conduz-se em ondas... As verdades da vida são redondas, morrer é meu destino, mas eu vivo!
Nilza Azzi
520
Saber
Em pleno espaço, enquanto o tempo passa, as aves nada sabem sobre a hora e cantam, voam, vivem sempre agora, e comem sobre a terra, o que há de graça.
Nilza Azzi
587
Oscilações
Chegou um dia à ilha da Incerteza, navegador versado em sete mares. Ao percorrer a praia achou belezas, nenhuma, não, prendia os seus olhares!
No alto de um outeiro, uma princesa tecia um véu de cores estelares. Nas teias que sustinha a alma acesa, adormecia em dúplices lugares.
Não era o navegante um mau sujeito, nem era a tal princesa um sonho bom; em tudo estava inserto um outro tom.
Se o sonho da princesa era perfeito, vivia o bom marujo em desventura, na dor de um desviver que não se cura.
Nilza Azzi
46
Querendo dizer que eu te amo
Se eu acreditasse no amor, não perderia esta chance, única ao meu alcance de dizer-te no poema do momento, sobre um simples sentimento: "‒ Eu te amo!"
Mas não sei escrever poemas de amor; e, dilema, nem mesmo sei escrever um poema: às vezes, um ou outro verso me descreve.
Se agora é o momento, breve, de revelar o amor, sinto-me tentada a dizer teu nome, mas a coragem logo some e me vejo tola. E já não me consola a certeza do sentir; e me cabe trilhar as entrelinhas, a te escrever sem nexo, o que nem é verdade.
Mas sinto uma saudade de quando estás comigo: o abrigo de um abraço costumeiro e forte, o alívio do cansaço de viver, quem sabe, a estranha inquietude dessa falta de esperança, a dança dessas horas inconstantes, as relevantes flores sem perfume, o lume tão mortiço, os campos que perderam viço e a lua prisioneira de um escuro...
A falta de futuro, o insípido passado, não sabem se de amor um dia eu hei falado.
Nilza Azzi
58
Boneca de trapos
Quando um dia eu acordei, sem inda saber quem era, ao meu lado imaginei as flores, a primavera...
Mas alguém sorriu e disse: -Vejam só que bonitinha! E se esse alguém não sorrisse, como saber de onde eu vinha?
Nas mãos que ali me tomaram, já me vendo à luz do sol, entendi que me fizeram com tiras de algum lençol.
Uma boneca de trapos, – cada um tem uma história – para alguns os grandes atos, para outros, menor glória.
Minha vida de boneca era inteira e bem feliz, mas me usaram de peteca; não fui eu quem assim quis.
Depois de despedaçada, perdi todo o meu valor. Hoje não me sobra nada e vivo só, sem amor.
Nilza Azzi
33
Tambor
Levado pelas águas de um riacho, um seixo foi rolando serra abaixo e quanto mais rolava, mais polia a sua superfície lisa e fria.
Cristal, rico em rutilos cintilantes, um dia se enroscou, não foi adiante, e ali perdido em meio a tantas pedras, quedou-se a meditar em suas quedas.
E havia no riacho quem olhasse o seixo e reparasse em suas faces, na forma de aparência estranha e rara.
Porém novo destino se escancara, depois de ser colhido numa enchente que o pôs em movimento novamente.
Nilza Azzi
33
O começo é pelo avesso
Se sufoco o meu grito e perco a deixa e se aflito o meu canto desafina, resta pranto, um buquê que assim se enfeixa, e o porquê dessa mágoa cristalina.
E se trago a saudade sob um freio e me invade o desejo de mudar, está dentro de mim o que mais creio; uma ação que dispensa qualquer par.
É uma luta que vença o que há de errado e analise a conduta, o modo interno, deixe o inferno e procure um outro foco,
pois por mais que perdure o bem sagrado, se jamais for meu mundo o que governo, o exterior não atinjo ou mesmo toco.