Canto I Essa que chora ante o caixão aberto, Por quem dizias ter amor, eu sei, Sofre por ti, um pouco, mas decerto Seu coração lavrou a própria lei, Na solidão sem tempo do deserto, Sem abrir mão da liberdade ao rei. – Sob esse véu que cobre a tal tristeza, Resiste a alma límpida e coesa.
Canto II Bem vês agora que escapou inteira Da servidão que lhe quiseste impor E na conversa muda e derradeira, Em teu respeito, um mínimo de dor Expressa agora, à sua maneira, Ainda presa ao súbito estupor. – E nessa lágrima tímida que verte, Reverencia o teu corpo inerte.
Canto III Caminha sempre adiante com firmeza, Embora saiba dar um passo atrás, Para ajustar-se às leis da natureza E avançar de forma mais vivaz... Mantém, consigo, a esperança acesa, E não espera pelos outros, mais... – A vida é roda e pelo tempo gira; O que é verdade, nunca foi mentira.
Quando, da Lua, as cores se arrepiam, como se fossem luzes da ribalta, e quando o som do violão faz falta para embalar as vozes da poesia,
quando as palavras não colam na pauta, tal como a noite não cola no dia, quando o tambor percute à revelia para marcar a dança e a ressalta,
além dos montes, nos longes da terra, vozes secretas urdem velhos planos, sobre uma guerra resistente e antiga,
e o velho alfa, que comanda a liga, jamais emite um uivo leviano e pelas matas, pelos campos, erra...
Nilza Azzi
193
A poesia borralheira
Não tenho quem aqueça as minhas mãos geladas; nem mesmo quem me abrace e seque os olhos meus. Não mora em meu borralho, a dádiva das fadas; sapatos de cristal só servem pra museus...
Nilza Azzi
290
metáfora
ó límpida água que espirra asperge borrifa orvalha e respinga
ó água tão pura que hidrata escorre lava e repara
ó água tão fresca que é gozo afago carícia alegria e folguedo
as penas molhadas os gritos, os jatos a bênção do banho
nilza azzi
57
Viciosa utopia
Acordar-te no poema da manhã com a barba ainda por fazer a despertar-me um susto. Inventar-te no poema da tarde usando uma camisa azul arrebatando o olhar. Tatear-te no poema da noite o corpo recendente e nu fonte das instâncias últimas.
nilza azzi
184
Poema in comum
Tu és o meu poema de ontem, de antes, de sempre. Navio que chega e parte sem aviso, destronas meu juízo e roubas minha cena.
Tu és esse desejo alheio aos meus sentidos, no desalinho das palavras mal brotadas, nas desbotadas cores das figuras, nessa mistura estranha dos meus nervos.
Tu és o estranhamento em verbos novos, a súbita mudança, a quebra de linha, a rinha onde lanço esta disputa meu texto livrado à voz dos povos.
Nilza Azzi
155
stripper
brilha uma luz ecoa um som que chega quase sem sentido por todo o bar o som das vozes emudece a perfeição da dançarina é irreal contém a glória de um segredo inviolado mas muitas palmas e assobios requisitam que tire logo alguma peça uma por vez embora saiba o que ao final terá perdido ela começa o ritual que já conhece bem calmamente, então, começa a se despir sabendo os truques que entretém uma plateia e não revela nada além do que não quer a maquiagem que recobre a sua face mantém o rosto impassível nessa máscara no frenesi que vai seguindo há quase luta uma disputa por um tempo prolongado mas afinal o jogo acaba e resta ao palco um corpo frágil infeliz e quase nu e uma verdade disfarçada em cada gesto
nilza azzi
58
Rede de segurança
Rede de segurança Em uma das mãos a argola noutra a pilha de palavras ando na corda bamba
Existe o horizonte, longe, além e o precipício abaixo
É sempre o óbvio que transparece apesar do peso a palavra levita enquanto avanço o passo
A plateia apenas observa alguns torcem por mim outros querem meu fim
Por covardia não olho para baixo enquanto o vento balança o fio e o vazio envolve os sentidos
nilza azzi
175
Viés
olho os teus poemas com olhos de través cortando as palavras num viés bem comprido num mergulho indefeso nos jogos de sentido barco sem leme entre luas e corujas e mares e pontes e o coração que treme
nilza azzi
46
Leituras
Procura-me, perdida nos teus olhos, no momento em que a chama atinge o pico, e verás que sorrio e não me entendes, porque tu nada sabes do infinito.
Vem a mim nos jardins e nos pomares, vê que exulto entretida no trabalho e os meus ares dirão que estou feliz — Poderás entrever restos de sonhos.
Se a caminho da praia tu me encontras, nos olhares perdidos bailam luzes — sutilezas do mar enchendo os ares — as verdades de ser fecham-se em conchas.
Ao entrares na casa sombreada, no silêncio das tardes protegida, tenho um livro nas mãos, um mundo posto e não podes decifrar este sorriso.
Procura-me, se chego da viagem e despejo a bagagem pela cama, Pois, se volto, a saudade me venceu — Nada sabes das lendas de quem ama.
Nilza Azzi
56
Horas absurdas
Oras absorta ao céu teu absurdo manto azul a face oculta. Horas de silêncio deslizam vãos e véus. Sonhos e refluxo eras e horas oras entre heras... Teu absurdo manto verde pompa e festa. O grito adormecido, tua boca era ora a espera, ora o abandono. Visões e reflexo do Universo em absurdos olhos azuis silentes. Horas absurdas da manhã teu café com leite jornal do dia e pão com manteiga.